+55 (61) 9 7400-2446

Sem categoria

Luiz Davidovich: “O Ministério da Ciência foi demolido”

Na tarde de quinta-feira (12), durante uma cerimônia no Palácio do Planalto, Gilberto Kassab (PSD) assumiu a liderança de um ministério recém-criado – virou ministro da Ciência, Tecnologia, Inovação e Comunicações. O nomão une duas pastas que, durante os anos Dilma, operaram em separado. Antes de reagir ao anúncio do novo ministro, a comunidade científica nacional protestou contra a reestruturação. Desde o final de 2014, a ciência brasileira amarga a perda de recursos. Entre 2014 e 2015, o orçamento destinado aoMinistério da Ciência e Tecnologia foi reduzido em 25%. No ano seguinte, a queda foi de 37%. A contenção tem impacto direto no financiamento das pesquisas – e na qualidade da ciência feita no Brasil. Pesquisadores brasileiros temem que a união da pasta com o Ministério das Comunicações aprofunde a crise do setor: “Foram unidas áreas muito diferentes”, diz Luiz Davidovich, presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC) e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro. “Houve uma sinalização de que ciência e tecnologia não são tão importantes”.

Entidades do setor emitiram notas criticando a reestruturação. Um manifesto encabeçado pela Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e pela ABC chamou a medida de “artificial”: “É grande a diferença de procedimentos, objetivos e missões desses dois ministérios”, diz o texto, divulgado pelas entidades antes que a mudança nos ministérios fosse confirmada. “A junção dessas atividades díspares em um único Ministério enfraqueceria o setor de ciência, tecnologia e inovação, que, em outros países, ganha importância em uma economia mundial crescentemente baseada no conhecimento e é considerado o motor do desenvolvimento”. Nessa entrevista a ÉPOCA, Davidovich defende que, embora o corte de ministérios possa ser uma medida saudável, ele não deveria atingir a ciência: “Em época de crise, os países desenvolvidos aumentam os investimentos em ciência e tecnologia. Porque é uma maneira de superar os problemas”, afirma.

ÉPOCA – Há uma lógica na junção entre Ciência e Comunicações? As áreas são aparentadas?
Luiz Davidovich –
 Eu não entendo qual a lógica, realmente não sei. Acho que houve uma orientação mais geral de diminuir o número de ministérios, o que é uma proposta interessante, saudável. Mas, no caso da Ciência e Tecnologia e Comunicação, foram unidas coisas muito diferentes. O Ministério da Ciência e Tecnologia (Mcti) tem um leque de missões, e uma agenda de análises de projetos muito próprios. Por exemplo: o Mcti coordena cerca de 20 institutos de ciência e tecnologia que são voltados para temas de alto interesse da sociedade brasileira. Há instituto voltado para pesquisas amazônicas. Outro é voltado para energia nuclear, aplicações em radioisótopos, produção de rádiofármacos – que são substâncias importantíssimas para a saúde. Há institutos voltados para a área de astronomia. Outros, voltados para ciências físicas. Os programas e projetos desses institutos são analisados por comissões compostas pela comunidade científica e, eventualmente, pela comunidade empresarial ligada a pesquisa, desenvolvimento e inovação. E esse processo é avaliado por mérito científico e tecnológico. É essa a rotina de trabalho do Mcti. Já o ministério das Comunicações tem outra rotina de trabalho. E as decisões lá tem mais relação com rádio e televisão, correios e telégrafos. Aplica-se um método de avaliação de projetos que é necessariamente diferente. Essa junção, por isso, preocupa muito. O Mcti teve uma trajetória de mais de 30 anos muito bem sucedida. Foi graças a ele que temos agora, por exemplo, fundações de amparo à pesquisa em todos os Estados da federação. Temos secretarias de ciência e tecnologia em todos os Estados. O Mcti motivou o grande desenvolvimento do Brasil. As fundações de amparo e pesquisa são muito importantes na consideração dos problemas regionais do Brasil. Na aplicação de ciência e tecnologia para a solução de problemas regionais. A agenda do ministério das Comunicações é completamente diferente. Foi um erro fazer essa junção. Foi um erro prejudicial ao futuro do país.

Fonte: Revista Época

Próximos Eventos