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Artigo – A saída pela inovação

É certo que o país está diante de um período de restrições fiscais e monetárias. Incertas são a intensidade e a duração desse cenário. Ele poderá ser mais curto e menos áspero quanto maior a confiança sobre o rumo do ajuste e suas prioridades. Parece haver consenso de que o investimento privado é uma delas, especialmente os movidos pelo progresso tecnológico.

A ser assim, que se transforme esse consenso em realidade o quanto antes, de maneira a que não se perca tempo com o encaminhamento da solução para o descompasso entre o aumento dos gastos públicos e a capacidade de a economia financiá-los. Essa é a condição número 1 para o país almejar um futuro melhor, que virá com a recuperação vigorosa e, sobretudo, qualificada do crescimento econômico.

O país enfrenta um acúmulo de passivos que não são só econômicos e políticos. O passivo da inovação e do desenvolvimento tecnológico é até mais impressionante, destacando-se, por exemplo, na geração de energia e no modelo da indústria de transformação, esta voltada basicamente para o mercado interno e muito pouco para exportação.

Essa configuração do sistema produtivo brasileiro gerou defasagens dificilmente superáveis apenas com medidas macroeconômicas e desonerações casuísticas. A indústria precisa muito mais que alívio conjuntural, precisa de uma política econômica que priorize a oferta de maneira inequívoca e supere os obstáculos ao desenvolvimento tecnológico pelas nossas empresas, inclusive as estrangeiras, e aos modelos de negócios inovadores. Essa agenda não é nota de rodapé.

Ela é condição prévia, tanto quanto a estabilidade econômica e os acordos de livre-comércio, para a indústria reaver o tempo perdido nos avanços tecnológicos e de mercado, que estão adiantados em muitos países, sob a liderança dos EUA e da China. É o diferencial dos engenhos tecnológicos, justaposto à qualidade, que faz Suíça, Alemanha, Suécia, economias sem vantagens cambiais e com alto custo salarial, serem potências industriais e exportadoras.

Um sistema produtivo pouco inovador candidata-se a integrar as cadeias produtivas globais tão somente pelos atributos do salário baixo, da legislação ambiental frouxa e da moeda desvalorizada -fatores cada vez menos aceitos socialmente até entre os “tigres asiáticos” e na China, onde o diferencial da inovação e a preocupação ambiental viraram políticas permanentes.

Não cabe mais na nova ordem internacional cogitar investimentos à revelia dessas megatendências. Na indústria, a inovação já provoca rearranjos, com novas empresas fustigando as grandes corporações. E, na área climática, a alta incidência de desastres naturais em todo o mundo tende a se tornar dramática. A seca, por exemplo, não é um evento geográfico restrito ao Brasil, mas disperso, afetando EUA, Índia, África. E, quando não é a escassez de água, é o seu excesso.

Novamente, tal como a transformação em curso na indústria, lá fora não se resolvem tais problemas só com capitais, mas com programas fortemente enviesados pela tecnologia. A eficiência energética é um desses desdobramentos do investimento pautado pela ciência.

Um relatório divulgado há pouco pela IEA (Agência Internacional de Energia, na sigla em inglês) apurou que o consumo eficiente de energia já é o primeiro “combustível” das maiores economias. Ou seja, usa-se menos carvão e petróleo, principais emissores de CO₂, para produzir e iluminar. E a esse ganho se adiciona a expansão das energias solar e eólica, cujo custo encolhe pelo avanço tecnológico e à medida que aumenta a escala de produção. Não somos referência em nenhum desses itens.

Mais de 350 investidores globais, com US$ 24 trilhões em ativos, cobraram das lideranças mundiais, durante evento promovido semanas atrás pela ONU, uma “taxação significativa” das emissões de carbono a fim de dar convicção ao capital sobre a obsolescência futura dos combustíveis fósseis. Isso nos atinge, e pode por o pré-sal em questão.

Não há como desconsiderar as grandes tendências do mundo em termos tecnológicos, ambientais e culturais. Essencialmente, são avenidas que demandam visão de futuro do governo e sólido apoio empresarial para que possamos trilhá-las. São também ingredientes que não podem faltar à formulação de uma boa política econômica.

Artigo publicado na Folha de São Paulo em 07/04/2014

Fonte: Jornal Folha de São Paulo

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