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Vida e obra de Portinari são lembradas em comemoração ao Dia Mundial da Ciência pela Paz e pelo Desenvolvimento

João Candido Portinari contou a história do painel ‘Guerra e Paz’, doado pelo Governo à sede da ONU, e lembrou que a militância pela paz permeou a vida de seu pai.

“Não há cidadania sem memória e não há memória sem arte”. Com uma de suas frases favoritas, o matemático João Cândido Portinari, filho do artista plástico Cândido Portinari, resumiu, na última sexta-feira (9), na Casa da Ciência, no Rio de Janeiro, a comemoração antecipada ao Dia Mundial da Ciência pela Paz e pelo Desenvolvimento, estabelecido em 10 de novembro pela Unesco desde 2001. A ideia da efeméride é fortalecer as atividades científicas como aliadas na construção de sociedades sustentáveis e pacíficas.

João Cândido dedicou sua palestra a Sergio Mascarenhas e durante uma hora e meia discorreu sobre temas como as relações internacionais, a ciência e a arte, plasmados em uma das mais célebres obras de seu pai, um apologista do pacifismo. Trata-se de ‘Guerra e Paz’, doada pelo Governo brasileiro à sede das Nações Unidas, em Nova York, em 1956, mas que desde o fim de 2010 se encontra no País para restauro e exposição. “A paz é o centro da vida, da obra e do legado de Portinari”, afirma, lembrando que em 1950 o artista ganhou a Medalha de Ouro Internacional pela Paz, “o Nobel da época”.

“Queremos uma ciência como a arte, comprometida com valores éticos. Temos que reafirmar isso”, destaca Ildeu de Castro Moreira, professor do Instituto de Física da UFRJ e mediador do evento. “A guerra e a violência são geradas pelo desconhecimento. A ciência tem uma linguagem universal que aproxima os povos”, completa João Cândido, que lembrou que a ciência e tecnologia levaram a invenções terríveis, como bombas, mas também atenuaram o sofrimento humano. Ele sublinha a “grande responsabilidade” que os cientistas têm.

Visto negado

O criador do Projeto Portinari, iniciativa que completa 33 anos em 2012, conta que sua família foi vigiada minuciosamente por agentes antes e durante a ditadura. Recentemente, ele descobriu, em antigos arquivos do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), no Rio de Janeiro, documentos relacionados a seu pai com informações sobre sua família recolhidas de 1939 a 1962, ano em que o artista morreu. “Seu envolvimento em movimentos pela paz era visto como ‘rótulo’ para práticas comunistas”, conta.

A ligação com o comunismo fez com que Portinari se exilasse no Uruguai e impediu que o artista fosse à inauguração de ‘Guerra e Paz’ na ONU, em 1957, já que, na época, os Estados Unidos viviam à sombra do macarthismo, e seu visto foi negado. Anos depois, conforme lembra João Cândido, o ex-presidente americano Bill Clinton fez um pedido de desculpas formal para a família e para o País.

Composta por dois painéis, a obra ‘Guerra e Paz’ retrata, em cada um deles, as duas situações. Porém, no ‘Guerra’, não há imagens explícitas de violência, tanques ou armas. Apenas o sofrimento, representado, entre outras formas, por diversas ‘pietà’, mulheres que sofrem com seus filhos mortos no colo. “Portinari queria retratar a dor da guerra e não desejava ver a obra datada [com equipamentos militares da época]”.

Por outra parte, o painel da ‘Paz’ mostra que esse estado não é apenas a ausência da guerra, e sim a situação de bem-estar da vida humana. “A paz é a diminuição da desigualdade, a melhoria da qualidade de vida”, pontua Ildeu Moreira, propondo uma reflexão profunda pelo Dia Mundial da Ciência pela Paz e pelo Desenvolvimento sobre “a ciência que se quer”.

João Cândido lembrou um discurso do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva na abertura da Assembleia Geral da ONU de 2007, em que recordava que o painel da ‘Guerra’ fica visível ao visitante que entra na ONU e o da ‘Paz’, ao que sai, resumindo a ideia da instituição de transformar a guerra em paz. Portinari levou quatro anos na elaboração da obra (oito meses de pintura), que exigiu cerca de 180 estudos preparatórios. Ao longo de sua vida, o artista realizou 4.991 obras.

‘Turnê’ da obra

Antes de serem fixados na ONU, os painéis foram inaugurados por Juscelino Kubitschek no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, em 1956, em uma festa para convidados. Cinquenta e quatro anos depois, eles voltaram para o mesmo palco do teatro carioca para uma exposição aberta ao público, que, em 12 dias, levou 40 mil pessoas ao Municipal.

O sonho de trazê-los de volta para o Brasil só foi possível porque o edifício sede da ONU teve que passar por reformas. Como parte do acordo, o Brasil teria que restaurar a obra, de mais de duas toneladas, composta por 28 partes, medindo 14m x 10m, aproximadamente. Ela será devolvida a Nova York em 2014, quando terminarem os trabalhos no prédio das Nações Unidas.

Durante sua temporada no País, ‘Guerra e Paz’ passou também por São Paulo, no início de 2012, onde ficou exposto por três meses no Memorial da América Latina, com um público de 200 mil pessoas. Até janeiro de 2013, ela estará em Fortaleza, indo em seguida para Brasília e, no segundo semestre, desembarca em Belo Horizonte. Por fim, será exposta em Oslo, na noite de entrega do Prêmio Nobel da Paz de 2013.

No Rio, os eventos comemorativos do Dia Mundial da Ciência pela Paz e pelo Desenvolvimento foram organizados pela Casa da Ciência, em parceria com o Projeto Portinari, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação. “Esperamos que as comemorações se espalhem ainda mais pelo País  nos próximos anos”,  conta Moreira.

Fonte: Clarissa Vasconcellos – Jornal da Ciência

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