Destaques

Satélites: maior aproximação e diálogo entre MCTIC, AEB e CCISE

Parte significativa do programa espacial brasileiro destinado a aplicações de Defesa é coordenada e acompanhada pela Comissão de Coordenação de Implantação de Sistemas Espaciais (CCISE), sob a presidência do Brigadeiro do Ar José Vagner Vital. Em 2019, com a maior presença militar no governo, apareceram sinais de que a área espacial poderá ganhar novo impulso. Ações mais concretas, que dependem de orçamento e de execução de projetos, ainda estão distantes, mas algumas coisas mudaram. Uma delas é um maior diálogo da CCISE a Agência Espacial Brasileira e o INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), órgãos vinculados ao Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC) e que coordenavam a política aeroespacial civil e parte dos trabalhos de pesquisas. Nesta entrevista o Brigadeiro Vital fala sobre os projetos de Defesa, sobre a perspectiva de uso do Centro de Alcântara e das futuras aplicações.

TELETIME – O que mudou na CCISE e nos trabalhos referentes ao programa espacial brasileiro ligados à Defesa a partir do atual governo?

Brig. Vital – Para a área espacial, a mudança de governo facilitou não pelo fato de ter um ministro de origem militar no Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), mas um astronauta (ministro Marcos Pontes), que é alguém que conhece o setor espacial. Para nós isso é muito significativo porque facilita o entendimento dos problemas e onde tem que ser colocada a prioridade.

Ele não teve passagem pela CCISE?

Foi outro caminho, a CCISE existe só desde 2012. Ele é pioneiro na área. Mas o fato de o ministério ter esta prioridade para a área espacial, que nunca foi prioridade como agora, é positivo. A parte científica é muito ampla, e quando não se tem conhecimento é difícil dar prioridade, daí o nosso atraso. Outra coisa muito importante é o fato de o presidente da AEB, o engenheiro Carlos (Augusto Teixeira de) Moura (coronel reformado da Aeronáutica) ter larga experiência de vida na área espacial, desde o início da carreira, com especialização na área, o que facilita a conversa com o MCTIC e conosco na CCISE, que somos focados na área espacial.

E por que é importante dar esta prioridade, considerando as carências do País?

A área satelital pode reduzir o custo de muitas atividades que são feitas em terra. Depois do acidente de Brumadinho, vimos que o recurso satelital pode ser largamente utilizado nestas situações, tanto nas comunicações e coordenação das equipes em campo, quanto imageamento, com utilização de satélites por vários órgãos. O que queremos é ter isso, imagens e sistemas satelitais nossos, que permitam fazer operações integradas e ações mais rápidas e eficientes. Manejo de águas, planejamento urbano, controle de queimadas, barragens. Isso ainda não existe no Brasil de maneira eficiente, mas pode ser desenvolvido.

O Programa Estratégico de Sistemas Espaciais (PESE) será revisto? Já se sabe o que será prioridade?

Ainda não discutimos especificamente o PESE. Mas uma coisa positiva é que desde o ano passado estamos trabalhando com diversas áreas do governo no Comitê para o Desenvolvimento do Programa Espacial Brasileiro, com vários ministérios reunidos em grupos temáticos e técnicos. O que estava definido no planejamento está sendo mantido. O que estava no PESE continua como está, mas agora aumentou muito a cooperação com a AEB e com o MCTIC, por conta do alinhamento de visões. Estamos trabalhando para ampliar a sinergia dos projetos existentes.Os projetos do INPE, por exemplo, estão sendo concatenados com os projetos do PESE. Os projetos da AEB estão sendo concatenados com os projetos do Centro de Lançamento de Alcântara. Tudo está sendo integrado para termos um programa espacial brasileiro forte.

A divisão entre a área civil e militar continua? A tendência é que se fortaleça agora mais o segmento espacial militar ou civil?

A tendência é que a área satelital seja fortalecida para prestar serviços para a sociedade como um todo, independentemente de ser civil ou militar. E além dos serviços, esperamos que isso puxe a nossa indústria e a parte científica.

O Brasil terá uma indústria espacial que atenda toda a demanda de serviços e aplicações?

Ela já é forte, mas está fora do mercado global. Se nós aumentarmos a quantidade de serviços para a sociedade, a indústria estará focada nestes serviços, que têm escala global. E ela irá se fortalecer e participar do mercado global. Ser protagonista é um pouco mais distante, mas pelo menos participar de maneira mais efetiva.

As mudanças no controle da Embraer comprometem a parte de desenvolvimento tecnológico na área de satélites de comunicação?

Nessa parte de desenvolvimento e integração de satélites não muda nada porque a Visiona está na Embraer Defesa (que não foi adquirida pela Boeing). Mas agora a coisa de ampliou, não é só uma empresa que fará esse trabalho. Teremos condições de ter outros parceiros interessados, como as federações de indústria, o laboratório do Senai de Santa Catarina, num projeto que a Visiona está envolvida, o trabalho da UniAmérica de Foz do Iguaçu, e mesmo Alcântara, que virará um polo de tecnologia assim que a base entrar no mapa global de sítios de lançamento. Existem visões alinhadas, todo mundo entende as prioridades, e isso facilita muito a integração.

Qual a prioridade número um na área espacial hoje para o Brasil?

Temos duas prioridades número um. Alcântara é uma delas, pois está muito perto de ser viável comercialmente. Depende apenas do TSA (Acordo de Salvaguardas Tecnológicas), que precisa ser assinado. Ela passará a ser realmente comercial, pois até lá ninguém pode lançar satélites comerciais que tenham tecnologia norte-americana, e praticamente todos os satélites têm alguma tecnologia americana. A partir do momento em que o acordo for assinado, e isso está muito perto, e for ao Congresso, italianos, franceses e os próprios americanos poderão lançar seus satélites do Brasil, dos nossos lançadores ou outros.

E que contrapartida que o Brasil tem que dar?

É apenas um acordo de salvaguarda. Para que o norte-americano aceite colocar uma tecnologia sensível em outro país, ele precisa de garantias de que essa tecnologia será protegida, não será usada de maneira errada, enviada para países para os quais eles não exportam. É uma salvaguarda para que eles possam trazer a tecnologia e em contrapartida eles nos pagam pelos serviços de lançamento. Com isso a gente consegue ter um centro sustentável, sem a necessidade de investimentos do governo.

Mas ainda assim seriam necessários investimentos em Alcântara?

Não falta nada, é só uma questão de adaptar a base para cada lançador e para o business plan de quem for utilizar. Na verdade, o que precisamos é tornar possível comercialmente os lançamentos. A partir daí, a empresa vai fazer o planejamento e os investimentos dela, negociando conosco o que for necessário. Para operar em dois ou três anos, mas teria empresa que poderiam operar imediatamente.

E existe demanda para Alcântara?

Existe interesse. Empresas de lançadores pequenos como a Vector Space já demonstraram interesse firme assim que assinarmos o TSA. A Virgin Orbit está avaliando e assim que fizerem o primeiro lançamento deles em março, deve haver uma visita técnica a Alcântara para avaliar o potencial, pois eles lançam a partir de uma pista e de um Boeing 747. Há interesse, inclusive da Força Aérea dos EUA, que precisa de um sítio e tem considerado Alcântara. Se bem que para eles não há tanto problema porque para lançamentos não comerciais não precisa de salvaguardas. Mas nosso interesse não é só que eles venham, é que qualquer civil possa lançar, dentro das regras acordadas.

E como operacionalizar essa exploração?

A gente pensa em ter uma operadora do espaçoporto, que seria a Alada, uma empresa pública. É como se fosse uma Infraero do espaço. Até o momento não houve interesses de empresas privadas em assumir o risco tão alto de um negócio bilionário, com tantas dificuldades e incertezas. A Alada é um modelo viável, como foi a Infraero no passado, de permitir que outras empresas tenham facilidade de alugar o seu espaço e fazer o lançamento, com facilidade de contato com o Centro de Lançamento de Alcântara, que é uma unidade militar e faz os rastreios. Os serviços serão feitos por meio da estatal Alada, que será uma empresa não dependente. Seria um grande facilitador para o diálogo entre os clientes privados e a unidade militar, mas será uma empresa enxuta, pois já temos o Centro de Lançamento, com 900 pessoas já trabalhando, uma infraestrutura de rastreio muito avançada, pela qual a gente atende várias demandas. Essa estrutura poderá prestar serviços para lançamentos civis.

Mas os militares precisam estar envolvidos nesse projeto?

Entendemos que um centro de lançamento de foguetes não pode estar na mão de civis. É um centro de interesse nacional. Mas podemos manter a segurança, que é nossa responsabilidade, e a Alada facilitaria o acesso civil, para que as empresas não precisem se preocupar de interfacear com os militares. E a Alada ainda poderia sair para o mercado global buscando esses clientes para lançamento. Quando isso começar, o turismo de lançamento vai se desenvolver, a cadeia de suprimentos, escolas de tecnologia, toda a região vai se beneficiar, e São Luís está muito próxima…

Qual é o nicho de mercado para Alcântara? Em que tipo de lançamentos vocês pensam em posicionar o centro?

Será possível lançar até um Falcon Heavy (maior foguete da SpaceX) depois que estiverem consolidados os 12 mil hectares das comunidades (existem comunidades quilombolas no perímetro necessário para a expansão da base para lançamentos maiores). Estamos em fase de realocação das pessoas, o que deve ser feito com cuidado e respeito, mas vai acontecer. Mas independente disso, Alcântara tem um grande potencial para atender ao nicho de lançadores pequenos, e pode ir a qualquer tamanho, pois tem uma posição melhor do que Guiana, por exemplo. Mas vemos um mercado disponível para esses lançadores pequenos e de pequena inclinação. Além disso, dentro do próprio centro tem um aeroporto que pode receber um 747, e que desde o final do ano passado passou a ser um aeroporto civil e militar. Seria um aeroporto inclusive para os lançamentos como os da Virgin, mas isso dependeria da avaliação técnica e operacional deles.

E qual é a outra prioridade do projeto espacial brasileiro?

Também é prioridade número um: o Carponis, que é o primeiro satélite de sensoriamento submétrico de alta resolução brasileiro. É um satélite importante para a Defesa quanto para aplicações de agricultura, meio-ambiente, planejamento urbano… Encerramos agora a fase de definições de engenharia de sistemas e o próximo passo é o pedido de ofertas (RFP). Temos uma parceria com a Embrapa sendo finalizada, e isso aumenta a prioridade no governo para garantir os recursos e lançar ainda no primeiro trimestre o pedido de ofertas, para termos um contrato de construção ainda este ano e lançamento até 2021/2022.

Ele será usado para outras aplicações de imageamento além do uso governamental? Há muita demanda civil por esse tipo de levantamento.

Ele consegue fazer 35 mil km por dia de imageamento, então o potencial é bem grande. Ele cobre o país todo, com resolução submétrica. Será um satélite estatal, como é o modelo na Europa, em que as empresas privadas prestam serviço por meio de parcerias. Aqui estamos preocupados inicialmente em resolver as demandas governamentais de aplicações civis e militares, mas não está fechado a possibilidade de exploração por empresas privadas. Mas não estamos trabalhando com isso agora. A nossa preocupação é a Defesa, agricultura e meio-ambiente. Se houver demanda privada, vamos procurar as maneiras de negociar. Mas não é o foco o uso comercial.

Sobre o SGDC já está há mais ou menos um ano em operação. Qual o resultado para a área militar do uso do satélite?

Foi extremamente satisfatório. Aprendemos muito nesse período desde 2017. Uma coisa é contratar um canal de comunicação, outra é operar este canal do jeito que você acha que deve ser feito, descobrir potencialidades que eram desconhecidas… Éramos excelentes usuários e estamos nos tornando experts em operação. O efeito disso é potencializar aplicações, serviços, otimização de uso dos links, novas capacidades de comunicação, e até mesmo o emprego de outras bandas, como a banda Ka militar, que está prevista para o novo SGDC.

Isso para o SGDC 2, não é? Em que fase isso está?

Está ainda na fase de definição. Ele está perto de completar essa fase e acreditamos que assim que o SGDC 1 estiver plenamente comercializado as fases do SGDC 2 devem avançar mais rápido. É preciso primeiro completar a exploração civil, apesar de que estes satélites são altamente rentáveis. Tudo correndo bem teremos ele em 2022, e agora fica mais simples porque já temos o centro de controle planejado, as pessoas treinadas. Em 30 meses é possível construir esse satélite.

Há segurança de que o SGDC seguirá sendo um ativo estatal?

Sim, até porque o decreto prevê a operação pela Telebras e pela Defesa. Então temos plenas condições de operar, e quanto a isso não existe risco de perda desse ativo. O nosso planejamento expresso no PESE (Programa Estratégico de Sistemas Espaciais), e o próprio PNAE (Programa Nacional de Atividades Espaciais) preveem satélites geoestacionários. O centro já existe e está operando, então não existe risco.

E depois dos dois projetos prioritários, qual seria o próximo projeto?

Queremos atingir a conclusão do lançador Áquila 2 em 2026, que é um foguete para lançar 500 kg a 720 km em órbita polar. Para chegar lá, temos um caminho. O primeiro passo foi o teste estrutural do motor S50 em 2018 e este anos teremos um teste de voo com o veículo VS50, que é a base para o Veículo Lançador de Microssatélites, o VLM. E o VLM é a base para a família Áquila. Já estamos também trabalhando com a AEB e com o INPE para projetos de satélites radar, onde a Defesa tem o objetivo do Lessônia  e talvez com esta maior sinergia possa ser antecipado em dois ou três anos. Esse é o efeito do alinhamento de visões entre Defesa/CCISE, AEB, INPE, MCTIC: alinhar recursos e capital humano, e envolver a indústria espacial brasileira desde o começo nos projetos.

E o dinheiro? De onde vem o financiamento para o projeto espacial?

Estamos buscando parceria com o pessoal do Meio Ambiente para que as aplicações destinadas a este uso atendidas pelo Carponis possam ajudar a financiar o projeto. Tem o orçamento da AEB, mas seria necessário ver o que haveria de recursos disponíveis, já que seriam projetos conjuntos, e também nas propostas para o Plano Plurianual 2020/23 incluiremos estes projetos mobilizadores. Não existe sinalização de ampliação do orçamento militar, por enquanto, mas acreditamos que, apresentando as propostas, teremos a priorização.

Próximos Eventos