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República eletrônica

Quem passou pelo Elevado Costa e Silva, o conhecido Minhocão, na tarde do domingo, dia 1º, encontrou grama, piscina de plástico e gente fazendo ioga no concreto. A iniciativa apareceu na TV aberta e nos jornais. E fez um festival independente e online (financiado via crowdfunding) sair da internet.

O Baixo Centro arrecadou R$ 22 mil em doações. Ocupou o centro da cidade por dez dias e levou ao mundo real o trabalho da Casa da Cultura Digital, uma vila e incubadora de ideias que reúne empresas de tecnologia e cultura. A Casa, que fica na Rua Vitorino Carmilo, 459, Barra Funda, completa três anos.

Dois dias depois de o festival terminar, em uma mesa no térreo da casa principal da vila de estilo italiano construída na década de 1920, um grupo trocava opiniões sobre o que fazer com o material acumulado. Um falava ao telefone, o outro assistia a vídeos no YouTube enquanto mandava mensagens pelo Facebook. Uma das debatedoras desiste e vai dormir em um dos pufes coloridos da sala. Seu lugar é logo ocupado por um sujeito de bermuda com uma cerveja na mão.

É assim que se trabalha neste lugar. As salas de duas casas são ocupadas por grupos com propósitos diferentes. Há produtoras de vídeo, uma agência de jornalismo investigativo, programadores, analistas e ativistas de diversas causas. Todos têm seu espaço e dividem o aluguel.

“A Casa centraliza justamente essa descentralização. O que é unânime é o sistema de redes que gera contatos, visibilidade e diversidade”, diz Fernanda Ligabue, da Filmes para Bailar.

O jornalista e ex-presidente da Fundação Padre Anchieta, Paulo Markun, também circula pela Casa, trazido por seu filho Pedro, responsável por projetos como o Ônibus Hacker e o Transparência Hacker. Markun, de 59 anos, admite ainda ter dificuldade para assimilar o que ele chama de rotineiros “turbilhões de ideias” e o ambiente que “tem por excelência uma super anarquia previsível”.

“A convivência na Casa bagunça o coreto no bom sentido”, diz. “Aqui surgem muitas ideias, algumas morrem, mas outras dão coisas super legais. Isso é que é o barato. Universidades e veículos de comunicação deveriam ter essa vibração.” Ele trabalha em um aplicativo para fazer buscas nos discursos de parlamentares arquivados desde 1945.

Projetos. Foi da Casa da Cultura Digital que saiu o Festival Cultura Digital, realizado desde 2009. Foi lá também que começou a Esfera, empresa responsável por hacks políticos e pela lista Transparência Hacker e pelo Ônibus Hacker. Lá também funciona o Laboratório Brasileiro de Cultura Digital, do sociólogo Cláudio Prado – veterano tropicalista e amigo de Gilberto Gil.

O porão é ocupado pelo Garoa Hacker Clube, onde programadores e interessados em eletrônica se reúnem para aprender a mexer em coisas como Arduino, plataforma de hardware open source, e para criar projetos como a impressora 3D Metamáquina.

O clube hacker foi fundado por Felipe Sanches, ex-estudante da Poli-USP que não acreditava no modelo de ensino da universidade. Ele ganhou duas bolsas do Google, foi viajar para participar de conferências de software livre e voltou com a ideia de montar um hackerspace.

QUASE TODOS. Estas são algumas das pessoas que ocupam as casas da vila – ou a Casa da Cultura Digital. A produção da foto, claro, foi toda organizada por e-mail e listas – e ainda assim teve gente que ficou de fora.

Eles usaram o porão por seis meses sem custo. “Deu muito certo e hoje pagamos aluguel para ficar”, diz. “Coletamos dinheiro dos participantes mensalistas para garantir a infraestrutura. Compramos ferramentas que as pessoas não teriam em casa.”

“Este lugar inspira muito”, diz Marina Amaral, jornalista com mais de 20 anos de profissão que se aliou à Natalia Viana, conhecida por ser a referência do Wikileaks no Brasil, para fundar a agência de jornalismo Pública. “O mais importante da Casa, e que difere de outros ambientes onde já trabalhei, é a diversidade. Aqui programador e jornalista se encontram na cozinha, conversam, se entendem e montam um projeto”, diz.

A Casa foi aberta oficialmente em janeiro de 2010. O encontro reuniu Gilberto Gil, ex-ministro da Cultura, e o advogado Lawrence Lessig, criador das licenças Creative Commons, em um bate-papo descontraído com cerveja e champanhe. O papel entregue aos convidados como lembrança dizia: “Casa da Cultura Digital, o lugar que cresce por dentro na base da marreta e das pessoas que conseguem agregar”.

Alguns projetos tiveram financiamento do Ministério da Cultura durante a gestão de Juca Ferreira, entre 2008 e 2010. Na mudança de governo, alguns patrocínios terminaram – e empresas deixaram de existir. Sem recursos, a casa ficou mais vazia no início de 2011. Foi quando surgiu um patrocínio da Fundação Ford (conseguido pela Esfera) e a parceria com a plataforma de crowdfunding Catarse, que viabilizou projetos, por meio de doações pela internet.

A Casa tem materializado planos que pareciam irreais – a começar do Baixo Centro, que agora planeja sair de lá porque precisa de um lugar maior.

O Festival Cultura Digital terá uma edição no Rio de Janeiro neste ano, em novembro. O jornalista Rodrigo Savazoni, um dos fundadores, planeja criar uma “Casa de Praia da Cultura Digital” em Santos, onde mora. Também há planos de abrir uma em Nova York.

“Há tempos a gente pensa em formas diferentes de organização, trabalho e produção. A Casa é o primeiro caso concreto dessas ideias”, diz André Deak, outro fundador. “Talvez seja o começo pontual de uma reformulação maior do mundo ou só a forma que a gente encontrou de poder trabalhar de bermuda tomando cerveja. As duas possibilidades são muito boas.”

Do que a Casa é feita

OCUPAÇÃO. O Minhocão recebeu grama e piscinas no último dia do Baixo Centro. O festival também pintou e levou festa, música e cinema para as ruas do centro da cidade. Tudo foi financiado pela web. A ideia é que se torne permanente.
VISITA. O músico Gilberto Gil é presença frequente por ali – o contato dele com a Casa ocorreu por meio do sociólogo Cláudio Prado. Na foto, ele visita o Ônibus Hacker, que esteve no Rio para participar do Festival Cultura Digital em 2011.
NÔMADE. Ninguém acreditou quando surgiu a ideia de financiar um Ônibus Hacker. Mas deu certo: foram arrecadados
R$ 58 mil e o ônibus viaja pelo País para ajudar em projetos locais. Há paradas programadas em Minas Gerais e no Pará.
GOVERNO. O Queremos Saber é uma plataforma online aberta lançada pela Esfera. Nela os cidadãos podem pedir informações ao governo. A Câmara dos Deputados respondeu, por exemplo, quanto gasta em café por mês: R$ 65 mil.
AO VIVO. O Fórum Cultura Digital começou em 2009 e já trouxe nomes como John Perry Barlow (Eletronic Frontier Foundation) e Michel Bauwens (P2P Foundation). Neste ano ele ocorre em novembro no Rio de Janeiro.
LUCRO. Dentro do Garoa, um grupo de amigos comprou uma impressora 3D e começou a desenvolver um produto comercializável. Surgiu a Metamáquina, projeto financiado pelo site Catarse. A impressora 3D custa a partir de R$ 2,9 mil.
HACKLAB. No porão da casa fica o Garoa, clube hacker em que os sócios pagam uma taxa mensal de R$ 40 para brincar com eletrônicos. E a brincadeira é séria: de lá saem projetos de Arduino e de impressoras 3D para a venda.

Fonte: Blog Jornal O Estado de São Paulo

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