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Quando o DNA se converte em bits

Sequenciamento de genoma por chip, com conversão de guanina, citosina, timina e adenina – as bases do DNA – em código binário. Tudo isso pode parecer ficção científica para a maioria das pessoas, mas essa tecnologia já é realidade no Brasil. A Life Technologies, empresa de biotecnologia com sede em Carlsbad, Califórnia, lançou o primeiro sequenciador de DNA que substitui a ‘leitura’ do genoma a laser pelo sequenciamento de DNA no chip. Com a inovação, a companhia prevê dobrar o tamanho de sua operação no país.
A principal inovação está na leitura do genoma feita diretamente em um semicondutor, o chip Cell, fornecido pela IBM. Os sequenciadores tradicionais faziam uso de placas contendo amostras de DNA e reagentes fluorescentes que, estimulados por laser, destacavam as diferentes bases da cadeia de DNA, de acordo com a acidez de cada uma delas. Essas placas formavam então listas de pontos claros e escuros. A leitura desses pontos era feita a olho nu ou com câmeras. Esse processo levava semanas e o custo do sequenciamento era alto. A primeira pesquisa de sequenciamento do genoma humano custou US$ 300 milhões.
O sequenciador da Life Technologies, lançado globalmente em dezembro do ano passado e que chega agora ao Brasil, usa o chip como base para o sequenciamento do genoma. O semicondutor, de 1 centímetro de diâmetro, tem em sua base dois círculos, onde são inseridas as amostras de DNA com uma solução salina. O material é absorvido por 1,3 milhão de micro-orifícios, conforme a acidez de cada base do DNA. O sequenciamento é feito sem laser, câmeras e reagentes fluorescentes.
A vantagem é a redução no custo da pesquisa, afirma o principal executivo da Life Technologies para América Latina, Gianluca Pettiti. Enquanto o sequenciamento de genoma com tecnologia convencional custa em torno de US$ 8 mil por amostra analisada, o trabalho feito com o chip varia entre US$ 500 e US$ 750. O equipamento, que é capaz de analisar 100 milhões de bases do genoma, é vendido no Brasil a US$ 70 mil. Equipamentos com igual capacidade custam US$ 400 mil. “Nossa estratégia ao lançar o equipamento a preço mais baixo tem como foco democratizar a pesquisa genômica.”
O interesse em expandir o mercado de sequenciamento não é puramente científico. De acordo com o executivo, o mercado potencial para sequenciadores de genoma gira em torno de US$ 100 bilhões. Desde o lançamento mundial do equipamento, a companhia vendeu 60 sequenciadores, sendo quatro para América Latina. Um foi para o Chile, um para o México, e dois para o Brasil, adquiridos pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e pela Universidade Federal do Pará (UFPA).
Para o segundo trimestre, Pettiti estima que as vendas globais devam ficar entre 60 e 100 unidades. “As vendas superaram todas as expectativas da companhia”, diz.
A Life Technologies atua no Brasil há dez anos e, em 2010, atingiu no país uma receita de US$ 70 milhões. A companhia investe por ano de 13% a 14% do seu faturamento no país em estrutura de distribuição, vendas e assistência. Em 2010, o investimento foi de US$ 9,8 milhões. No Brasil, ela mantém dois escritórios e 170 funcionários.
Pettiti estima que a empresa dobrará sua receita no Brasil em três a quatro anos, graças ao aumento da oferta de recursos à pesquisa no país e também à esperada aceitação do novo sequenciador. “A pesquisa com genoma no Brasil está mais acelerada que em outros países e está atraindo investimento internacional na pesquisa”, diz.
Pettiti também considera como ponto favorável a possibilidade de se elevar rapidamente a capacidade de processamento do chip. O semicondutor usado hoje tem capacidade para processar 10 gigabytes de dados, mas o próximo chip, a ser lançado no segundo semestre, terá capacidade de 100 GB.
O sequenciador de DNA por chip foi desenvolvido pela Ion Torrent, uma companhia novata adquirida em 2010, por US$ 375 milhões. A Life Technologies registrou, no ano passado, faturamento de US$ 3,588 bilhões (9% maior que em 2009) e lucro líquido de US$ 377,858 milhões (162% maior). Para 2011, a previsão é de um crescimento global da receita em torno de 5%.

Fonte Jornal Valor.