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Profissionais trocam a academia pelos laboratórios de empresas

O farmacêutico bioquímico Fernando Amaral passou as primeiras três décadas de sua vida no meio acadêmico. Emendou uma bolsa de mestrado após a graduação e depois concluiu o doutorado em biologia molecular. Com o diploma na mão, há dois anos e meio, optou por partir para a iniciativa privada. O motivo, explica ele, é um só: com o aumento da quantidade de graduados, as universidades não têm mais como acomodar todos esses profissionais.

 

É nesse vácuo que entram empresas como a americana Life Technologies, que usa mão de obra especializada para prestar assistência técnica aos laboratórios e pesquisadores que utilizam os princípios ativos que comercializa. Amaral, hoje supervisor de suporte científico na companhia, afirma que a mudança da pesquisa em universidade para uma multinacional exige um outro ritmo de trabalho: “O processo é rápido e é necessário levar em conta o lado comercial. Trabalhamos com mais temas e de forma menos especializada. Mesmo assim, a função é de disseminação de conhecimento.”

De acordo com Patricia Munerato, que coordena a equipe de assistência científica da Life, a maior parte dos mestres e doutores que trocam o setor público por empresas privadas consegue um aumento de salário. “É muito comum, na academia, o acadêmico viver de bolsa. E a maior bolsa disponível hoje é a de pós-doutorado, que é de R$ 5 mil. Esse é o salário inicial que pagamos atualmente, sem contar os benefícios oferecidos pela empresa”, diz Patrícia, PhD em doenças infecciosas. “Hoje, nossa equipe de suporte científico tem 20 pessoas, sendo 70% com doutorado e 30% com mestrado.”

Descoberta. O número de empresas com uma quantidade considerável de mestres e doutores não é maior, segundo o consultor Valter Pieracciani, porque muitas empresas ainda não descobriram a própria vocação inovadora. Às vezes, diz ele, os projetos de tecnologia e processo existem, mas não são organizados em uma estrutura organizada. “É uma característica do Brasil: há muita produção de documentos científicos dentro das universidades, mas muito pouco disso é aproveitado pela indústria.”

Para o especialista, é essencial que a academia e a indústria se aproximem. “É algo que aconteceu há 25 anos na Coreia do Sul, com bons resultados. É um país do tamanho do Estado de Pernambuco, que produz carros vendidos para o mundo todo”, diz. Tendo isso em mente, Pieracciani promove eventos como o TechDay, em que professores universitários apresentam suas pesquisas a empresas, que são encorajadas a dar um norte prático às ideias. “É uma forma de gerar uma interação entre a ciência e o mundo dos negócios.”

A dificuldade em lidar com a inovação está em companhias de diversos portes, diz Pieracciani. Entre os clientes do consultor está a Universal, empresa de tecidos que criou um pequeno departamento de inovação há dois anos – trata-se de um grupo formado por um gerente e dois funcionários, mas que já motivou a companhia a criar produtos a partir de garrafas pet e restos de fibras, por exemplo.

Já a empreiteira Andrade Gutierrez, por exemplo, só recentemente começou a reunir as inovações implantadas em seus canteiros de obra. “Criamos uma ferramenta para reter e catalogar o conhecimento gerado nas obras e repassá-lo para toda a empresa”, explica Érico da Gama Torres, diretor de qualidade e sistemas da empresa. Essa iniciativa, diz Torres, é uma forma de economizar horas de trabalho do corpo de engenheiros da companhia e também de consultorias contratadas para solucionar problemas em contratos específicos.

Fonte: O Estado de São Paulo

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