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Professora ensina robótica a partir de sucata

Como professora de informática, sempre tive curiosidade em realizar esse trabalho na escola. Por isso, propus aos meus estudantes que pesquisássemos juntos sobre o assunto, assistimos a alguns vídeos no YouTube, consultamos livros específicos sobre o tema, e aí eu fiz uma proposta a eles: “Vamos construir um carrinho movido por um balão de ar?”. Para viabilizar a tarefa, pedi que trouxessem tampinhas e garrafas plásticas de casa e trabalhei as formas geométricas, como o cilindro, e a questão da força. Dei apenas o conceito de como o carrinho deveria ficar quando pronto e falei: “Vocês têm esses materiais. Dá pra fazer”. Aí eles quebraram a cabeça até que conseguiram! Isso foi muito legal, porque apesar dos materiais serem iguais para todos, cada carrinho ficou diferente do outro.

O trabalho foi realizado com alunos do primeiro ao nono ano do ensino fundamental. Os novinhos ficaram encantados com a proposta e foram imediatamente pro chão para testar os carrinhos. Eles entenderam toda a didática por trás, mas o mais marcante é que eles puderam brincar com o brinquedo que eles próprios construíram. Já os mais velhos perceberam que nós conseguimos dar uma finalidade pra aquilo que é chamado de lixo.

Depois dessa etapa, eu lancei o segundo desafio: “agora que vocês já têm o conceito, então criem objetos com sucata que tenham uma funcionalidade de robótica”.  Nisso, surgiu a mesa de hóquei movida a secador, a mão mecânica e um circuito eletrônico feito a partir de sucata de computadores.

Durante o projeto, os alunos trouxeram todo o tipo de sucata – tudo o que eles achavam que dava pra construir alguma coisa – para a sala de aula. Nós guardamos esse material num armário. A criatividade e a busca deles pela informação para construir esse tipo de objeto superou totalmente as minhas expectativas e o projeto acabou tomando uma proporção muito maior.

Quando assumi a sala de informática, os alunos só queriam jogar, mas com o passar do tempo, mostrei pra eles que o laboratório tem outras finalidades, e que o computador não é um instrumento final, mas faz parte do processo.

O projeto ajudou a criar autonomia a partir do momento que, usando o caminho que eu passei, os alunos tiveram que criar outros meios para atingir objetivos maiores. Eu só dei o norte pra eles, mas o merecimento de todo o restante é deles, que se tornaram autônomos ao ir atrás da informação, aprenderam a pesquisar, resolver problemas e conflitos que existiram nos grupos.

No ano passado, eles puderam expor esses trabalhos na Bienal do Ibirapuera e, devido a realização do Robótica Livre, nós ganhamos um kit de robótica da Secretaria da Educação e vamos ampliar o projeto.

Apesar disso tudo, a escola pública ainda recebe alguns rótulos. Mas ela é muito criativa. Então quando eu falo sobre a voz da periferia é para mostrar que essas crianças são capazes e que não é o lugar que determina aquilo que podem fazer. Ainda existe muito a ideia de que o “estudante de periferia não faz robótica”. Quando eu vi meus alunos dando voz pra sucata deles, eu traduzi para “a voz da periferia”. Eles ganharam o espaço deles.

Fonte: Porvir

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