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Primeiro “ciência sem fronteiras” argentino começa pelo Brasil

Engenheiro de informática, o argentino Pablo Cardozo Herrera é um jovem gestor que coordena profissionais de diferentes países em uma grande empresa de serviços de tecnologia. Fluente em inglês e português, o executivo tem um perfil raro e cada vez mais valorizado em seu país, que vem enfrentando escassez de gente qualificada em áreas técnicas. Após passar por um processo de seleção acirrado, em que concorreu com mais de 800 candidatos, Herrera foi selecionado para a primeira turma de 40 bolsistas para um programa de quatro meses na Fundação Getulio Vargas pelo programa Bec.Ar, o equivalente ‘hermano’ do Ciência sem Fronteiras.

Anunciado há poucos meses, o Bec.Ar tem objetivos muito semelhantes aos do programa brasileiro: formar profissionais de áreas consideradas estratégicas como engenharia, ciência e tecnologia, apostar nos intercâmbios com instituições internacionalmente reconhecidas e conceder bolsas integrais para manutenção dos estudantes. No caso argentino, a FGV foi a primeira parceria, e a única turma que já está em atividade é a de Herrera, que fará uma especialização em gestão da inovação. Também há uma seleção em andamento para cursos de mestrado nos Estados Unidos com duração de um a dois anos.

Os professores Leandro Gorgal e Alejo Sellant, membros da Subsecretaria de Avaliação de Projetos com Financiamento Externo da Argentina, que estiveram recentemente no Brasil na abertura do curso, afirmam que o Bec.Ar é ambicioso. “Nossa meta é formar mil pesquisadores nas áreas de ciência e tecnologia nos próximos quatro anos”. A escolha do Brasil para a primeira etapa do projeto não foi aleatória. “Além da integração acadêmica, vamos aprofundar as relações comerciais e culturais com o país”, afirma Gorgal.

O programa de gestão da inovação foi desenvolvido a quatro mãos. De acordo com Marlos Lima, vice-diretor da diretoria internacional América Latina e Caribe da FGV, o curso levou em conta as características que precisavam ser desenvolvidas nos profissionais argentinos e a expertise da Fundação. O resultado foi um MBA em tempo integral, com 456 horas de duração e disciplinas que abordam desde aspectos técnicos até conteúdos de gestão e incluem visitas a centros de pesquisa. “Há ainda elementos de empreendedorismo, o que torna o programa único”, afirma o diretor internacional da FGV Rio, Bienor Cavalcanti.

“Desenvolvemos o curso porque entendemos que a gestão da inovação é um déficit dos profissionais argentinos. O Brasil cumpre os requisitos para reforçar isso”, afirma Gorgal. Nos últimos anos, a Argentina sofreu com a fuga de talentos nas áreas de ciência e tecnologia e vem tentando suprir a escassez desses profissionais.

O Bec.Ar é um exemplo desse esforço, assim como programas como o Raíces, lançado em 2005, que estimula a repatriação de pesquisadores argentinos que estão no exterior. “A intenção é que esses profissionais sejam motivados pelas perspectivas do setor e retornem para promover o desenvolvimento do país”, explica Sellant. Desde o seu lançamento, o Programa Raíces já repatriou 873 pesquisadores. Com o Bec.Ar, além da parceria com a FGV que deve durar pelo menos mais 4 anos, o objetivo é enviar ao exterior 50 estudantes de mestrado por ano e promover intercâmbios de curta duração.

Lima, da Fundação Getulio Vargas, afirma que o pioneirismo do curso e da parceria tem chamado a atenção de representantes de outros países da América do Sul como Colômbia e Peru. O resultado é que a escola já foi convidada a desenvolver outros projetos com características semelhantes aos do oferecido para o Bec.Ar. “O Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que financia parte do programa argentino, também está interessado em ampliar o convênio para outros países da região.”

Mas, por enquanto, a constatação mais óbvia sobre o sucesso do programa é a empolgação dos participantes. “Nos impressionou o nível de contentamento dos alunos por estar participando do projeto”, afirma Lima. É o caso de Herrera, que acredita que o programa será essencial para sua evolução profissional. “Essa bolsa é muito importante para mim e para a minha empresa, que me deu apoio e quatro meses de licença. É uma grande oportunidade para que eu consiga evoluir como gestor.”

Fonte: Valor Econômico

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