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Pressão política limita pesquisas sobre violência com armas de fogo nos EUA

As posições políticas assumidas depois do massacre em Las Vegas são bem conhecidas.

Líderes democratas como os senadores Chris Murphy, de Connecticut, e Amy Klobuchar, de Minnesota, pediram imediatamente novas medidas para o controle de armas. Eles dizem que querem, no mínimo, fechar as brechas no sistema nacional de verificação da ficha policial dos indivíduos.

E a maioria dos republicanos, das câmaras estaduais até a Casa Branca, dizem que não querem novas leis de controle de armas. O governador do Kentucky, Matt Bevin, pareceu resumir essa opinião em um tuíte que dizia: “Vocês não podem regular o mal”.

“Para todos os oportunistas políticos que aproveitam a tragédia em Las Vegas para pedir mais regulamentos sobre armas… Vocês não podem regular o mal.”
– Governador Matt Bevin (@GovMattBevin) 2/10/2017″

Essa exibição de papéis políticos parece ocorrer depois de cada assassinato em massa, como se fizesse parte do programa. Aconteceu depois dos incidentes em Aurora (Colorado), Newtown (Connecticut), San Bernardino(Califórnia) e Orlando (Flórida). E assim por diante.

Mas um motivo pelo qual as posições são tão intratáveis é que ninguém sabe realmente o que funciona para evitar as mortes por armas. A pesquisa sobre controle de armas nos EUA basicamente parou em 1996. Após 21 anos, a ciência está defasada.

“Na área do que funciona para evitar tiroteios, não sabemos quase nada”, disse Mark Rosenberg pouco depois do tiroteio em San Bernardino em 2015. Em meados dos anos 1990, Rosenberg comandou as iniciativas de pesquisa sobre violência armada do CDC (sigla em inglês para Centros de Controle e Prevenção de Doenças).

Em 1996, o Congresso de maioria republicana ameaçou cortar as verbas do CDC se a instituição não parasse de financiar pesquisas sobre ferimentos e mortes por armas de fogo.

A Associação Nacional do Rifle (NRA, principal lobby pró-armas dos EUA) acusou o CDC de promover o controle de armas. Em consequência, o CDC parou de financiar essas pesquisas —o que teve um efeito congelante muito além da agência, secando o dinheiro para quase todos os estudos de saúde pública do problema em todo o país.

O Instituto Nacional de Juízes, um ramo do Departamento de Justiça dos EUA, financiou 32 estudos ligados a armas de 1993 a 1999, mas nenhum de 2009 a 2012, segundo a organização Prefeitos Contra Armas Ilegais.

O instituto retomou brevemente o financiamento em 2013 e 2014, no rastro do massacre na escola elementar Sandy Hook em 2012, mas depois disso não concedeu verbas. Pesquisadores em busca de financiamento privado dizem que evitam usar as palavras “arma” ou “arma de fogo” nos títulos dos estudos de prevenção da violência, para evitar reações.

Isso não deteve o apelo ao “controle de armas com bom senso”. Mas, como indicou Rosenberg, não sabemos bem o que é isso. Talvez as checagens de ficha policial não sejam a resposta. Talvez permitir armas em campus de universidades torne esses lugares mais seguros. Talvez haja uma maneira de impedir que um único atirador mate e fira centenas de pessoas em um show em Las Vegas.

Mas, segundo muitos ativistas, é impossível ter uma discussão franca sobre evitar a violência armada quando não podemos estudar a questão.

Todos concordam que o ataque a tiros em Las Vegas foi uma tragédia. Mas ninguém sabe o que pode funcionar para evitar a próxima.

“Se tivéssemos dados melhores, poderíamos ter muita força nisso”, disse Jennifer Doleac, professora-assistente de políticas públicas na Universidade da Virgínia, que usou tecnologia de detecção de armas de fogo adotada em muitas cidades para estudar com que frequência as armas são disparadas. “É algo muito político.”

Jay Dickey foi um congressista republicano do Arkansas que, em meados dos anos 1990, liderou a iniciativa para conter a pesquisa de violência armada pelo CDC.

A Emenda Dickey, como é conhecida, foi reautorizada a cada ano pelo Congresso. Ele e Rosenberg, o ex-diretor do CDC, já foram inimigos jurados. Mas depois ficaram amigos. E Dickey, antes de morrer no início deste ano, mudou seu pensamento.

Depois das sucessivas ondas de assassinatos em massa, ele viu que algo tinha de ser feito. Dickey disse que mudou de ideia: a violência armada precisava ser estudada pelo CDC. Ele queria soluções —que, segundo disse, também protegessem o direito às armas. Talvez fosse possível.

“Precisamos entregar isto à ciência e tirá-lo da política”, disse Dickey.

Tudo o que ele queria era descobrir.

Fonte: Folha de São Paulo

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