PCs perdem espaço na demanda por chip

Sempre que se fala em chip, a associação com computadores é imediata. Por décadas, um negócio sempre dependeu do outro – tanto que, até hoje, os computadores (desktops, notebooks, netbooks e tablets) são a principal fonte de receita para os fabricantes de processadores. Agora, porém, esse quadro pode mudar rapidamente, com a adoção acelerada de semicondutores em outros produtos, que vão de aviões a geladeiras.

A consultoria iSuppli estima que, neste ano, o mercado de semicondutores terá um crescimento de 35,8% em unidades vendidas no mundo, alcançando 1,2 bilhão de unidades – volume que o setor só previa alcançar em 2014. Os celulares e os smartphones serão responsáveis pela compra de 512,8 milhões de unidades, seguidos pelos computadores, com demanda de 230,1 milhões de unidades.

De acordo com a iSuppli, o uso de sistemas embarcados já é comum em 28 categorias de eletroeletrônicos, sendo os principais demandantes computadores, celulares, câmeras, filmadoras, consoles de videogames, TVs, conversores de sinal digital e dispositivos de navegação.

Nos próximos anos, a expansão mais evidente será na venda de chips que permitem o controle de máquinas via radiofrequência, para segmentos como linha branca e veículos. Esse tipo de semicondutor, conforme a iSuppli, crescerá a uma taxa média anual de 98,2% ao ano, de 2010 até 2015.

O negócio dos processadores é bilionário. Um levantamento da Associação da Indústria do Semicondutor (SIA, na sigla em inglês) mostra que, em 2010, o mercado mundial cresceu 31,8%, movimentando US$ 298,3 bilhões. No primeiro trimestre deste ano, as vendas aumentaram 8,6%, para US$ 75,8 bilhões. Como o mercado é variado, cada segmento tem seus próprios líderes. A mudança de padrão, no entanto, pode embaralhar tudo isso, levando a campeã de uma área ao confronto direto com o de outra.

Há três segmentos básicos no mercado de chip: o de memória, que representa 40% do total; os processadores propriamente ditos, que também respondem por 40%; e os controladores, capazes de automatizar funções de um equipamento, como programar a temperatura e o horário de funcionamento de um aquecedor de ar.

“A expectativa para a próxima década é que cada produto terá um chip que permitirá seu controle a distância”, afirma Roberto Brandão, engenheiro da AMD para América Latina. Hoje, essa tecnologia é mais usada em veículos, TV digital, brinquedos e consoles de videogame, mas está ganhando novos usos. É o caso do sistema de pagamento automático de pedágios e estacionamentos Sem Parar /Via Fácil, operado pela STP.

Um estudo da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) indica que o mercado global de chips controladores gera receita anual de US$ 31 bilhões e se aproxima do mercado de computadores, de US$ 46,5 bilhões. “A demanda tem se segmentado muito. O céu é o limite para esse tipo de chip”, diz Américo Tomé, diretor de produtos para novas plataformas da Intel na América Latina.

Entre os setores que incrementaram fortemente a demanda no Brasil estão os de automação bancária, governos, fabricantes de TVs e montadoras, afirma Tomé. Globalmente, diz o executivo, esses sistemas embarcados representam uma receita anual de US$ 1 bilhão para a Intel. Em 2010, a companhia registrou faturamento de US$ 43,7 bilhões.

Para os próximos anos, Tomé estima que as vendas para sistemas embarcados crescerão em média 25% ao ano até 2015. Para o mercado brasileiro, ele prevê crescimento de dois dígitos ao ano nesse intervalo. “A tendência é de aumento da demanda por processadores e controladores com conectividade”, diz.

A Freescale Semiconductor registrou no ano passado um crescimento de 45% nas vendas no país, afirma José Palazzi, gerente de vendas da empresa para a região Cone Sul. Para este ano, ele estima um novo incremento de 45%. Os setores que mais impulsionaram a demanda foram os de equipamentos industriais, médicos e de bens de consumo. “Também houve incremento na área de chip de leitura de consumo de água, gás e energia elétrica, controle de dispositivos de segurança e monitoração remota de câmeras “, afirma Palazzi.

De acordo com dados da Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee), o mercado de sistemas embarcados movimenta no país em torno de US$ 7 bilhões ao ano. Em 2010, as importações de chips cresceram 36%, para US$ 4,46 bilhões. Benjamin Sicsú, vice-presidente da Abinee, diz que a indústria de eletroeletrônicos opera com déficit de 25 bilhões de componentes ao ano – 60% desse volume refere-se a telas e semicondutores. “A falta de uma indústria de chip no país torna-se cada vez mais problemática, dada a expansão da demanda”, diz.

Para Sicsú, as vendas de semicondutores no país vão crescer sobretudo nos segmentos de memória e processadores, voltados para celulares, computadores, aviões, veículos, linha branca e marrom e equipamentos industriais.

“As sementes estão lançadas no Brasil para um programa ambicioso de internet das coisas”, afirma Dieter Schwanke, gerente de produtos do Centro Nacional de Tecnologia Eletrônica Avançada (Ceitec). A Ceitec desenvolve um conversor de sinal para TV digital e semicondutores para conexão sem fio pelo sistema WiMax. A empresa também avalia projetos nas áreas de automação, telecomunicações, eletroeletrônicos e automotiva.

Fonte: Valor Econômico

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