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Para analistas, política industrial está equivocada

O governo está dando um tiro no pé com a política industrial atual ao comprar o discurso de federações de empresários contra os juros altos e o câmbio valorizado sem atacar o problema estrutural de perda de competitividade do setor. A avaliação, feita por economistas durante debate organizado pela Tendências Consultoria, é que as medidas de incentivo tomadas agora irão agravar a falta de produtividade nas fábricas e devem reduzir a capacidade da economia crescer sem pressionar a inflação.

Para Samuel Pessôa, economista e sócio da Tendências, o processo de desindustrialização é real e não poderia deixar de existir dentro de um modelo de crescimento econômico sustentado pela demanda, no qual, com ganhos substanciais de renda, a sociedade prefere consumir em detrimento da poupança. Esse cenário, diz Pessôa, é adverso ao crescimento da indústria.

“Não é tsunami monetário, não é guerra cambial, é uma questão estrutural de uma sociedade que escolheu uma poupança muito baixa”, afirma o economista, para quem os preços robustos de commodities, produtos que lideram a pauta de exportações brasileiras, também deixam a indústria em segundo plano. “O desenvolvimento da indústria hoje significa deixar de utilizar os ganhos de termos de troca, cortar o crescimento do salário mínimo, fazer uma série de políticas que a sociedade não quer.”

Segundo José Márcio Camargo, economista-chefe da Opus Investimentos e professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-RJ), o que foi feito até o momento é “um desastre” para o crescimento de longo prazo, já que as medidas tomadas reduzem a poupança – no Brasil financiada por capitais externos – e desencorajam a inovação em favorecimento de setores tradicionais. “Essa agressividade contra o capital externo é muito complicada, porque nossa taxa de poupança, de 16% do PIB, é muito baixa”.

Outra questão levantada pelos participantes do debate e que vai contra a indústria é a falta de preocupação do governo em relação à educação, problema que, de acordo com eles, também é deixado de lado pelas federações industriais. Estas entidades, dizem, estariam empenhadas somente em combater entraves de curto prazo para o setor, essencialmente moeda valorizada e juro alto.

Maílson da Nóbrega, ex-ministro da Fazenda e sócio-diretor da Tendências, acredita que o debate para salvar a indústria está organizado em torno de juros altos e câmbio apreciado porque estes são exatamente os pontos nos quais o governo pode intervir com maior facilidade, como já vem fazendo, ao contrário de questões mais relevantes, como a reforma tributária e trabalhista e investimentos mais eficazes em educação. “O câmbio tem sua influência [sobre a situação ruim da indústria], mas não é determinante.”

Fonte: Valor Econômico

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