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O reequilíbrio da inovação

A riqueza das nações vem se reordenando a alta velocidade. A atual crise dos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) e o avanço das economias emergentes acelera a reordenação do mapa econômico mundial. Há, no entanto, outra revolução silenciosa em andamento: o reequilíbrio da inovação, em direção aos países emergentes.

A inovação, em particular a empresarial, até pouco tempo atrás era uma história mais voltada ao Ocidente. As multinacionais dos países da OCDE concebiam, produziam e comercializavam os produtos inovadores. Pouco a pouco, instalou-se outro modelo: a inovação continuava sendo concebida no Ocidente, mas cada vez mais era produzida nos países emergentes. É o modelo da Apple com seus iPods e iPads, em parte, produzidos em Taiwan, Coreia do Sul ou China. Agora, estamos vendo emergir um terceiro modelo no qual a inovação, crescentemente, não é mais apenas produzida e comercializada, mas também concebida nos mercados emergentes.Esse deslocamento provoca uma reordenação acelerada das listas de classificação das maiores empresas do mundo. A lista mais recente das cem maiores empresas de tecnologia do mundo elaborada pela “Bloomberg” e “Businessweek” mostra que 44% são de países emergentes. Mais do que isso, uma delas, a chinesa BYD, lidera a classificação, pela primeira vez, à frente da Apple. Depois da empresa dos EUA, vem outra multinacional chinesa, a Tencent, uma empresa de internet que já é a terceira maior do mundo em valor de mercado, apenas atrás do Google e Amazon, e logo à frente da Baidu, também da China. Entre as dez maiores empresas de tecnologia ainda há duas indianas (Tata Consultancy e Infosys). Chama a atenção o fato de nenhuma ser europeia. Multinacionais de Cingapura, Taiwan ou Brasil despontam em quantidades superiores às escassas alemãs, belgas ou inglesas que conseguiram invadir a lista.

As classificações das empresas de tecnologia mais importantes ou inovadoras, realizadas pelo Boston Consulting Group e pela revista “Forbes”, contam a mesma história: a Tencent encabeça o ranking das dez maiores da empresa de consultoria, no qual também fazem parte a taiwanesa Mediatek, a mexicana América Móvil, a China Mobile, as indianas Bharti Airtel e Infosys e a sul-africana MTN. Na lista das dez primeiras da revista, além da Tencent (novamente à frente da Apple e Google), também estão a Natura Cosméticos e a indiana Bharat Heavy.

O fenômeno é maciço e abrange todos os setores. Em 2011, a principal fornecedora para a indústria de telecomunicações deixou de ser dos EUA, França ou Suécia: é da China. A partir de Shenzhen, ao lado de Hong Kong, a Huawei chegou à liderança arrebatando as posições da Alcatel e Lucent (que se viram forçadas a promover fusão) e, mais recentemente, da Ericsson. A sul-coreana Samsung encabeça o ranking de 2011 de maior receita mundial no setor de tecnologia, à frente da Hewlett-Packard (HP), dos EUA. Em 2010, a empresa investiu mais em pesquisa e desenvolvimento do que Intel, Google ou Cisco. O sistema de pagamentos na internet do site chinês Alibaba já é o maior do mundo em termos de valor das transações: a empresa de comércio eletrônico, na qual o fundo californiano Silver Lake acaba de entrar, tem valor de mercado de US$ 32 bilhões, quase o dobro da capitalização do Yahoo (dono de cerca de 40% do Alibaba).

O Brasil é um dos países em que mais se usam redes de relacionamento social na internet, como Twitter, bem à frente dos EUA. O serviço de bate-papo virtual da Tencent possui quase 700 milhões de pessoas registradas, equivalente a todos os usuários do Facebook. A velocidade do fenômeno chama a atenção: tudo isso ocorreu em menos de dez anos.

O mundo da internet tradicionalmente é dominado por multinacionais dos Estados Unidos. A Tencent, entretanto, já exibe capitalização de mercado de US$ 45 bilhões, à frente da eBay e Yahoo. Em Moscou, o russo Yuri Milner vem revolucionando as regras dos capitais de risco para o setor digital, dominado até agora por fundos californianos. Sua Digital Sky Technologies (DST) é dona da mail.ru, listada na Bolsa de Valores de Londres com valor superior a US$ 8 bilhões. Seu fundo de capital de risco é um dos poucos que possui participações no Facebook, Zinga e Groupon.

A chinesa Tencent (que possui 10% da DST e comprou empresas iniciantes, como a Riot Games, dos EUA, por US$ 400 milhões) lançou também seu fundo neste ano, o Tencent Industry Win-Win Fund, com US$ 760 milhões, para ampliar a compra de empresas em fase inicial de operações. Por sua parte, o conglomerado chinês Alibaba Group Holdings lançou o seu por meio da filial Taobao, com US$ 46 milhões. A Legend Capital, por sua parte, proprietária em parte da Lenovo (na qual possui participação de 42%) levantou outro fundo tecnológico, com €500 milhões, neste ano. Em Cingapura, a Singtel, operadora de telecomunicações, criou em 2011 seu fundo de capital de risco, com mais de US$ 250 milhões, para também expandir as compras de empresas de tecnologia com projetos iniciantes.

Todas essas iniciativas mostram, caso ainda seja necessário, quanto os países emergentes asiáticos vem apostando para ganhar um lugar cada vez maior no mundo do capital de risco e de fornecimento de capital inicial para novas empresas.

Em 2011, os EUA ainda são o país com mais empresas listadas na Nasdaq (404), mas o segundo lugar já é ocupado por um país emergente, a China, com 37. Logo atrás, outro emergente, Israel (com 27). A China tem mais que o triplo de empresas de tecnologia listadas na Nasdaq do que toda a Europa (apenas 11).

O fenômeno não é exclusivamente asiático. O caso da Naspers, multinacional sul-africana do mundo digital, é emblemático: a empresa obtém mais de 70% de sua receita no continente africano, mas multiplicou as aquisições nos mercados emergentes. Possui participação de 45% na Tencent, que comprou em 2011 e já se valorizou mais de 3.100%. Também investiu na russa mail.ru (US$ 390 milhões) e possui 91% da brasileira Buscapé (que comprou por mais de US$ 390 milhões). No Leste Europeu, comprou a Tradus por mais de US$ 1 bilhão em 2008. Atualmente, a Naspers é uma das maiores investidores em empresas em fase inicial de operações em emergentes. Está presente em 129 países e tem receita em torno a US$ 4 bilhões e 12 mil funcionários.

Esses exemplos refletem as alterações do mundo em que vivemos. No futuro, esses grupos e países ganharão lugar (cada vez maior) em todos os âmbitos e setores, incluindo os de tecnologia e de maior inovação. Essa talvez seja uma razão a mais para interessar-se e estar presente nessas economias, onde já não apenas se produz e comercializa inovação, mas também se cria, algo que até agora era exclusividade dos países da OCDE.

Fonte: Valor Econômico

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