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O ex-office boy que virou empreendedor e atraiu o Banco Mundial

Toda vez que está em seu escritório lamentando as dificuldades de tocar seu próprio negócio, Severino (Felix) da Silva olha para o quadro em frente à sua mesa. Na parede, emoldurada, está  a camisa que era seu uniforme de office boy. E pensa: “Não reclama, Felix, já foi pior.”

Pior como? Bom, vamos cortar para o ano de 2003. Ainda no início da Escola24Horas, depois de três anos de curvas ascendentes, os resultados da empresa foram dando sinais de retração. O negócio tinha foco em fornecer apoio a estudantes 24 horas por dia, 7 dias por semana, com conteúdo e professores de plantão para tirar dúvidas online em poucos minutos.

Só que a bolha da internet tinha acabado de estourar. Com o mercado de tecnologia até então imaturo e a concorrência apertando, as projeções que tinham feito não se realizaram.

Com números negativos, Felix chegou a cogitar fechar a empresa. Sócios estavam perdendo a vontade de continuar lutando pelo negócio. Depois de algumas negociações bastante desgastantes, chegaram a um acordo em que o empreendedor compraria a parte deles. Assumindo, claro, uma grande dívida.

Para sair do limbo, só existia uma alternativa: a revolução.

“Fui para a rua, que é o que mais gosto de fazer”, ele conta. Conversando com diversos stakeholders em busca de ideias para se reinventar, percebeu uma necessária mudança no modelo do negócio.

Antes, a Escola24Horas fazia apenas vendas para seus consumidores finais, em um modelo B2C. A proposta sempre foi ser uma extensão da escola na vida do aluno e dos pais. Essa essência não mudou, mas Felix procurou mirar também nas vendas B2B – permitindo, por exemplo, que empresas clientes oferecessem o apoio escolar a filhos de funcionários, como parte do pacote de benefícios.

A virada de chave foi primordial para que a empresa retomasse sua curva de crescimento alguns anos depois. Mas, desde o início de tudo, o caminho nunca foi fácil.

O sertão vai virar mar

Mais novo de nove irmãos, Felix nasceu em Serra Redonda, um distrito de Ingá do Bacamarte, no interior da Paraíba. “Mas, por questão de status, digo que foi em Ingá do Bacamarte”, brinca.

Na década de 50, por conta de uma história de que plantação em terra roxa no Paraná estava crescendo, foram todos se aventurar por lá. Durante 10 anos, o caçula morou no norte do estado, até que recebeu a visita de uma tia: “Vamos para o Rio de Janeiro, lá tem mais oportunidades.”

Felix vendeu sua bicicleta e conseguiu autorização da mãe e do juizado de menores para, aos 15 anos, se mudar. Durante todo o caminho para a Cidade Maravilhosa, foi decorando o endereço da tia para que o taxista pensasse que ele conhecia o Rio.

No domingo de sua chegada, falou:

– Tia, preciso trabalhar para trazer minha mãe e minha irmã.
– Ok, então você precisa ser office boy.
– Tá ótimo! Mas primeiro me explica o que é isso?

Na segunda-feira, Felix foi para o centro da cidade procurar emprego. Naquele mesmo dia, foi contratado como auxiliar de arquivista. Ele também não sabia o que era auxiliar, tampouco arquivista, mas aceitou o desafio.

Só que não durou três dias. O chefe tinha uma mania de tratar seus funcionários de forma desrespeitosa, e Felix resolveu que não deveria se submeter a isso. “Tudo que eu tinha era minha autoestima e uma vontade enorme de poder oferecer uma vida melhor para a minha família”, conta.

Decisão acertada, porque seus dois empregos seguintes – dessa vez como office boy – o ensinaram muitas das competências que lhe foram úteis como empreendedor. Entre elas, a de cultivar relacionamentos e a de tomar riscos.

Melhor pedir perdão que pedir licença

Passando um dia pela sala de seu diretor, Felix viu alguns contratos sobre a mesa que tinham sido feitos errado. Aproveitando que o chefe tinha ido viajar, o garoto foi explorar os papéis para tentar corrigi-los.

“Eu estava tomando risco em dobro: fazendo algo que não tinha nada a ver comigo e, ainda por cima, na sala do meu diretor, sem autorização”, ele diz. Só que Felix se empolgou e ficou, até as 5h da manhã, trabalhando nos contratos.

Quando o patrão voltou, perguntou quem o havia ajudado. “Ninguém, eu fui fazendo aqui nas horas vagas”, Felix inventou.

A impressão causada foi tão positiva que ele ganhou uma promoção. Virou gestor e, por consequência, gerou curiosidade em toda a empresa. O aumento de salário, aliás, mudou substancialmente a qualidade de vida de Felix, que nessa época fazia faculdade de economia à noite.

Uma ou duas paixões descobertas

Quando se formou, quis buscar novos ares. Acabou sendo contratado como gerente financeiro de uma editora de livros técnico-científicos. Lá, teve clareza de seu propósito: trabalhar com educação.

Felix convenceu os acionistas da empresa a criarem um braço de treinamentos, o qual ele passou a tocar, como uma spin-off. Em dois anos, ela já tinha uma receita superior à da editora.

Dessa experiência, ficou o gostinho: “E se eu criasse algo do zero, um negócio que fosse só meu?”

Felix já estava casado e tinha um filho quando pediu demissão para empreender. A incerteza foi o primeiro desafio, e logo veio o segundo, que estava em buscar investidores. Mas como ele mesmo diz:

“A sorte persegue a ousadia”

Em abril do ano 2000, sem esperar, Felix recebeu uma ligação de um repórter do jornal francês Libération. O jornalista estava no Rio de Janeiro para cobrir a comemoração dos 500 anos do Brasil e alguém havia falado com ele sobre a Escola24Horas.

Felix topou uma entrevista, mas sem grandes expectativas, e tomado por uma angústia típica de empreendedor: “Meu Deus, preciso conversar com fundos, arrumar dinheiro, e estou perdendo meu dia aqui. Vai sair uma matéria pequenininha lá fora e eu nem vou ver.”

No fim das contas, uma página inteira foi dedicada ao negócio e à inovação que ele trazia. Um executivo do Banco Mundial – que morava nos EUA, mas estava de férias na França – leu a matéria e pediu que entrassem em contato com quem quer que estivesse por trás daquilo tudo.

Outra ligação inesperada. Uma representante do IFC (sigla em inglês para Corporação Financeira Internacional), membro do Banco Mundial, queria visitá-lo e analisar a empresa para um possível investimento.

Impulso

Nessa época, outros três fundos de investimento estavam interessados no negócio de Felix. Mas quando souberam do interesse do Banco Mundial, a panela de pressão apitou.

“Você está preparado para dar uma resposta em 24 horas?”, um dos fundos insistia. “Estou, porque não vou tomar nenhuma decisão tão importante assim em 24 horas, então a resposta é não”, ele dispensou.

Os outros dois ameaçavam ainda desistir de Felix e iniciar negociações com os concorrentes. A decisão do IFC ainda levaria pelo menos três meses, e Felix já estava gastando o que não tinha. Se ele recusasse os fundos e o retorno do Banco Mundial também fosse desfavorável, além de ficar sem investidor, ele ficaria também no vermelho.

Mais uma vez, ele resolveu arriscar e trocar três pássaros na mão por um voando. “Mas a resposta do Banco Mundial veio. E lá vou eu, o severino de Ingá do Bacamarte, paras Washington, assinar o contrato.”

O aporte dos novos acionistas fez muito bem para a empresa –US$3,5 milhões por 25% de participação. Quando as coisas desaceleraram, no entanto, Felix percebeu que precisava, ele mesmo, tomar as rédeas do negócio. Mesmo que isso significasse ter que se endividar.

Foi preciso coragem. O advogado aconselhava manter o Banco Mundial como sócio simplesmente para evitar o risco de quebrar, mas prevaleceu a transparência. E mesmo que a dívida tenha levado alguns anos para ser quitada, ela valeu a pena.

Nesse momento, Felix destaca a importância de ter humildade para transformar deslizes em aprendizados, que foram postos em prática para retomar o crescimento da Escola24Horas. Hoje, a empresa tem mais de cinco milhões de alunos atendidos e a tecnologia e o modelo de negócio já foram implantados no México e no Chile.

Não quer dizer, claro, que desafios não voltem a surgir. Mas se as coisas apertarem, o uniforme está lá na parede para não deixar esquecer: “Não reclama, Felix, já foi pior”.

Fonte: Exame

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