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Novo ministro da Ciência promete lutar por mais investimentos

Ainda sem saber o tamanho do corte no orçamento de R$ 8 bilhões, previsto para 2012, o físico Marco Antônio Raupp, de 73 anos, assumiu o Ministério da Ciência e Tecnologia disposto a aumentar o capital privado na indústria de inovação. Raupp admitiu que o programa Cyclone, voltado ao lançamento comercial de satélites do Brasil com um foguete ucraniano, pode não se viabilizar como negócio. Ele revelou, em entrevista ao GLOBO, que pediu um novo plano comercial para o empreendimento, orçado em US$ 500 milhões. O novo ministro prometeu se empenhar por um investimento de 2% do PIB, em pesquisa e desenvolvimento, até 2014.

O GLOBO: Como levar a ciência para dentro das empresas?MARCO ANTÔNIO RAUPP: São várias formas. Por meio dos parques tecnológicos e parcerias público-privadas, como ocorre no desenvolvimento do satélite geoestacionário de comunicações (com lançamento previsto para 2014 e custo de R$ 720 milhões). O público estimulando o privado. O exemplo mais concreto que eu conheço é na área de Defesa.

Hoje, o Brasil investe 1,2% do PIB em Pesquisa e Desenvolvimento. O que seria realisticamente ideal para alcançar em 2014?

RAUPP: Eu acho que a gente deve lutar para ficar entre 1,5% a 2%. Buscar 2%, mas ser no mínimo 1,5% em 2014. O privado, que está em torno de 0,48%, tem que aumentar.

Como aumentar a parcela da iniciativa privada?

RAUPP: Aumentar o número de empresas investindo mais. Podem ser isenções (fiscais), mas não podem ser isenções soltas. Elas têm que ser como se fossem uma parceria público-privada. Porém, a subvenção é um mecanismo mais efetivo: uma parceria em que o governo entra com uma parte e a empresa entra com uma parte maior.

Como o senhor vai abordar o sistema de monitoramento de desastres naturais?

RAUPP: O ministro da Integração Nacional (Fernando Bezerra ) esteve aqui e combinamos que vamos estreitar as relações. Vamos aumentar a proximidade entre o sistema de alerta e o sistema de intervenção, que é da Defesa Civil. É para não ter incongruências. Todo mundo tem que ter a mesma informação.

Como incentivar o aumento da participação da Universidade na cadeia produtiva?

RAUPP: Eu quero, pelo convencimento, mostrar às universidades que elas têm grandes vantagens em entrar na problemática do desenvolvimento do país, com as empresas, com a área econômica, sobre assuntos estratégicos. Por exemplo, tecnologia de pré-sal e de biodiversidade. Criar ambientes, redes, patrocinados pelo sistema econômico ou por agências do governo, entre grupos universitários para fazer pequisa sobre esses assuntos.

O que o senhor pretende reformular no Programa Espacial?

RAUPP: Definir o papel da Agência Espacial Brasileira (AEB) e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) objetivamente. O Inpe age como a própria agência espacial. Tem que ter uma estrutura de governança com eficiência no uso dos recursos, sem duplicar esforços. O Inpe, em vez de ser parte do MCT, vai ser parte da agência. O diretor do Inpe vai estar junto com os diretores da agência. Vai ser fiscalizado, auditado, pela agência espacial. Hoje, não tem vínculo nenhum. A proposta de decreto já está tramitando.

O senhor pode assegurar que o foguete Cyclone 4, produzido em parceria com a Ucrânia, será lançado em 2014?

RAUPP: Temos condições técnicas de fazer isso, cumpridas determinadas condições relativas ao financiamento. Tanto em relação à capitalização da empresa quanto à construção do centro de lançamento de Alcântara.

Com o atual desempenho, o cronograma será cumprido?

RAUPP: Não. Precisa mais. Preciso de R$ 200 milhões (para o Cyclone) em 2012. Agora, se tiver uma crise, tiver que fazer corte, a gente atrasa um pouco. É bom frisar: a ACS (Alcântara Cyclone Space, empresa binacional Brasil/Ucrânia para comercializar lançamento de satélites), para se sustentar, precisa ter viabilidade comercial.

A empresa tem viabilidade comercial?

RAUPP: A ACS demorou muito para ser implementada. E, em função desse tempo que passou, estou pedindo um novo plano de negócios. Se não for viável, a gente vai olhar para a empresa só do ponto de vista estratégico. Neste caso, é uma questão a analisar. Poderá ser (viável), ou poderá não ser. Depende das condições. Estamos chegando em um ponto para saber se dá ou não dá.

O que muda no programa com o satélite geoestacionário de comunicações?

RAUPP: Estamos mudando a política de satélites. Os projetos em desenvolvimento continuam na mão do Inpe. Essa é uma nova iniciativa, está sendo criada uma empresa, Embraer/Telebrás, que vai ser a integradora, em vez do Inpe. O Inpe, mais a AEB, farão as especificações técnicas para a contratação desta empresa que será a responsável pela organização do processo industrial.

O senhor pensa em criar um Conselho Nacional de Política Espacial?

RAUPP: Sim, mas isso depende de lei. Um conselho de ministros, presidido pela presidente da República. Isso vai ficar para uma segunda etapa.

Qual é o maior dilema para o sucesso de projetos tecnológicos no Brasil?

RAUPPO problema é dinheiro. É a capacidade de manter um financiamento continuado. E por quê? Porque o Brasil é um país com muito problemas para resolver. Sociais e o impacto das crises econômicas (externas), que afetam sempre. Tem que se administrar isso. Você tem que fazer opções. Isso é realismo.

Qual é a melhor alternativa para o desenvolvimento da indústria da inovação com elementos da biodiversidade?

RAUPP: Um mecanismo importante para gerar novos produtos, para transformar o conhecimento da biodiversidade em produtos comerciais, são os parques tecnológicos. Um sistema de parques tecnológicos na Amazônia pode estimular grandemente. Fazer isso está na minha cabeça.

 

Fonte: Jornal O Globo

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