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Novas oportunidades estimulam a formação de jovens doutores

Aos 31 anos, Daniel Vazquez é um dos professores recém-contratados pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) para atuar no novo campus de Guarulhos, inaugurado em 2007. Depois de anos ministrando aulas em faculdades particulares, no ano passado Vazquez obteve o título de doutor em economia e foi aprovado no concurso para professor adjunto. Hoje, ele tem dedicação exclusiva à instituição pública, onde conseguiu atingir um de seus principais objetivos profissionais: conciliar as atividades de ensino com a pesquisa acadêmica.

 

“Tenho melhores condições de trabalho. Além de poder estudar e escrever, não preciso acumular aulas para garantir o meu salário”, afirma. O professor é apenas um dentre os mais de 27 mil docentes contratados pelas universidades federais nos últimos sete anos. Neste período, também aumentou a formação de acadêmicos no Brasil: enquanto em 1999 o número de doutores que se titulava no país não chegava a 5 mil, dez anos depois ultrapassava os 11 mil. Parte desse contingente tem sido absorvido pelas novas universidades públicas, criadas nos últimos anos pelo Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), iniciativa do Ministério da Educação (MEC).

Desde 2003, 14 novas instituições federais foram abertas, sem contar as ampliações de campi. De acordo com Luiz Cláudio Costa, secretário de educação superior do MEC, o investimento em novas vagas tem atraído jovens profissionais com doutorado, o que contribuiu para mudar o perfil da carreira acadêmica no país. “São profissionais que começam a ter espaço para crescer e são valorizados por isso”, afirma Costa.

Segundo ele, a ampliação de vagas ajudou a evitar uma ‘fuga de cérebros’ no país e aumentou a demanda por doutores em algumas áreas de conhecimento. Por outro lado, setores estratégicos sofrem com a falta de professores. “Conseguimos avançar, mas ainda estamos aquém da quantidade necessária de doutores sendo formados. Nos cursos de contabilidade, por exemplo, temos esse problema”, explica Costa.

Pelo menos nas áreas de infraestrutura e tecnologia, a falta de professores com pós-graduação pode estar prestes a ganhar uma solução: o projeto de lei 220/2010, de autoria da Comissão de Serviços de Infraestrutura do Senado, defende a admissão de docentes apenas com diploma de graduação nas universidades – desde que eles comprovem experiência profissional relevante. O projeto está em tramitação.

A tecnologia é apenas uma das áreas onde faltam doutores na Universidade Federal do Vale do Jequitinhonha e do Mucuri (UFVJM), em Minas Gerais. Criada em 2005, a instituição enfrenta a escassez de docentes também em cursos como direito e enfermagem, onde as vagas chegam a ser preenchidas por mestres. A maioria dos doutores contratada pela instituição acabou de obter o título.

É o caso de Wesley Dias Maciel, professor no curso de sistemas de informação e coordenador do núcleo de inovação tecnológica da UFVJM. Após obter o doutorado em bioinformática em 2009, ele foi aprovado para uma vaga na universidade enquanto cursava o pós-doutorado. “As novas posições abriram muitas oportunidades para jovens doutores como eu”, afirma. Ele confessa que, caso não tivesse surgido a possibilidade de atuar em uma instituição federal de ensino, teria se dedicado a outro sonho: montar o próprio negócio.

Com dois pós-doutorados em física no exterior, o professor Eduardo Novais, da Universidade Federal do ABC (UFABC), estava há oito anos nos Estados Unidos, onde permaneceria caso não houvesse uma oportunidade profissional no Brasil. O acadêmico, que chegou a tentar outro concurso em universidade pública, foi aprovado somente em 2009, quando se mudou para a São Paulo com a mulher, também professora de universidade pública. “Quando estava terminando meu doutorado no Brasil, era difícil seguir carreira acadêmica. As federais não contratavam havia mais de dez anos. Profissionais extremamente qualificados estavam sem espaço para trabalhar”, diz.

A decisão foi sair do país e buscar mais qualificação. “Cheguei a considerar se valia a pena insistir, mas o momento agora é propício”. Todos os seus colegas de doutorado, segundo ele, estão no Brasil, situação inimaginável há alguns anos. “A geração anterior à minha exportou muita gente que nunca mais voltou.”

Em outras áreas de conhecimento, o cenário também era diferente. De acordo com Marcos Cezar de Freitas, diretor acadêmico do campus de Guarulhos da Unifesp, nos primeiros editais de contratação da instituição, percebeu-se que havia uma ‘demanda reprimida’ por parte dos candidatos, especialmente nos cursos de humanas. “A velocidade com que conseguimos montar um corpo docente qualificado chamou a atenção. Atraímos um número expressivo de ótimos profissionais aguardando oportunidades.”

Olgária Matos, chefe do departamento de filosofia na Unifesp, em Guarulhos, fez parte do processo de abertura de mercado para esses docentes. Aposentada da Universidade de São Paulo desde 2004, ela foi convidada para organizar o curso de filosofia no novo campus. Desde então, participou da contratação de 38 professores, a maioria composta por jovens doutores. “São profissionais que, no passado, encaminhavam-se para o ensino secundário ou para a área editorial por falta de vagas em universidades”, conta. No primeiro concurso, houve 60 inscritos para 11 vagas e a disputa foi acirrada. “Eram todos excelentes”. Conforme as vagas foram surgindo, acompanhadas da expansão de outras instituições de ensino no país, a relação candidato/vaga se equilibrou.

A remuneração dos professores, porém, ainda não é considerada atrativa. Daniel Vazquez, da Unifesp, revela que não teve ganho financeiro ao trocar de instituição. “Pela qualificação exigida, ainda está aquém do ideal”, afirma. O salário de um professor adjunto, primeiro nível de um profissional com doutorado dentro de uma instituição federal, é de pouco mais de R$ 7 mil.

De acordo com o secretário de educação superior do MEC, Luiz Costa, o salário não é a única variável que deve ser considerada pelos docentes. “Percebemos que o maior interesse dos doutores em migrar para universidades federais é a questão da dedicação à pesquisa e à orientação acadêmica”. Para corrigir distorções de formação de doutores no país, o ministério tem incentivado a contratação de professores onde há menos concentração desses docentes como na região Norte. “Isso, contudo, não garante a fixação deles nesse locais. Precisamos aumentar a formação nessas áreas para que eles se mantenham.”

Segundo a Capes, o número de bolsas concedidas para pós-graduação hoje é mais que o dobro em comparação a 2007. Até o fim do ano, haverá 60 mil bolsistas no país e a prioridade será para as regiões Nordeste, Norte e Centro-Oeste. “Também privilegiaremos áreas onde faltam doutores como as engenharias, ciências exatas, educação e ciências agrárias”, diz Emídio de Oliveira.

Fonte: Jornal Valor Econômico

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