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Na disputa interna por recursos, especialização é arma

O Brasil tem melhorado o ambiente necessário à inovação, mas ainda apresenta muitos empecilhos à expansão dos investimentos em pesquisa e desenvolvimento. A posição é consenso entre executivos de grandes companhias e analistas do setor de tecnologia. Entre os principais vilões são apontados os custos altos e a escassa oferta de mão de obra, que tornam o país menos atraente que rivais como Índia e China.

O resultado é que na disputa interna das subsidiárias pelos recursos de pesquisa dos grandes grupos internacionais de TI, o Brasil é muitas vezes preterido em projetos que exigem desenvolvimento em grande escala. Isso tem ajudado a definir o que seria uma espécie de vocação brasileira: a criação de aplicações sofisticadas, a partir de estruturas mais enxutas. “O Brasil começa a ser visto como um centro de profissionais que pensam fora da caixa”, diz Fernando Belfort, analista da consultoria Frost & Sullivan.

Para Ricardo Barbosa, diretor de pesquisa e desenvolvimento da Dell no Brasil, o país precisa necessariamente definir suas vocações. “O grande erro é tentar abraçar o mundo”, diz. Para a Dell, que mantém centros próprios e projetos em parceria no país, o foco está no desenvolvimento de software para educação e computação em nuvem, modelo pelo qual os sistemas não ficam instalados no computador do usuário e são acessados pela internet.

O centro de pesquisa da Motorola Mobility, instalado em 1997 no interior de São Paulo, é uma exceção à tendência dos laboratórios de menor porte. A equipe inicial, de 30 pessoas, aumentou para os cerca de 300 a 400 pesquisadores atuais, um número que varia de acordo com o projeto. “Nossa prioridade inicial foi investir em capacitação em tecnologia de ponta para celulares”, diz Rosana Fernandes, diretora de pesquisa e desenvolvimento da Motorola Mobility.

Polos independentes, como o Centro de Estudos e Sistemas Avançados do Recife (Cesar) e o Instituto Eldorado, têm profissionais capacitados em tecnologias avançadas e trabalham em parceria com a empresa, diz a executiva. Para dar conta das necessidades, no entanto, outras instituições com esse nível são necessárias, afirma Rosana: “A grande demanda já não é mais tanto por volume, mas por qualificação de altíssimo nível e pelo fortalecimento de um ecossistema que consiga reter esses profissionais no país”.

As bases para a consolidação desse ambiente estão sendo criadas aos poucos, afirmam executivos ligados à área de pesquisa. As políticas públicas para incentivar a formação de doutores são um desses aspectos. É o caso da iniciativa “Ciência sem Fronteiras”, que prevê conceder até 75 mil bolsas em cursos que combinam períodos no Brasil e no exterior.

As companhias também tentam estreitar os laços com o universo acadêmico. Esse movimento é expresso em polos como a Tecnopuc, em Porto Alegre, e o Parque Tecnológico da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que abrigam centros patrocinados por empresas.

Com a melhoria das condições no horizonte, pesquisadores brasileiros que fizeram carreira no exterior estão voltando ao país. “Há, inclusive, um bom número de estrangeiros com interesse em atuar por aqui”, diz Barbosa, da Dell.

Ulisses Mello, diretor para recursos naturais do IBM Research, diz que a disponibilidade de talentos foi um dos fatores que definiram o aporte da IBM em um centro no Brasil. O país concorreu com locais como Austrália e Emirados Árabes. Com previsão de contratar 100 pessoas em três anos, Mello diz que a companhia não tem encontrado problemas para preencher os quadros.

A primeira criação do centro da IBM mostra o nível de exigência: um sistema que prevê enchentes com prazo de antecedência de 48 horas. O projeto envolveu a participação de matemáticos e desenvolvedores de software. “Mas não se trata de um desenvolvedor típico, e sim, de um profissional especializado no problema. É uma contratação muito mais sofisticada”, diz Mello.

Fonte: Valor On Line

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