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Modelo de inovação de empresa desperta controvérsia

Mario Mazzola pode ter o melhor negócio no Vale do Silício. Outros inovadores, na busca por realizar seus sonhos, precisam enfrentar a possibilidade de fracasso; há poucas redes de segurança para empreendedores. Mazzola, que cria produtos de redes de computação, no entanto, é o maior beneficiário do controverso modelo conhecido como “spin-in”. Quando os projetos ainda eram pouco mais que apenas ideias, a Cisco Systems aceitou financiar e comprar – não por uma ou duas, mas por três vezes – as empresas fundadas por Mazzola e seus auxiliares de longa data, Prem Jain e Luca Cafiero.

Em cada um dos três casos, a Cisco investiu US$ 50 milhões ou mais por participações nas empresas e opções para comprar o restante do capital em datas determinadas. O preço final, embora atrelado às vendas dos produtos das companhias, é generoso. A Cisco pagou US$ 750 milhões pela Andiamo Systems, de Mazzola, em 2004, e US$ 678 milhões pela Nuova Systems, em 2009. Em 19 de abril, a Cisco informou estar disposta a pagar até US$ 750 milhões pelo mais recente projeto do trio, chamado Insieme.

O executivo-chefe da Cisco, John Chambers, sustenta que os acordos são bons para sua companhia. De acordo com a visão geral, Mazzola, de 65 anos, e seus colegas formam uma das melhores equipes de criação de produtos no mundo das empresas de tecnologia. Inventaram um comutador de rede – que ajuda a transferir dados de um local para outro – para empresas quando estavam na Crescendo Communications, no início dos anos 90. A Cisco comprou a empresa em 1993, por US$ 94 milhões, e a transformou em uma operação de US$ 13 bilhões, seu maior negócio atualmente.

O financiamento a Mazzola em 2002 ajudou a Cisco a expandir-se no mercado de comutadores relacionados a armazenamento de dados. A compra da Nuova permitiu à Cisco sua jogada estratégica mais ousada em décadas: enfrentar as antigas parceiras Hewlett-Packard (HP) e IBM com uma linha própria de servidores – os computadores que concentram os recursos em uma rede – como parte de seus esforços para oferecer uma gama completa de serviços e equipamentos para centros de dados.

A estratégia permite à Cisco assegurar a fidelidade de Mazzola e sua equipe, sem correr o risco de concorrer com eles ou perdê-los para um rival. Os projetos de Mazzola também ajudam a Cisco a contar com grandes talentos da engenharia de computação que, de outra forma, poderiam evitar trabalhar para grandes empresas de capital aberto. Com quase US$ 47 bilhões em caixa, a Cisco pode se dar ao luxo de seguir a estratégia, que traz retornos gigantescos quando a equipe de Mazzola acerta o alvo (com a Nuova, a Cisco destaca que recuperou várias vezes o valor investido). “A equipe da Insieme representou um notável sucesso para nós”, disse Chambers a repórteres em 19 de abril.

Muitos ex-executivos da Cisco criticam a estratégia e a consideram destrutiva, por acabar com o moral dos funcionários que não têm a sorte de estar envolvidos no projeto. Chambers poderia ter feito um acordo com Mazzola, que já ganhou milhões como alto executivo da Cisco, que não fosse tão enriquecedor para tão poucos. “Basicamente, acho que esses acordos são uma droga”, diz Samuel Wilson, ex-analista de renda variável que agora administra uma empresa de investimentos chamada Taos Global Investors. “Sugere que a Cisco está disposta a subornar pessoas que já são funcionários e levanta questões se essas pessoas são leais à Cisco ou a elas próprias.” No quarto trimestre, o trio pediu demissão poucas semanas depois de receber o pagamento final relativo à Nuova para, então, começar a trabalhar na Insieme.

A Cisco não revela quanto Mazzola, Jain e Cafiero ganharam ao vender os projetos. Depois de descontar as participações que a Cisco já detinha nos negócios e as cedidas a funcionários, provavelmente o valor é de menos de 30% do total da compra, segundo dois ex-executivos da Cisco que não quiseram ser identificados porque os termos dos acordos não são públicos. Ainda assim, isso poderia significar centenas de milhares de dólares para os três executivos – nenhum dos quais aparece nas linhas de remuneração nos balanços financeiros da Cisco.

Até agora, nenhuma outra empresa da área de tecnologia vem seguindo o caminho da Cisco. “Não posso pensar em nenhum outro exemplo”, afirma o professor David Yoffie, da Harvard Business School. Ele sugere que outras empresas podem ter receio de que os funcionários em projetos baseados no modelo de “spin-in” não trabalhem com tanto empenho como os empreendedores independentes, já que não têm a mesma “vantagem que viria com uma possível oferta pública inicial de ações ou uma guerra de preços [pelo controle do projeto]”.

Com a Insieme, Chambers não espera que Mazzola e seus colegas criem um produto para um novo mercado, mas para proteger algum mercado no qual a empresa já opera. A maior fonte de receita da Cisco são seus caros aparelhos, repletos de softwares próprios, que direcionam e processam fluxos de dados. A Insieme trabalha em uma nova abordagem chamada rede definida pelo software, que desempenhará a mesma tarefa que as caras máquinas da Cisco, mas rodando programas a partir de computadores pessoais comuns.

Fonte: Valor On Line (adaptado)

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