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Mercado de pequenos satélites pode gerar US$ 69 bi até 2030 e ser oportunidade para Alcântara

O mercado de pequenos satélites deverá crescer em 12 anos, segundo levantamento da consultoria Frost & Sullivan. O total da receita projetada de 2018 a 2030 é de US$ 69,04 bilhões, baseada no cenário da demanda por lançamentos da empresa. É uma oportunidade para toda a indústria, incluindo o Brasil e um possível destravamento da base de Alcântara (MA).

A questão é que poderá haver um déficit para o mercado de pequenos satélites em geral. A previsão da Frost & Sullivan é de que exista demanda de 11.746 lançamentos até 2030, a maioria (90%) por conta de um grupo de 37 operadoras. Mas a capacidade projetada é de 11.009 lançamentos planejados e bem sucedidos, conforme a consultoria. “Como tem muita gente entrando no mercado, a indústria precisará de muitos lançamentos. Mas ela não é desenhada para suportar a demanda. Mesmo presumindo que toda a capacidade esteja disponível, não dá. Além disso, é muito caro e demorado lançar onde os grandes satélites são lançados, e os sistemas de pequenos satélites têm de ser instalados em um período curto”, afirma o gerente de indústria aeroespacial e defesa da Frost, Arun Sampathkumar. Isso porque esses artefatos têm uma vida útil menor, e precisarão ser substituídos com maior frequência, entre três a quatro anos.

Para resolver a questão, o executivo sugere a redução do peso regulatório para lançamentos, permitindo a entrada de novos players, inclusive empresas dedicadas às atividades da indústria de pequenos satélites. Com novos players e novos clientes, mais satélites precisarão ser lançados de novos foguetes em mais centros de lançamentos e com mais infraestrutura. Como exemplo, há uma proposta de regulação do Reino Unido para iniciativa público-privada no uso de bases de lançamento, esperando assim abocanhar uma fatia de pelo menos 10% do mercado entre 2020 e 2025.

O Brasil tem uma expectativa mais modesta. Segundo o Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), a previsão com o pleno funcionamento da base de Alcântara é de 1% do mercado espacial, o que representa US$ 3,5 bilhões ao ano. Embora entenda que a decisão do governo brasileiro de destravar é uma “ação inteligente”, Arun Sampathkumar explica que haverá outras barreiras. “Um novo player não pode ser tratado igual, as operadoras precisam ter segurança, proteção e garantia para os clientes, que terão um orçamento menor e não podem arriscar ter a carga queimada no lançamento”, afirma.

A sugestão dele é que o governo promova um manifesto para lançamentos “promocionais”, incluindo de satélites brasileiros, mas para transmitir uma maior segurança para o mercado em relação à nova base. “Se o governo estiver nesta direção, poderá ter um mercado com modelo de spaceport em parceria e investindo em lançamento e infraestrutura e trazendo custo baixo para o operador. O próprio governo brasileiro se beneficiaria, é ganha-ganha”, afirma. Ele critica o modelo de espaçoporto nos Estados Unidos, onde o acesso estaria muito caro e com priorização para o próprio governo norte-americano. “A chave é trazer menores negócios, com investimentos menores, e estabelecer as operações. Os pequenos provedores de satélite ajudarão com mais lançamentos.”

No entendimento do gerente da Frost, o Brasil poderia se beneficiar da estratégia de gestão de risco dos pequenos. Como não podem arcar com a possibilidade de perder múltiplos satélites de uma vez, eles distribuem o risco entre diferentes lançamentos e bases. Assim, Alcântara poderia ser uma alternativa.

A questão da logística também pode ser contornada. Embora muitos fabricantes prefiram bases próximas da manufatura dos satélites, a entrada de empresas como a FedEx para o transporte dos artefatos para outras localidades pode baratear e facilitar o uso de bases alternativas.

Perspectivas

Sampathkumar explica que a perspectiva para o mercado de conectividade satelital deverá ser de US$ 1,5 bilhão a US$ 2 bilhões no períodos, mas com um menor número de players. “Se pegarmos uma companhia como a OneWeb, uma joint-venture [inclui Hughes, Intelsat, Airbus, Qualcomm, SoftBank, Virgin e outras empresas], a constelação é de 720 satélites. Estamos falando de 600 a 700 satélites por empresa”, declarou. A proposta dessas empresas de conectividade, ele explica, é de promover universalização da banda larga, especialmente chegando a lugares onde players com órbitas geoestacionárias não cobrem, como a região polar.

Do total previsto pela Frost & Sullivan da demanda para lançamentos, 73,8% dos lançamentos serão de satélites de até 15 kg e entre 150 kg e 500 kg. A massa da carga total no cenário mais otimista é de 2.758 toneladas.

Para Arun Sampathkumar, a conectividade nessas regiões ainda descobertas será promovida justamente com parcerias com outras grandes operadoras satelitais ou mesmo com teles tradicionais para entregar a última milha, preenchendo um gargalo. “Os pequenos entenderam [essa oportunidade], e podem prover banda larga satelital em colaboração para entregar novos serviços em locais remotos para pequenas empresas e clientes finais”, analisa. O analista diz ainda que as incumbents do mercado de downstream (ele cita a Intelsat como exemplo) podem se beneficiar ao poder oferecer serviços e produtos mais baratos e sem tanto investimento. “O que eles entregam é valor para diferente setores. Muitos sequer vão saber que usam capacidade satelital.”

Por outro lado, uma tendência atualmente associada a grandes satélites, os foguetes reutilizáveis, também acabarão chegando a esse mercado. “Não temos visto em discussões ainda esse ponto porque continua sendo um risco”, afirma. “Mas o reuso será um aspecto chave. Em determinado ponto, todas as capacidades [dos lançadores] ficarão similares, e o preço cairá.”

Sampathkumar reconhece que não é a primeira vez que um mercado de pequenos satélites desponta como uma tendência. Para ele, a indústria espera a cada cinco anos por algum grande marco que impulsione o mercado, e que não chega a acontecer. “Mas as coisas têm mudado. Estamos falando com muitos pequenos, que já estão colocando payloads em órbita”, diz. Mesmo as grandes empresas estariam depositando mais confiança no mercado: a própria OneWeb tem 20% de participação da Eutelsat, afirma. Embora o investimento para essas constelações seja menor, os investidores não estariam depositando muita fé, mas ele entende que a participação dos governos vai mudar isso. “Os pequenos já estão provocando uma disrupção”, declara. “Única coisa que falta é as agências governamentais agirem ativamente nos novos mercados.”

Fonte: Teletime

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