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A matemática molda trajetórias de vida

O cearense Ricardo Oliveira nasceu em 17 de fevereiro de 1989 em Várzea Alegre, a mais de 400 km de Fortaleza. Ainda bebê, foi diagnosticado com amiotrofia espinhal, doença neurológica que afeta a medula. Numa extraordinária trajetória de superação da enfermidade e das dificuldades inerentes a sua origem humilde, Ricardo tornou-se sete vezes medalhista da Olimpíada Brasileira de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP), o que também lhe abriu o caminho para o ensino superior: ao final de 2016 formou-se no curso de Tecnologia em Mecatrônica Industrial, com excelentes notas.

Filho de agricultores da zona rural de Várzea Alegre, até o acesso à educação era um problema. Além de morar longe da escola, era quase impossível uma cadeira de rodas trafegar pelas esburacadas estradas de terra batida: muitas vezes o pai teve que levá-lo em um carrinho de mão. Por essa razão, seus pais, Francisca e Joaquim, acabaram optando por educarem o filho em casa, apesar de eles próprios terem poucos anos de escolaridade. Foi Francisca que alfabetizou Ricardo, além de lhe ter ensinado as operações fundamentais da matemática.

Em 2005, a professora Erileuza Jerônimo, diretora da escola municipal Joaquim Alves de Oliveira, soube da sua situação e empenhou-se para que Ricardo pudesse ter acesso ao ensino formal. A solução para vencer o problema do deslocamento foi que os professores dessem aulas na casa dele. Foi assim que, aos 17 anos de idade, Ricardo se tornou aluno do 6º ano do ensino fundamental, depois de ter sido aprovado numa prova de validação de conhecimento.

Nesse mesmo ano, o irmão Ronildo participou na primeira edição da OBMEP, tendo conquistado medalha de bronze. Empolgado, Ricardo decidiu tentar também no ano seguinte, e foi ouro! “Simplesmente não acreditei Como um garoto deficiente físico, vindo de família humilde, morando em um sítio isolado do interior do Ceará e que praticamente não teve acesso a uma sala de aula poderia conquistar uma medalha de ouro em uma competição de nível nacional?”

Em 2007, foi bicampeão na OBMEP. A façanha mereceu destaque na cerimônia nacional de premiação, no Theatro Municipal do Rio de Janeiro: foi convidado a subir ao palco para receber uma homenagem especial das mãos do então presidente da República, Lula. Mas Ricardo não parou aí: no total foram cinco medalhas de ouro (2006, 2007, 2008, 2009 e 2012) e duas de prata (2010 e 2011), além de outras tantas em competições escolares de astronomia e língua portuguesa.

O sucesso abriu algumas portas. Com o apoio da prefeitura, em 2008 a família mudou-se para o centro de Várzea Alegre, e Ricardo matriculou-se na escola municipal Presidente Castelo Branco, onde pode finalmente frequentar a sala de aula e onde viria a concluir a educação básica.

Junto com as medalhas da OBMEP, veio o direito de frequentar o Programa de Iniciação Científica (PIC), durante sete anos. “Foi muito treinamento!”, brincou, bem-humorado, em conversa que tivemos por telefone esta semana.

A bolsa de Iniciação Científica Júnior do CNPq (R$ 100/mês) certamente ajudou no orçamento familiar. E todo esse estudo foi muito útil quando entrou no Instituto Federal do Ceará (IFCE), para a sonhada graduação em Tecnologia em Mecatrônica Industrial: “Como estava muito avançado em matemática, não tive nenhuma dificuldade ao longo do curso”, explica.

O ingresso no IFCE implicou em mais uma mudança, para Cedro, a 50 km de Várzea Alegre. Mais uma vez, a família toda foi junto para apoiá-lo. Como sobreviveram nesse tempo? “Complicado…”, responde. Joaquim, o pai, complementava com “bicos” o benefício que Ricardo recebe do INSS.

Concluiu a graduação em menos de quatro anos, com ótimo aproveitamento. Ao telefone me contou que é a primeira pessoa da família do pai a concluir um curso superior. Acrescentando com óbvio orgulho: “Ronildo é o próximo!”. O irmão cursa Ciência da Computação na Universidade Federal do Ceará, e deve concluir a graduação em 2018.
Perguntei: “E o futuro? Qual é o seu próximo sonho?” Ricardo quer fazer concurso público, devolver à sociedade o conhecimento adquirido. Como medalhista da OBMEP ele adquiriu o direito a bolsa de estudos da CAPES para fazer mestrado em matemática, e isso também está nos seus planos. Como a todos nós, preocupa-o a atual instabilidade do país. Mas ele mantém a esperança e a vontade de seguir em frente.

A trajetória de Ricardo Oliveira ilustra de forma extraordinária um dos meus “teoremas” favoritos: o talento está distribuído de forma equânime em todo o território nacional e em todos os estratos da sociedade. Mas as oportunidades não. “Às vezes, fico pensando na quantidade de talentos escondidos por esse nosso Brasil que nunca tiveram a oportunidade de se revelarem para o mundo. A escola tem um papel importante na formação do estudante, mas é muito deficitária em detectar e potencializar talentos individuais”, pondera Ricardo.

Poucas políticas públicas têm a capacidade comprovada da OBMEP para ajudar a corrigir essa distorção, levando oportunidades aonde elas não existem.

Fonte: Folha de São Paulo

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