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Máquina que ‘lê’ genoma em um dia chega ao Brasil

Hospital A.C.Camargo, de São Paulo, e Fiocruz do Paraná compraram sequenciador, que deve chegar em setembro.

Em 1989, um grupo de aproximadamente 5 mil cientistas de todo o mundo, sob coordenação dos Institutos Nacionais da Saúde (NIH) dos Estados Unidos, dava início ao Projeto Genoma Humano. No ano 2000, esse consórcio anunciou, em cerimônia na Casa Branca, a conclusão do primeiro sequenciamento do genoma humano, ao mesmo tempo em que um grupo privado fazia o mesmo. O projeto público teve um custo de US$ 3 bilhões e demorou onze anos para ser concluído. O projeto rival, da companhia americana Celera, levou três anos e custou US$ 200 milhões.

Em 12 anos, a velocidade e o custo desse tipo de exame mudou drasticamente. Hoje, a empresa americana Life Technologies vai lançar no mercado brasileiro um equipamento capaz de realizar o sequenciamento do genoma humano em 24 horas, a um custo de US$ 1 mil. O equipamento foi anunciado em janeiro nos Estados Unidos e começa a ser vendido globalmente neste mês. “A expectativa é acelerar fortemente o mercado de pesquisa genética e de diagnósticos”, afirmou Gianluca Pettiti, executivo-chefe da Life Technologies para América Latina.

O Hospital A.C. Camargo, instituição de São Paulo especializada em câncer, e a Fiocruz do Paraná compraram o Ion Proton e devem recebê-lo em setembro. O aparelho e o processador custam cerca de US$ 250 mil. O que permitiu baratear o processo é a tecnologia usada, similar à de qualquer computador da atualidade e que não depende da decifração das “letras” químicas do DNA usando luz. É isso que torna o processo mais trabalhoso e até dez vezes mais caro com outros aparelhos.

Segundo Emmanuel Dias-Neto, biólogo, bioquímico e pesquisador do Centro Internacional de Pesquisa do Hospital A.C.Camargo, o objetivo é ter cada vez mais uma medicina personalizada. “Já há outras plataformas que permitem sequenciar genes específicos, mas há síndromes de cânceres hereditários em que deveria haver uma mutação em certo gene, mas não há. Nesses casos, talvez seja preciso olhar o genoma como um todo. Hoje, isso é algo mais factível.”

No A.C. Camargo, o Ion Proton deve ser usado inicialmente para pesquisa. A ideia é separar o joio do trigo, ou seja, encontrar as alterações genéticas que têm e não têm a ver com o câncer. “Queremos entender melhor os tumores, por que um é mais agressivo que o outro, por que um responde melhor a químio ou a radioterapia.”

Só mais tarde o sequenciamento deverá ser oferecido ao paciente, na prática clínica. A leitura e a interpretação de todo o genoma poderão ser usadas para aconselhamento de famílias com tumores hereditários, digamos. “Se a pessoa tiver a alteração, vamos ter de olhá-la mais de perto”, afirma Dias-Neto. “Nos Estados Unidos, já há pacientes com câncer que já têm vários genes sequenciados no hospital para avaliar a gravidade da doença.”

O hospital também será um centro de apoio para pesquisas de outras instituições. Já há projetos de trabalhar com o Instituto de Psiquiatria da USP para investigar mal de Alzheimer, autismo, transtorno bipolar e esquizofrenia.

Gargalo

Apesar de mais rápido e barato, o aparelho tem falhas, afirmam os especialistas. “Ele erra muito. Quando há sequências de muitas ‘letras’ repetidas, o aparelho tem dificuldade de ler”, afirma Bernardo Garicochea, coordenador da unidade de aconselhamento genético do Hospital Sírio-Libanês.

O problema, porém, pode ser contornado, afirma Dias-Neto. Sabendo dessa limitação, é possível confirmar o dado em outros aparelhos.

Segundo o geneticista David Schlesinger, do hospital Albert Einstein, o mais importante não é a máquina, mas o que fazer com os dados gerados. “Falo que é o genoma de US$ 1.000 e a interpretação de US$ 1 milhão.” Na prática, porém, o sequenciamento deve custar mais que isso. Dias-Neto afirma que, contando com a importação de reagentes e impostos, hoje esse preço ficaria em torno de US$ 3.000.

Fonte: Folha de São Paulo e Valor Econômico

 

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