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Machado de Assis e Borges: ciência e literatura que se bifurcam

Dois livros recém-publicados pela Editora Unicamp exploram o vínculo entre literatura e ciência. Em “Fábrica de Contos: Ciência e Literatura em Machado de Assis” (Editora Unicamp, 304 págs., R$ 29), a autora Daniela Magalhães da Silveira conta como o bruxo do Cosme Velho, além dos olhos de ressaca de Capitu, guardava interesse por ideias científicas e filosóficas de seu tempo. Denunciava o uso das teorias para fins políticos, como se fossem manuais de organização social, e criou uma das mais célebres paródias do determinismo de seu século no “humanitismo” do personagem Quincas Borba, autor da célebre fórmula “ao vencedor, as batatas!”.

 

 

O físico e músico argentino Alberto Rojo relata, em “Borges e a Mecânica Quântica”(Editora Unicamp, 144 págs., R$ 30), sua surpresa com a proximidade entre algumas narrativas e personagens de Jorge Luis Borges e teorias desenvolvidas pelos físicos do século XX. À surpresa se acresce o relato de um encontro fortuito com o escritor no restaurante de um hotel bonaerense, em que o físico manifestou sua admiração pelo conhecimento que Borges tinha da ciência. Mas o autor confessou não saber nada do assunto, para espanto do interlocutor. “A única coisa que sei de física aprendi com meu pai, que me explicou como funcionava o barômetro”, disse. Tendo ouvido de Rojo o quanto seus contos dialogavam com a vanguarda do pensamento científico, o autor arrematou: “Como são criativos os físicos!”.

Os livros de Daniela Magalhães e Alberto Rojo exploram a proximidade entre a imaginação literária e a científica, mas também a relação às vezes oculta das ideias abstratas e racionais com a vida cotidiana. Daniela, historiadora que leciona no Instituto de História da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), explica que “um dos principais objetivos de Machado de Assis, quando criticava os adeptos das teorias e filosofias de seu século, talvez fosse o de alertar para o fato de que aqueles posicionamentos serviam para justificar medidas políticas arbitrárias e a exclusão social. Tudo isso com a feição científica, ou seja, de algo que não poderia ser contestado por quem não fosse igualmente cientista”.

Rojo, professor da Universidade de Oakland, nos EUA, começou a escrever sobre a relação entre ciência e literatura na imprensa em 2007. Transformou os artigos em livro graças ao sucesso que os escritos tiveram com o público. Para ele, o principal vínculo entre a poesia e a ciência está na insuficiente capacidade humana de expressar tudo que lhe atiça o interesse. Rojo cita o físico alemão Werner Heisenberg: “Luz e matéria são ambas entidades individuais, e a aparente dualidade emerge das limitações de nossa linguagem”.

“A poesia existe porque a linguagem é limitada, porque as palavras esquadrinham uma realidade que é contínua e infinita. Para ir mais além desse esquadrinhas, para expressar o inexprimível, é necessário recorrer a permutações que prolonguem o alcance da inteligência”, escreve Rojo. Exemplos estão na estrutura concêntrica do Inferno em Dante e no labirinto temporal do “Jardim dos Caminhos que se Bifurcam”, de Borges, considerado “muito similar” ao dos “muitos mundos” quânticos sugeridos pelo físico americano Hugh Everett III.

O interesse de Machado de Assis pela ciência se explicita nos contos e artigos publicados em jornais. Segundo Daniela, havia “um debate muito grande em torno de temas com vertente científica. Aliás, as polêmicas ajudavam a vender jornal e eram usadas como forma de atrair mais leitores”. Portanto, para entender o escritor, é preciso dar-se conta de que sua obra está vinculada a uma era. Ele “tornou-se o autor que conhecemos porque viveu no século XIX, dividiu as colunas dos jornais e revistas com determinados colaboradores, escreveu para as leitoras suas contemporâneas, assumiu um cargo como funcionário público. Enfim, é um homem de seu tempo”, explica a autora.

Fonte: Valor On Line

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