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Lynaldo Cavalcanti, uma vida dedicada à luta pela redução das desigualdades regionais em ciência e tecnologia

Em abril deste ano, no aniversário de 60 anos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), foi prestada homenagem a Lynaldo Cavalcanti de Albuquerque, ex-presidente da agência de fomento do Ministério da Ciência e Tecnologia. Na ocasião, o presidente do CNPq, Glaucius Oliva, entregou placa em homenagem à sua contribuição à inovação brasileira, recebida pelas filhas do professor Lynaldo, Cristiana e Carla Albuquerque.
O livro afirma que Lynaldo Cavalcanti tentou estabelecer uma interface entre a pesquisa e o setor produtivo, induzindo a criação de parques e polos tecnológicos. Como presidente do CNPq, ele criou o primeiro parque tecnológico do país, o de Campina Grande (PB) com incubadora de empresas. Formado em 1955, em Recife, voltou para Campina Grande onde foi diretor no Departamento de Obras (1956-59), diretor da Escola Politécnica por sete anos a partir de 1962. Na sua gestão, “Campina Grande foi considerada como lugar a ser apoiado em termos de pós-graduação stricu sensu em engenharia, fora do Rio e São Paulo”.Engenheiro civil (1932-2011), paraibano de Campina Grande, Lynaldo Cavalcanti de Albuquerque foi quem deu a maior contribuição à ciência e tecnologia no Nordeste, avalia o deputado Ariosto Holanda. O livro “50 Anos do CNPq contados pelos seus ex-presidentes”, organizado por Shozo Montoyama, editado pela Fapesp, entrevistou o professor em 2001. Destaca a sua contribuição na ampliação da atuação do CNPq com a implementação de programas de desenvolvimento como o do Trópico Semiárido com foco na redução das desigualdades regionais e o Programa de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Padct).
Depois de um período como coordenador de pós-graduação na Escola Politécnica, criou mestrados de engenharia de sistemas e mestrado de engenharia elétrica, os primeiros da Paraíba. Em janeiro 1972, Lynaldo passa a adjunto de Jarbas Passarinho no Departamento de Assuntos Universitários do Ministério da Educação (atual Sesu). No MEC, ele coordenou o primeiro Plano Nacional de Pós-Graduação, que buscou atenuar o desequilíbrio – na época, no Nordeste só havia universidades no Ceará, Pernambuco, Bahia e Paraíba – com a criação do Programa Institucional de Capacitação de Docente, em 1975. Com o PIDC, relata na entrevista ao livro, as universidades receberam um grande número de bolsas e puderam planejar a capacitação dos seus docentes pois havia poucos mestres e doutores.
Em fevereiro de 1976, Lynaldo assume o cargo de reitor da Universidade Federal da Paraíba, que chegou a ter “mais de 200 bolsas do PICD, além dos docentes que estavam fazendo pós-graduação na Universidade e mais um bom número no exterior”. Em 1982, no final da gestão na reitoria– informa no depoimento ao livro – a UFPB chegou a ter uma 150 pessoas fazendo doutorado no exterior, uma 400 no Brasil somadas às do PIBCT e outras financiadas com recursos da própria universidade.
Lynaldo relata que foi reitor por 1.460 dias com ideias e projetos para fazer uma universidade realmente voltada para a realidade da Paraíba sem perder a visão de ser uma instituição de ciência. O lema da regionalização – explica – era feito de descentralização, diversificação, interiorização e integração, com a criação de núcleos multidisciplinares para acabar com aquela história de cada departamento andar para o seu lado. “Nossa universidade foi a primeira a primeira a formar vários núcleos multidisciplinares de pesquisa”, afirma. Como resultado da interiorização que promoveu na UFPB, foram criados quatro campi na Paraíba em Patos, Souza, Cajazeiras e Bananeira, além dos de Areia e Campina Grande.
Lynaldo Cavalcanti em foto de Juan Pratginestos, do livro 50 Anos do CNPq
Em quatro anos a UFPB triplicou o número de professores – de 900 para 2.700, recrutando profissionais de outros centros do país e do exterior. A pós-graduação cresceu de cinco cursos, três dos quais criados por Lynaldo na escola Politécnica, para 32. “A desculpa para não criar cursos de pós-graduação repousava na falta de professores capacitados. Para sanar essa lacuna, fui procurei buscá-los onde havia”. O reitor criou um núcleo de cultura popular na UFPB que, segundo ele, virou em quatro anos uma verdadeira escola de aprendizado de liderança.
“Nós fomos a primeira instituição de ensino superior a ter um computador no Nordeste, em 1967. Em 1970 criamos o mestrado em engenharia de sistemas e a graduação em ciências da computação. Criamos os primeiros cursos de tecnólogos em processamento de dados, em 1975”, informa o professor.
Em 1980, Lynaldo assume a presidência do CNPq, que exerceu por cinco anos, e avalia que conseguiu implantar vários programas inovadores, sobretudo na área tecnológica. “Enfatizamos a necessidade de promover desenvolvimentos regionais, com o envolvimento dos estados e do setor produtivo”, afirma. Foram criados 16 Núcleos de Inovação Tecnológica (NIT) em 1981, que tinham por missão aproximar os institutos e as universidades da demanda do setor produtivo. A ideia foi incorporada na criação da Lei de Inovação que prevê de forma mandatária que todas instituições pública de ensino e de pesquisa criem um NIT.
Em 1980, Lynaldo Cavalcanti criou a Associação Brasileira das Instituições de Pesquisa Tecnológica e Inovação (Abipti) para discutir com as agências de fomento o que se poderia fazer na área tecnológica para fortalecer os sistemas estaduais de ciência e tecnologia. De início, na reunião de fundação da associação institucional, no final de 1980, em Recife, com a Finep, nove instituto se engajaram, entre eles a Fundação Núcleo de Tecnologia Industrial do Ceará  (Nutec), na época presidido por Ariosto Holanda. A Abipti foi instalada numa sede no subsolo do CNPq, em Brasília, disse ele em entrevista no livro “25 anos da ABIPTI”, de Shozo Motoyama, Paulo Queiroz Marques e Maria Angélica Rodrigues Quemel.
Indagado sobre os impactos sociais mais evidentes nos programas e instituições por ele criados, Lynaldo Cavalcante destaca o Programa do Trópico Semiárido (PTSA/NE)), com seu componente de transferência de tecnologia para o setor rural, sobretudo para os pequenos produtores. O PTSA foi aprovado pelo BID e previa criar em cinco universidades – UFC, UFPB, UFPI, UFRPE e Escola Superior de Agronomia de Mossoró – um instituto de pesquisa do semiárido, mas nenhuma delas assumiu esse compromisso.
FRASES
“O meu grande drama, como homem do Nordeste, residia em ver, no Brasil, a desigualdade regional aumentar, em vez de diminuir, sobretudo no campo da ciência e tecnologia”.
“A divulgação e a popularização da ciência continuam sendo uma grande necessidade. Nesse aspecto, vejo com muita esperança a atuação da Associação Brasileira de Jornalismo Científico (ABJC)”.
“A sociedade brasileira – não estou falando do presidente ‘a’, ‘b’ ou do ministro ‘m’ ou ‘n’ – continua não dando a importância necessária à ciência e tecnologia”.
“Passaram-se 13 anos da Constituição federal de 1988, com a permissão de vincular recursos para a investigação científica e tecnológica e 23 Constituições estaduais adotaram esse dispositivo. Infelizmente, em muitos estados, ele é letra morta”.
“A interiorização do conhecimento continua sendo um dos maiores desafios a serem superados para que o pleno desenvolvimento das regiões brasileiras seja possível. Somente com isso, o processo comprometedor de esvaziamento dessas regiões, em favor dos grandes centros urbanos, poderá ser atenuado”.
“Ao longo do tempo aprendi a cercar-me de pessoas competente. Bem como saber ouvi-las e o valor básico disso é a confiança. Considero que confiar é também delegar”.
Fonte: Blog Flamínio Ararípe (adaptado)

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