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Las Vegas vai da jogatina a polo de inovação

A história de Las Vegas está repleta de homens determinados com egos fora do normal e grandes planos. Houve Bugsy Siegel, na década de 40, vislumbrando uma meca da jogatina no deserto, fora do alcance do braço da lei. Meio século mais tarde, desenvolvedores como Steve Wynn e Sheldon Adelson acrescentaram pompa, glamour e mais do que um toque de excesso à Las Vegas Boulevard, área que se tornou conhecida como a “Strip” (faixa).

Agora há um outro empresário resoluto que quer dobrar Sin City [Cidade do Pecado, como é o apelido da cidade] à sua visão. Tony Hsieh, de fala mansa, é o executivo-chefe do site Zappos.com (uma divisão da Amazon.com), que comercializa sapatos e artigos de vestuário e quer transformar a frequentemente ignorada e economicamente deprimida área central da cidade num bairro urbano denso, povoado por artistas, empresários e funcionários de empresas de internet. É um dos maiores esforços de revitalização não convencionais da história em qualquer cidade americana. Em vez de reivindicar verbas públicas, Hsieh está gastando US$ 350 milhões de seu próprio bolso para comprar terrenos ociosos, semear novas empresas e subsidiar escolas. No próximo ano, ele vai transferir sua empresa de 1,4 mil funcionários de seus escritórios suburbanos para a antiga prefeitura local – um prédio antigo de 11 andares (com celas de prisão no segundo andar que poderão converter-se em salas de reuniões). “O que começou como um projeto de relocação de campus evoluiu para um projeto de revitalização para o centro de Vegas”, diz Hsieh.

O executivo e os dez funcionários da Zappos que o estão ajudando têm uma tarefa talhada para eles. O centro de Las Vegas tem resistido há décadas a tentativas de revitalização. A área foi incorporada no início do Século XX como uma parada de trens entre Salt Lake City e San Diego. Quase imediatamente o ponto focal da região migrou seis quilômetros para o Sudoeste, para a área que agora é a Strip, quando as operadoras de cassinos começaram a construir em terrenos não devidamente regulamentados, sem personalidade jurídica, para evitar pagar impostos à cidade.

A Zappos, do grupo Amazon, vai transferir escritórios e 1,4 mil funcionários para a antiga prefeitura

Embora bairros históricos como o Inner Harbor, de Baltimore, tenham sido reconstruídos com sucesso, não saíram do papel os planos para construir um estádio coberto por uma cúpula no centro de Las Vegas e também casas geminadas ao longo de sua densa trama de ruas. Uma pequena comunidade de artistas, restaurantes e bares foram para o centro, mas a área ainda está decadente. Lotes vazios, lojas de US$ 1, casas de penhores e prédios abandonados são pontuados por “displays” retrô, entre eles uma taça de Martini com 30 metros de altura em neon azul.

Agora é a vez de Hsieh. Como qualquer pessoa que ler seu livro de memórias “Delivering Happiness” (“Distribuindo Felicidade”, em tradução livre), um best-seller em 2010, sabe, o executivo-chefe da Zappos sempre está disposto a fazer grandes apostas pessoais. Contrariando o ceticismo dos investidores e a crise econômica na esteira do primeiro estouro da bolha pontocom, ele investiu sua fortuna, obtida com a venda de uma empresa de internet anterior, e construiu uma varejista de calçados bem-sucedida na internet. Em 2009, ele vendeu a Zappos para a Amazon por US$ 850 milhões. No ano passado, Hsieh começou a pensar em um local para transferir sua empresa. A instalação atual está apertada para abrigar os três edifícios de escritórios desprovidos de qualquer identidade especial que Hsieh está ocupando nas imediações de Henderson, Nevada. [O executivo transferiu a Zappos de San Francisco em 2004, em parte para aproveitar o mercado de trabalho relativamente barato de funcionários de call centers.] De início, ele considerou a construção de um campus empresarial, como as instalações da Apple, em Cupertino, na Califórnia, ou o Googleplex, em Mountain View, Califórnia.

Hsieh começou então a passar algum tempo no centro da cidade com os moradores e donos de empresas locais que haviam rejeitado a paixão de Las Vegas por McMansions e shopping centers glamourosos. Hsieh passou a pensar de forma diferente em relação à decisão geográfica sobre a Zappos. Segundo “Triumph of the City” (“O Triunfo da Cidade”, em tradução livre) – um livro publicado em 2011 pelo professor Edward Glaeser, de Harvard -, quando as cidades crescem, a produtividade aumenta por causa das conexões casuais entre as pessoas. Quando as empresas crescem, elas tendem a se tornar monótonas e burocráticas. “Nós nos decidimos por uma abordagem que fosse mais parecida com a da NYU [Universidade de Nova York], onde o campus se mescla com a cidade e você não sabe onde começa uma e acaba a outra”, diz Hsieh.

Para a Universidade de Nevada, projeto poderá ser uma âncora para criar uma nova identidade no município

O executivo conta essa história em seu apartamento no 23u00ba andar do Ogden, no passado um condomínio de 275 unidades pintadas com um rosa indutor de náusea. Ele foi inaugurado em meio à crise imobiliária e posteriormente pintado de branco, e as unidades foram alugadas como apartamentos. No ano passado, Hsieh abandonou sua mansão Vegas e mudou-se para um dos andares superiores do edifício no Centro, transformando parte dele num polo de comando de seus esforços de revitalização. Uma parede de “Post-its” amarelos especifica os tipos de empresas que sua equipe quer atrair para sua nova meca, entre elas uma creche para cães e uma churrascaria.

Zappos espera mudar-se no ano que vem para a remodelada prefeitura da cidade, onde haverá menos espaço por empregado do que na configuração atual. Isso é intencional no projeto. Hsieh prevê que em vez de se enfurnarem em suas salas de reunião, os funcionários transbordarão para fora, para as cafeterias e restaurantes, interagindo com seu ambiente. Além do montante não revelado que Zappos está pagando pelo aluguel de 15 anos por suas novas instalações, Hsieh está pessoalmente gastando US$ 100 milhões para comprar terrenos, US$ 100 milhões para desenvolver edifícios de apartamentos de alta densidade e US$ 50 milhões apoiando empresas de tecnologia novatas que se instalem na área. Ao longo dos próximos anos, outros US$ 100 milhões serão desembolsados em parcelas de aproximadamente US$ 200 mil, para escolas e empresas de pequeno porte que criem raízes no bairro.

As autoridades municipais estão entusiasmadas, embora Hsieh acrescente que não pede recursos financeiros governamentais porque não quer lidar com a burocracia.

Hsieh e seus planejadores urbanos novatos admitem prontamente que não têm experiência em fazer o que estão fazendo. Eles estão simplesmente superpondo o que eles realmente sabem fazer – como construir empresas de tecnologia – ao desenvolvimento urbano. A motivação de Hsieh não é altruísta: sua empresa, The Downtown Project, tem fins lucrativos e assumirá uma grande participação de capital em cada empresa que financiar, mas diz que os empresários não terão obrigação de devolver o dinheiro antes de começarem a obter lucros.

“Nós não estamos fazendo isso para ganhar dinheiro, diz ele. “Queremos que os proprietários-operadores se preocupem com essa comunidade.” Embora a iniciativa possa engolir um grande pedaço de sua fortuna, ele não está preocupado. “Não importa o que aconteça, meu estilo de vida não vai mudar”, diz Hsieh, convidando um entrevistador a olhar sua coleção bastante modesta de bens. “De certa forma, é possível argumentar que eu não estou realmente arriscando nada.”

Observadores veteranos de Vegas já viram muitos planos ambiciosos surgirem e desaparecerem, mas Hsieh parece tê-los conquistado. Robert E. Lang, um sociólogo urbano da Universidade de Nevada, em Las Vegas, diz que Zappos poderá ser uma âncora grande o suficiente para desencadear uma revitalização e que se a área conseguir criar uma identidade única, como um ponto de encontro atraente, poderá se converter num grande sucesso.

“Se você criar um espaço de sucesso em Las Vegas, você não apenas verá os 2 milhões de moradores da região. Você poderá contar com 40 milhões de visitantes que vêm a Las Vegas todo ano”, diz ele. Stephen Brown, diretor do Centro Empresarial & Pesquisa Econômica da Universidade de Las Vegas, diz que a abordagem de Hsieh é pouco convencional, mas observa que, em Las Vegas, iconoclastas são completamente normais. “Nevada é ainda um lugar onde audácia individual pode ser realmente bem sucedida.” (Tradução de Sergio Blum)

Fonte: Valor Econômico

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