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Kit de módulos eletrônicos coloridos leva invenção para sala de aula

Permitir que qualquer aluno se torne um inventor é a principal missão da littleBits, uma empresa com sede em Nova York, nos Estados Unidos, que desenvolve kits de módulos eletrônicos coloridos como sensores de luz e som, motores elétricos, rodas e componentes sem fio, que se juntam magneticamente – sem a necessidade de soldar – e possibilitam a criação de vários tipos de circuitos. Por meio das peças, crianças conseguem montar objetos sugeridos pela plataforma, como um carrinho com controle remoto e uma máquina de arremessar bolinhas de papel, ou inventar novos.

“As crianças sempre nos surpreendem e usam o littleBits de formas que não podemos prever. Algumas invenções são muito criativas, outras inovadoras e algumas apenas engraçadas, como um equipamento feito por alunos da terceira série para coçar a pele de quem está com o braço enfaixado”, contou Ayah Bdeir, em apresentação no SXSWEdu, em Austin, no início deste mês. No evento que discutiu tendências para a área da educação, a engenheira e empreendedora foi entrevistada ao vivo pelo jornalista Sean Cavanagh, da Education Week, em uma das atividades destaque da programação, chamada de The Role of Maker Ed in Schools (O papel da educação mão na massa, em livre tradução), o tema mais debatido nos quatro dias de evento.

“Nós queremos liberar o inventor que existe em todo mundo e permitir que todos possam usar tecnologia, mesmo que não sejam engenheiros ou programadores. Estamos empolgados em tornar a engenharia e a tecnologia algo divertido, criativo e aberto para as pessoas que não são da área”, afirmou a CEO da littleBits.

Bdeir não é educadora e fez questão de frisar isso em sua apresentação. Mas seu percurso educacional a levou ao trabalho que desenvolve hoje. Ela queria ser designer, mas acabou decidindo, por insistência dos pais e professores, cursar engenharia. A experiência da graduação foi chata, nas palavras dela, com aulas teóricas e distantes da realidade, sem colocar a mão na massa e programar. Apenas mais tarde, quando foi fazer mestrado no Media Lab, do MIT (Massachusetts Institute of Technology), teve contato com um ambiente de aprendizagem engajador, em que conhecia uma tecnologia diferente e precisava desenvolver um projeto novo a cada semana. “Essas são algumas das nossas inspirações e estamos tentando levar tal experiência para fora das escolas de elite do mundo, de modo que não seja necessário passar por uma faculdade de engenharia e um processo de admissão do MIT para aprender ciências de forma engajadora. Todos deveriam experimentar isso, em todas as escolas em todos as etapas de ensino. É nisso que estamos focados”, disse.

Durante a apresentação no SXSWEdu, a empreendedora anunciou o lançamento do kit STEAM Student Set, o primeiro focado no mercado educacional. Embora os módulos da littleBits já sejam usados por mais de 12.000 educadores em 2.200 salas de aula no mundo, até então eram construídos para serem vendidos para o consumidor final, sejam eles pais, crianças, designers ou qualquer interessado em montar produtos a partir de módulos eletrônicos. Segundo a empreendedora, o conjunto proporciona o que batizou de “aprendizado baseado na invenção”.

Direcionado a alunos do ensino fundamental, o kit traz componentes eletrônicos e materiais que permitem aos alunos desenvolver projetos e resolver desafios reais, ao mesmo tempo em que aprendem conceitos científicos e matemáticos. O produto também inclui um curso online para ajudar educadores a integrar o ensino de STEAM (sigla em inglês para ciência, tecnologia, engenharia, artes e matemática) nas atividades com a ferramenta e um guia de 72 páginas para a invenção, que propões desafios aos alunos, como o “Hack Your Habits” (Transforme seus hábitos, em livre tradução), que encoraja estudantes a observar seus hábitos e inventar algo que melhore suas vidas.

“Nosso trabalho é fazer uma ponte entre a prática e o aprendizado. Acredito que o movimento maker tem as ferramentas necessárias para isso. Não somos educadores, não podemos mudar padrões, nem escrever currículo, por isso decidimos construir um caminho entre o currículo e a prática”, explica a empreendedora, que acredita que o seu produto ajuda educadores a responder à demanda crescente pelo ensino de ciências nas escolas. “Professores são muito ocupados e têm a profissão mais difícil no mundo. Não dar a eles novas ferramentas adiciona muita pressão e os intimida”, disse para a plateia composta majotariamente por educadores preocupados em tornar as aulas científicas mais engajadoras.

O custo do kit (US$ 299,95, aproximadamente R$ 1.000), no entanto, ainda é um entrave para o que Bdeir defende, a popularização da educação mão na massa. Enquanto vídeos mostravam invenções criadas por crianças que tiveram acesso aos blocos eletrônicos do littleBits, como um teclado criado para um colega com dificuldade de movimentar as mãos ou um secador para nebulizadores de um hospital infantil, muitos dos presentes revelaram essa preocupação em postagens em redes sociais. Bdeir está ciente dessa dificuldade e explicou à plateia que os produtos parecem simples, mas têm muitas peças caras e um processo de fabricação complexo. “Com um volume maior de produtos sendo manufaturados, podemos reduzir os custos. Vamos continuar a insistir nisso”, explicou.

Neutralidade de gênero

Embora não seja o principal objetivo da littleBits, incentivar que mais meninas se engajem em STEM (ciência, tecnologia, engenharia, artes e matemática) ou STEAM é uma das missões ocultas da littleBits. “Eu digo oculta porque não costumamos divulgar isso, não dizemos que foi construído para isso, mas o objetivo está incorporado à maneira como nós desenhamos, construímos e vendemos o produto”, afirmou Bdeir.

Para exemplificar, ela comparou uma placa eletrônica tradicional, verde e sem preocupação com o design, com as peças da littleBits, que são brancas com elementos em cores neutras do ponto de vista de gênero e fosforescentes (foto acima). Segundo ela, desta maneira, a própria peça quebra o estereótipo associado a eletrônicos, que por sua vez são associados a meninos. Os módulos também têm inscrições em letra cursiva, que passam uma mensagem mais humana e orgânica e não parecem ter sido feitas por máquinas. “Por que não? Não podemos fazer o que sempre fizemos. Temos que fazer coisas diferentes para engajar meninas, porque o que tem sido feito não funcionou. Isso é o que estamos tentando”, provocou.

Fonte: Porvir

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