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Jovens japoneses rompem tradição e criam startups

Takuma Iwasa não teve o menor receio ao abandonar seu emprego na Panasonic para fundar sua própria companhia de produtos eletrônicos, muito embora os grandes grupos japoneses do setor estivessem começando a ter problemas. “Eu não estava preocupado”, diz o executivo de 34 anos, que largou tudo em 2007 para fundar a Cerevo, considerada hoje sinônimo de uma revolução nos produtos eletrônicos em Tóquio. “Sou o tipo de pessoa que precisa fazer algo prazeroso e desafiador”, diz. Com seus óculos estilosos, cercado em um canto de sua sala por um emaranhado de cabos, ele é o retrato de um empreendedor.

Iwasa representa um grupo pequeno, mas crescente, de jovens empreendedores japoneses que trocaram o salário mensal e a segurança social proporcionada por um empregador, pela excitação e satisfação de fazer o que realmente querem. Individualidade e autoconfiança são raras na sociedade japonesa, que tradicionalmente sempre valorizou o trabalho em equipe e a submissão.

Em seu terno escuro e bem cortado, Naoki Endo, 38, poderia ser confundido com alguém da indústria da moda. Ele diz que não sabia o que queria fazer quando deixou o cargo de consultor em 2000 na empresa que então era a Andersen Consulting. “Procurava algo que me entusiasmasse”, diz. Isso acabou sendo a beBit, uma companhia que elabora sites da internet com base em análises comportamentais.

Keita Yagi, que saiu da Fujifilm para fundar a BSize, em Odawara, entre Tóquio e o Monte Fuji, tem como missão criar produtos eletrônicos sofisticados e funcionais. Quando fazia o ensino médio, Yagi foi inspirado pelo que Steve Jobs fazia na Apple. Hoje, aos 29 anos, decidiu criar sua própria companhia porque “queria fazer coisas que fossem maravilhosas e que mudassem o mundo”. Ele criou seus primeiros produtos em um quarto dos fundos de sua casa.

Para a nova geração de empreendedores japoneses, a satisfação pessoal é mais importante que a estabilidade que um emprego formal pode oferecer. “Trabalhar para uma empresa pode proporcionar segurança no curto prazo, mas se ela quebra, você não terá nada em que se apoiar. Portanto, é melhor desenvolver habilidades que tornarão você útil para qualquer companhia e a qualquer hora”, diz Endo.

Iwasa não planejava abrir seu próprio negócio quando entrou na Panasonic. Mas quando, inspirado pelo surgimento do YouTube, sugeriu que sua empresa desenvolvesse um sistema de televisão ligado à internet, seu chefe lhe disse que era cedo demais. Isso o fez perceber que, embora a Panasonic fosse habilidosa na melhoria de tecnologias já existentes, ela não era boa no desenvolvimento de novos produtos e ideias – que era o que ele queria fazer.

Na Cerevo, onde comanda uma equipe de dez pessoas, desenvolveu dispositivos para a internet como o Live Shell, que permite aos usuários transmitir vídeos ao vivo de suas filmadoras diretamente para a internet, sem o uso de um PC. Iwasa levantou até agora mais de US$ 4 milhões com dois aportes de capital de risco. Fundos japoneses como o Inova, Kronos Fund, Inspire e Neostella Capital são seus principais investidores.

Os cortes de custos contínuos e reestruturações nas grandes corporações também vêm levando os jovens japoneses a querer criar seus próprios negócios. Além disso, as pessoas têm um desejo maior de contribuir para o bem-estar da sociedade, afirma Mariko Tamura, secretário-geral da Japan Academic Society for Ventures and Entrepreneurs, uma associação de pesquisadores que apoia o avanço de empresas que usam capital de risco.

A tendência ganhou força após o tsunami, que despertou as pessoas para a importância das relações e da solidariedade. “Estou convicto de que colocar os lucros em primeiro lugar é uma coisa que destrói o mundo”, afirma Endo. Para ele, os maiores empresários do mundo, de Henry Ford a Konosuke Matsushita, fundador da Panasonic, seguiram esse ponto de vista. “As pessoas que iniciam uma companhia apenas por diversão podem desistir facilmente. Aqueles que têm como objetivo criar uma sociedade melhor, no entanto, não farão isso.”

Até recentemente, o Japão não era um lugar fácil para as startups, em razão da aversão ao risco do sistema financeiro e de uma cultura que não admitia o fracasso. No entanto, o governo está apoiando essa iniciativa, fornecendo empréstimo a juros baixos e garantias.

Iwasa observa que o livre acesso à informação e serviços na internet, como as ligações telefônicas gratuitas no Skype e o marketing gratuito no Facebook, tornaram mais fácil começar uma empresa. “O Facebook, por exemplo, é eficiente como instrumento de marketing”, afirma Yagi, que só vende seus produtos pela internet. “Antes, era muito difícil construir uma marca. Agora, com a ajuda das mídias sociais, podemos competir até mesmo com as grandes marcas.”

Fonte: Valor Econômico

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