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José Goldemberg não crê em sucesso da Rio+20

Secretário do Meio Ambiente (com status de ministro) durante a Eco-92, o físico José Goldemberg já não acredita que a Rio+20 possa ter resultado comparável à conferência de vinte anos atrás. A falta de convergência dos países quanto ao documento que está sendo negociado e o anúncio da possível criação de um fundo de US$ 30 bilhões pelo G-77 para financiar o desenvolvimento sustentável nos países mais pobres são alguns dos motivos que o levam ao descrédito – embora a maior participação da sociedade civil, na comparação com 1992, o anime.

“Estamos na décima hora. Eu consideraria um sucesso se chegássemos a um enunciado de algumas direções da economia verde, metas e um calendário para cumpri-las. Isso é o sucesso de uma conferência internacional. Esperar o mesmo dessa vez seria uma utopia”, disse Goldemberg, que participou na quinta-feira do penúltimo dia do Fórum de Ciência, Tecnologia e Inovação da PUC-Rio.

“O documento é muito difícil de ler, são tantos colchetes (pendências, no jargão diplomático) que há os colchetes dos colchetes. Ao que tudo indica, não vão conseguir enxugar o documento. Até o secretário-geral da ONU está exasperado. Imagino que o que vá acontecer, ao fim, será um apelo, uma exortação aos países.”

A possibilidade de o G-77 criar um fundo para viabilizar ações sustentáveis ele encara como uma “distração” do que realmente interessa no momento. Lembra que, em 2009, na conferência de Copenhague, os Estados Unidos já haviam anunciado apoio a um fundo verde de US$ 100 bilhões, que entraria em operação em 2013 para ajudar os países mais vulneráveis às mudanças climáticas – ou seja, mais do que o triplo do valor focado num único aspecto ambiental.

“Essas propostas não se concretizam, porque os países têm que colocar dinheiro e as contribuições são voluntárias, então eles não colocam. Além disso, US$ 30 bilhões são completamente insuficientes para todos os objetivos do desenvolvimento sustentável.”

Goldemberg também se diz desapontado com o alinhamento brasileiro ao G-77, por acreditar que o País teria “muito a mostrar individualmente”. Mas vê com bons olhos a participação da sociedade civil – muito maior, em sua análise, do que a registrada na Eco 92. À época, houve grande envolvimento de ONGs; agora, ele observa, o empresariado, a indústria, as megacorporações estão à frente.

“Isso me dá otimismo, porque são eles que vão ter que agir. As pessoas estão decepcionadas porque a direção não virá de cima. Isso é muito claro, na comparação com a Eco-92: lá era uma cúpula, o Brasil numa posição de liderança forte, desenhando providências. Agora, a impressão que dá é que as propostas estão subindo de baixo para cima.”

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo

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