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Internet amplia acesso a pesquisas científicas e desafia conservadores

Há séculos, a pesquisa científica é feita em particular, e então apresentada a publicações para ser revisada por outros cientistas e, mais tarde, é publicada.

Mas, para muitos cientistas, o sistema parece antiquado, caro e elitista. A revisão por pares pode demorar meses, as assinaturas de publicações costumam ter custo exorbitante, e um punhado de guardiões limita o fluxo das informações ao grande público.

É um sistema ideal para partilhar informações, disse o físico quântico Michael Nielsen, desde que “você se atenha às tecnologias do século 17”.

Nielsen e outros defensores da “ciência aberta” afirmam que a ciência pode realizar muito mais, com mais rapidez, no ambiente livre de atritos da colaboração via internet. E, apesar do ceticismo de muitos pesquisadores, suas idéias estão se espalhando.

Nos últimos anos, surgiram arquivos e publicações com livre acesso, como o arXiv e a Biblioteca Pública de Ciências (PLoS, na sigla em inglês). O GalaxyZoo, um site de ciência-cidadã, já classificou milhões de objetos espaciais, descobrindo características que levaram a uma série de trabalhos científicos. E uma rede social chamada ResearchGate –onde os cientistas responder a perguntas de colegas, partilhar trabalhos e encontrar colaboradores –está rapidamente se popularizando.

Timothy Fadek/The New York Times
Ijad Madisch (em pé), criador do ResearchGate, uma rede social para cientistas
Ijad Madisch (em pé), criador do ResearchGate, uma rede social para cientistas

Editores de publicações tradicionais dizem que a ciência aberta, na teoria, parece boa. Mas, na prática, “a comunidade científica em si é bastante conservadora”, disse Maxine Clarke, editora-executiva da revista “Nature”, acrescentando que a publicação de trabalhos na forma tradicional ainda é vista como “uma unidade na concessão de verbas ou na avaliação de empregos e cargos”.

Nielsen, 38, que largou uma bem-sucedida carreira científica para escrever “Reinventing Discovery: The New Era of Networked Science” (“Reinventando a Descoberta: a Nova Era da Ciência em Rede”), admitiu que os cientistas estão “muito inibidos e lentos para adotar muitas ferramentas on-line”, mas acrescentou que a ciência aberta está se aglutinando para virar “meio que um movimento”.

O ResearchGate, com sede em Berlim, foi ideia de Ijad Madisch, 31, virologista e cientista da computação formado em Harvard. “Quero tornar a ciência mais aberta”, disse ele. Criada em 2008 com poucos recursos, a rede hoje reúne 1,3 milhão de membros, segundo Madisch, e já atraiu milhões de dólares em investimentos.

O site é uma mistura de Facebook, Twitter e LinkedIn, com páginas de perfil, comentários, grupos, listas de vagas profissionais e botões de “curtir” e de “seguir”, embora só cientistas possam fazer e responder perguntas.

Ele também tem um atalho para o restritivo acesso às publicações. Como a maioria das revistas autoriza os cientistas a colocarem em seus sites links para trabalhos apresentados por eles próprios, Madisch estimula seus usuários a fazerem isso nos seus perfis do ResearchGate.

Greg Phelan, chefe do Departamento de Química da Universidade Estadual de Nova York, em Cortland, usou o site para encontrar novos colaboradores, receber orientação de especialistas e ler artigos acadêmicos que não estavam disponíveis por intermédio da sua pequena universidade.

Alterar o “status quo” –abrindo dados, trabalhos, sugestões de pesquisa e soluções parciais– ainda é algo mais para ideia do que para realidade.

Como argumentam as publicações estabelecidas, elas oferecem um serviço crucial, que não sai barato. “Temos de cobrir os custos”, disse Alan Leshner, editor da “Science”, uma revista sem fins lucrativos.

Esses custos rondam os US$ 40 milhões por ano, para bancar 25 editores e redatores, o pessoal de produção e de vendas, e escritórios na América do Norte, na Europa e na Ásia, sem falar dos gastos com impressão e distribuição.

Periódicos abertos e com revisão por pares, como a “Nature Communications” e a “PLoS One”, cobram taxas dos autores publicados –US$ 5.000 e US$ 1.350, respectivamente– para arcar com suas despesas, mais modestas.

Madisch admitiu que talvez jamais atinja muitos cientistas renomados para os quais as redes sociais podem parecer uma perda de tempo. Mas espere, disse ele, até os cientistas mais jovens, acostumados às redes sociais, começarem a comandar laboratórios.

“Se anos atrás você dissesse: ‘Um dia você vai estar no Facebook compartilhando todas as suas fotos e informações pessoais com os outros’, não iriam acreditar em você”, disse ele. “Estamos só no começo. A mudança está vindo rapidamente.”

Leshner concorda que as coisas estão se mexendo. “Será que o modelo das revistas científicas será o mesmo daqui a dez anos? Duvido muito, acredito na evolução.”

Fonte: Folha de São Paulo

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