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Índia beneficia ricos em cotas escolares para castas

Um programa de ação afirmativa impediu uma estudante do Estado de Tâmil Nadu (sul da Índia) de obter uma cobiçada vaga numa universidade de elite.

“Quando soube que eu não poderia entrar numa faculdade de medicina, fiquei chocada”, disse C.V. Gayathri, 17. “Não falei com ninguém por uma semana. Chorei. Fiquei muito deprimida.” Mas a Suprema Corte indiana interveio e, em setembro, ordenou que ela fosse admitida na faculdade de medicina, enquanto a Justiça faz uma avaliação mais ampla do programa.

A ação afirmativa na Índia é um vasto sistema de clientelismo político que trabalha para recompensar os poderosos, em vez de auxiliar os necessitados. Esse programa, que é baseado em castas, gera questionamentos também para outras nações que adotam programas antidiscriminação, como Brasil e Malásia. Sem uma diligente supervisão judicial, dizem especialistas, as iniciativas podem contribuir para a perpetuação da desigualdade, em vez de eliminá-la.

Em Tâmil Nadu, por exemplo, 69% das vagas universitárias estão atualmente reservadas para “castas atrasadas”.

Cinco importantes autoridades universitárias do Estado disseram em entrevistas que os cotistas nas suas instituições são geralmente filhos de médicos, advogados e burocratas graduados. O resultado é que alunos ricos rotineiramente são privilegiados em detrimento de alunos pobres e mais qualificados, mas que, por acaso, não pertencem às castas favorecidas. Gayathri, por exemplo, é uma brâmane filha de funcionários públicos com salários modestos.

“A casta não é mais uma restrição econômica”, afirmou Viktoria Hnatkovska, professora-assistente de economia na Universidade da Colúmbia Britânica (no Canadá) e coautora de vários estudos sobre a mudança do papel das castas na Índia. As cotas transformaram a pecha de “atraso” em uma cobiçada designação.

Os gujjares do Rajastão, por exemplo, organizaram violentos protestos há dois anos contra a recusa do governo em declará-los “atrasadíssimos”. Políticos ganham eleições na Índia prometendo o que antes era uma maldição, e isso leva a um forte aumento no número de castas consideradas atrasadas, décadas depois de essa designação perder seu verdadeiro significado econômico.

A consciência de casta entre os jovens é mantida, em parte, graças às cotas, por isso um programa destinado a eliminar o sistema de castas é hoje visto por muitos como responsável por mantê-lo. “Quando eu estava preenchendo meus formulários de matrícula universitária, havia um espaço para a casta”, disse Sneha Sekhsaria, 25, de Calcutá. “Precisei perguntar ao meu pai qual era a nossa casta. Ele precisou pensar uns 15 minutos antes de dizer que estávamos na categoria geral.”

Sekhsaria acha que estar na “categoria geral” – sem nenhum privilégio – a impediu de cursar medicina. Ela foi para odontologia. “Ser médica sempre foi o meu sonho, mas, em vez disso, tirei diploma de dentista.” Ela continua magoada pelo fato de alguns amigos terem conseguido virar médicos apesar de terem tido nota inferior à dela no vestibular. Segundo ela, em seu círculo de relacionamentos, ninguém considerava esses colegas como “atrasados”.

D. Sundaram, professor aposentado de sociologia na Universidade de Madras e ex-integrante da extinta Comissão de Classes Atrasadas de Tâmil Nadu, defende as cotas, dizendo que nem mesmo três gerações de riqueza e poder bastam para reverter séculos de atraso. “O sistema não está em vigor há tempo suficiente”, disse Sundaram.

É claro que os dalits e as pessoas de origens tribais ainda são majoritariamente pobres, e até mesmo muitos críticos do sistema indiano de cotas baseado em castas admite que as reservas de vagas para esses grupos continuam sendo válidas.

Ravi Kumar, secretário-geral de um partido político dalit em Tâmil Nadu, concorda que muitos dos beneficiados pelas cotas no Estado são ricos e poderosos. Mas seu partido apoia as cotas para os ricos “porque, se nos opusermos a elas, eles impediriam todas as reservas de vagas”.

Pratap Bhanu Mehta, presidente do Centro de Pesquisa Política, em Nova Déli, disse que as cotas para castas irão gradualmente perder importância, já que as próprias cotas tornam as universidades públicas menos atraentes para os alunos mais talentosos. “As pessoas talentosas vão simplesmente emigrar”, afirmou.

Mas isso não serve de consolo para Sekhsaria, cuja família gastou dezenas de milhares de dólares para que ela cursasse uma faculdade particular de odontologia. “De milhares de razões para odiar o governo, a reserva de vagas é definitivamente uma delas”, afirmou.

Fonte: Folha de São Paulo

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