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Fusão do Ministério da Ciência não é necessariamente ruim, diz executivo da Microsoft

Na contramão de seus colegas que atuam no Brasil, o cientista-chefe da Microsoft, Rico Malvar, 58, acha que a fusão do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação com o Ministério das Comunicações não é necessariamente uma má notícia para sua área.

A opinião do engenheiro brasileiro diverge daquela expressa pela comunidade científica, que se articulou para exigir que a fusão seja revertida. Formado pela Universidade de Brasília e UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), detentor de 119 patentes -todas nos EUA- ele vê outros problemas na forma como a tecnologia é produzida no Brasil.

Malvar veio ao Rio para participar de um congresso da empresa. Em entrevista à Folha, o cientista falou sobre o mercado de tecnologia no Brasil e novidades da Microsoft.

Como cientista-chefe, seu trabalho é coordenar projetos entre laboratórios da empresa espalhados pelo mundo. Veja os principais trechos da entrevista:

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Folha – O que acha da fusão do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação com o Ministério das Comunicações?
Para ser sincero, não sei se tenho contexto suficiente para dar uma opinião bem formada, mas, em tese, não é, necessariamente, algo ruim. Antigamente a gente pensava em comunicação e informática como coisas separadas.

Hoje, tecnologia de comunicação e de informática andam juntas. Será que, se estiverem mais juntas, o ministério poderá olhar para as possibilidades de maneira mais integral? Acho positivo. Se for uma mudança bem gerenciada, pode ser boa. Existem riscos, como redução de orçamento. Mas não quer dizer que vá ser assim. A estrutura administrativa mais eficiente é quase secundário. O importante é não parar de investir.

Recentemente a neurocientista Suzana Herculano-Houzel foi para os EUA por achar que não dá mais para fazer ciência no Brasil. O senhor se identifica com as críticas que ela faz?
Sim e não. Há dificuldades. Posso me usar como exemplo. Eu tive uma empresa no Brasil com colegas. Criamos, por exemplo, um telefone que não era grampeável. Via pouco interesse do governo nisso. Quem mais nos alavancou foi um outro empresário que investiu na gente.

O governo pode não ter muitos recursos, mas pode estimular programas que incentivem investidores com redução de imposto ou algo do tipo, permitir que a própria sociedade invista em ciência e tecnologia. Sei que a situação está difícil, mas mesmo nessas horas é preciso investir em ciência e tecnologia porque essas são as áreas que trazem retorno no futuro.

O sistema de patentes tem que melhorar. A Microsoft inteira não tem 120 patentes no Brasil. Só eu tenho 119 fora daqui. É preciso investir nos examinadores de patente para que tenhamos mais delas. Ela é essencial para proteger quem trabalha com inovação.

O sr. veio ao Rio para um evento de inteligência artificial. Quais são as novidades da Microsoft nessa área?
A inteligência artificial vem crescendo rapidamente e vai entrar em tudo que você faz. Até o teclado do seu telefone já sabe prever o que você quer digitar. Tudo hoje é adaptativo, tudo aprende. Temos, por exemplo, o “Project Premonition” (projeto premonição), sistema que quer prever a disseminação de doenças infecciosas antes que ela aconteça. O objetivo é prevenir desastres de saúde pública.

A zika, por exemplo, através do Aedes Aegypti, é um exemplo possível. Como sei se animais estão infectados? Daria muito trabalho, teria que fazer teste em todos. Mas a natureza criou esse sensor, o mosquito. Um drone então capturaria o mosquito e levaria para o laboratório para fazer uma análise genética e ver se foi infectado. Assim, você conseguiria fazer um mapa da propagação da doença. É um exemplo da informática ajudando outras ciências.

Algumas inovações dão muito errado. O Tay [sistema de comunicação automática lançado pela Microsoft] acabou publicando no Twitter mensagens racistas e sexista.
O Tay deu errado. Ele acabou aprendendo a se comunicar de forma ofensiva e ofendeu usuários. Montamos um sistema de inteligência artificial que aprende a conversar do jeito que as pessoas conversam -com gírias, maneirismos. Na China, testamos e deu tudo certo. Os usuários ficavam horas conversando com o sistema. Mas nos EUA, um pessoal mal intencionado começou a forçar as conversas a irem para um lado ofensivo. Quando a gente percebeu, desligamos.

RAIO-X: HENRIQUE MALVAR, 58
Cargo: Cientista-chefe da Microsoft
Formação: gradução em engenharia elétrica pela UnB; mestrado em engenharia elétrica pela UFRJ; PhD em engenharia elétrica e ciência da computação pelo MIT

Fonte: Jornal Folha de São Paulo

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