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Falta de visão para desenvolvimento da ciência e da saúde é compartilhada entre Temer e Trump

Em momentos de crise, o impacto de uma decisão errada pode ser cruel e duradouro. E esse destino cinzento parece estar sendo selado pelas administrações Trump e Temer, ao decidirem cortar investimentos em ciência e saúde.

O presidente brasileiro e a equipe econômica resolveram contingenciar –“congelar”– R$ 2,2 bilhões do orçamento do orçamento do MCTIC (Ministério da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações). O restante, R$ 3,3 bilhões, se continuar nesse patamar, pode resultar no menor orçamento desde 2005.

Após o início da gestão Temer, que fundiu o Ministério das Comunicações ao antigo MCTI, havia o discurso de que a nova sigla cheia de letras não significava um desprestígio à ciência –foi o que o ministro Gilberto Kassab repetiu nas diversas reuniões que fez com acadêmicos de todo o país.

Mas está difícil acreditar nisso, especialmente em tempos de pós-verdade.

Em resposta ao contato do blog, a equipe de assessores de Kassab disse que o ministro ainda está avaliando o impacto da possível perda de mais de 40% dos recursos inicialmente alocados. Não há como garantir quais projetos ou programas serão afetados –talvez quase todos.

Caso isso não se reverta, no longo prazo o que se perde é inestimável –novas curas, tratamentos e descobertas e, principalmente, a chance de nos aproximarmos do status de nação desenvolvida.

Mas, talvez por uma coincidência macabra, as coisas também não andam muito bem em uma das nações mais desenvolvidas, os EUA.

EUA E TRUMP

Trump também parece acreditar que ciência é gasto. Ele deseja reduzir em US$ 1,2 bilhão o orçamento de 2017 dos Institutos Nacionais de Saúde (NIH) dos EUA. Em 2018, o corte chegaria a R$ 5,8 bilhões.

A notícia é encarada como uma espécie de prenúncio de idade das trevas por pesquisadores da área biomédica no país.

Em entrevista ao Cadê a Cura?, Karina Possa Abrahão, pesquisadora dos NIH e autora do blog TimTim online, explica como o corte afetará a pesquisa: “Todos os setores serão prejudicados, mas com certeza o maior impacto será nas verbas dadas aos projetos de fora do NIH. O número de projetos de universidades já é baixo, em torno de 10%.”

“Como os pesquisadores estabelecidos ganham uma grande parte dessa verba, é provável que os cortes afetem mais fortemente os jovens cientistas. E isso pode afetar uma geração inteira nos EUA. É provável também que a ciência básica sofra mais que a ciência clínica”, especula.

E não é difícil pensar que o impacto pode se estender a todo o globo. “Os cientistas brasileiros podem fazer um exercício e contar o número de trabalhos em que baseiam suas pesquisas e que são desenvolvidos em instituições americanas.”

“Caso ocorra uma diminuição drástica no investimento na ciência básica, pode ocorrer uma desaceleração do desenvolvimento científico no mundo inteiro. Além disso, haverá impacto na ciência clínica [na busca de curas e de novos tratamentos], o que é preocupante para a população”, conclui.

Os beneficiários do ajuste orçamentário de Trump serão principalmente as áreas de segurança e de defesa. Outros prejudicados, além da área da saúde, são os setores ambiental, agrário e de educação.

Cientistas de todo o país prometem ocupar as ruas no dia 22 de abril, na Marcha pela Ciência (March for Science) contra a que parece ser a administração mais malquista pela academia em várias décadas.

A frustração lá e aqui no Brasil são parecidas. Mas resta uma dúvida: será que o cientista brasileiro também sabe marchar?

Fonte: Folha de São Paulo

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