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Especialistas defendem modelo de ciência mais interativo

Pesquisadores nacionais e internacionais defendem o estreitamento entre ciência e sociedade em modelo mais interativo para a popularização do conhecimento produzido pela academia.

A pesquisadora Sonia Maria Ramos de Vasconcelos, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), sugeriu que agências de fomento criem editais específicos para projetos de pesquisas que possam diagnosticar as áreas de conhecimento mais distantes da sociedade. A ideia é que a sociedade entenda melhor os benefícios da ciência e como os cientistas trabalham nas diversas áreas do conhecimento. “Hoje, da forma como hoje a ciência interage com a sociedade ela nem sempre é vista (reconhecida) pelos próprios países”, disse em palestra sobre “Ética e integridade na Ciência”, realizada na sede da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), na última quinta-feira (30), onde ocorreu o primeiro encontro preparatório para a sexta edição do Fórum Mundial de Ciência, que será realizado no Rio de Janeiro, em novembro de 2013.

Segundo observou a pesquisadora, o sucesso da pesquisa científica, além de fontes de financiamento e de bons pesquisadores, depende do engajamento da sociedade, uma vez que a ciência é financiada com recursos públicos.

“É preciso financiar projetos que tentem identificar como melhorar o diálogo entre ciência e sociedade. É preciso estimular o desenvolvimento de projetos educacionais para pesquisadores de todas as áreas. Hoje não temos um estudo que aponte com clareza as necessidades de cada área, as necessidades de interação entre a ciência e sociedade”, disse.

Integridade da Ciência

Ao explicar o que é integridade ética, Sonia, também membro do Comitê de Ética de Pesquisas (CEP) em humanos da UFRJ, disse que essa questão está relacionada à governança da ciência envolvendo, dentre outros aspectos, a confiabilidade dos dados das pesquisas, a correção da literatura científica, propriedade intelectual, plágio, além da má-conduta científica.

“Integridade científica não está ligada apenas à má conduta científica e ao desenvolvimento de códigos de boas práticas de pesquisas, mesmo que esses sejam fundamentais. Ela vai além disso”, declarou. “É preciso que a política científica não se limite apenas a identificar casos de má conduta e punir pesquisadores que cometem esse tipo de ação”.

Relação entre ciência e imprensa

Em sua palestra, Sonia defendeu também o estreitamento das relações entre cientistas e jornalismo científico a fim de evitar que dados científicos sejam mal entendidos e deturpados pela imprensa. “Os dados científicos devem ser divulgados corretamente e precisam ser levados à sociedade de forma confiável. Muitas vezes o jornalista interpreta os dados de forma incorreta”, alertou.

Análise internacional

Em outra frente, Jessica Bland, conselheira de política científica da Royal Society – uma das maiores academias de ciência do mundo – defendeu um modelo de ciência mais interativo para aproveitar a velocidade da divulgação da informação e a quantidade de dados disponíveis na internet. Ou seja, de uma ciência mais aberta para que o público possa acessar as informações científicas disponíveis.

“Temos de abrir os dados para que outras pessoas possam usá-los para efeitos de saúde pública ou para aplicação da indústria. Essa abertura tem de ser inteligível (acessibilidade)”, disse a especialista que proferiu palestra sobre “A ciência como uma iniciativa aberta”, no mesmo dia, na Fapesp.

Buscando destacar a importância da interação da ciência, Jessica citou como exemplo o caso de um surto de infecção gastrointestinal em Novo Hamburgo, em maio do ano passado, o qual foi espalhado rapidamente pela Europa e prejudicou 400 mil pessoas.

Em meio a uma onda de dúvidas sobre o motivo dessa infecção, houve uma corrida, disse Jéssica, para buscar a cooperação de cientistas de vários países. Nesse caso, os dados foram abertos para que cientistas de qualquer parte do mundo pudessem acessá-los e contribuir. “Em poucos dias foram publicados 200 relatórios sobre o que deveria ser feito para impedir a epidemia e os efeitos dessa infecção no mundo”.

“Isso levou a uma solução em saúde pública em alguns meses usando a expertise de outros países e tornando os dados transparentes para que todo público pudesse se envolver”, informou, e acrescentou: “Esse é um tipo de conquista que podemos alcançar com uma ciência mais interativa”.

OGMs

Jéssica também lembrou de um protesto no Reino Unido contra a falta de debate sobre o uso dos chamados organismos geneticamente modificados (OGMs). “Nesse mundo de demandas públicas (estimuladas pela velocidade da internet), a ciência precisa ser mais aberta. Estamos sendo desafiados pelos cidadãos e legisladores”, declarou.

Fonte: Viviane Monteiro – Jornal da Ciência

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