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Encontro discutiu desafios e perspectivas da gestão de recursos hídricos nas cidades

Realizada nesta terça-feira (29/10), logo após a abertura oficial do 2º encontro Preparatório para o Fórum Mundial de Ciência 2013, a rodada inaugural de discussões do evento buscou a problematização das alternativas de gerenciamento da água nos grandes centros urbanos. Sob coordenação de Virgínia Sampaio Teixeira Ciminelli, e com relatoria de Francisco Antônio Rodrigues Barbosa – ambos professores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) –, a mesa CT&I para gestão e preservação de recursos hídricos reuniu os pesquisadores Nilo de Oliveira Nascimento (UFMG); José Galizia Tundisi, presidente do Instituto Nacional de Ecologia (SP); e Carlos Eduardo de Mattos Bicudo, do Instituto Botânico de Pesquisa.

Em sua exposição – intitulada “Recursos hídricos em ambientes urbanos” –, o professor Nilo de Oliveira realizou rápida retrospectiva do uso da água nas metrópoles, de modo a revelar não apenas a relação do homem com os rios que atravessam as cidades, mas também (e principalmente) a múltipla funcionalidade do “líquido vital”, usado das vias de abastecimento aos sistemas de esgoto. “Importante ressaltar, contudo, que se trata de recurso mineral limitado”, enfatizou.

Na visão de Oliveira, é importante que as cidades invistam em infraestrutura adaptativa, capaz de dar conta, ao mesmo tempo, da preservação da água como recurso natural e de sua gestão nos serviços urbanos e nos planejamentos urbanísticos. “É vital, ainda, relacioná-la às especificidades dos índices de população e renda”, explica. No que diz respeito aos “serviços”, há de se considerar questões como cobertura, qualidade, custo, processos de regulação, financiamento para expansão do abastecimento, gestão, governança e transparência.

O pesquisador revelou que, até 1980, estabeleceram-se, nas cidades brasileiras, soluções convencionais de drenagem. Trata-se de propostas de ação que, na atualidade, resultaram numa série de problemas, a exemplo das freqüentes inundações nos municípios do País. Na acepção de Oliveira, neste século que se inicia, não há mais como negligenciar a necessidade de atitudes sustentáveis quanto ao uso dos mananciais. Daí a importância de se priorizar, nas comunidades, a redução do consumo de água e dos volumes de esgoto, além do aproveitamento, para diversos fins, das torrentes pluviais. “Será preciso não apenas readaptar espaços à lógica da sustentabilidade, mas também buscar a aceitação da população aos novos tempos”, completou.

Ao abordar o tema “Desenvolvimento econômico e impactos em ambientes aquáticos”, José Galizia Tundisi destacou, já de início, “o que todos sabemos: o crescimento populacional é um problema”. Afinal, para que sete bilhões de pessoas tenham boas condições de vida, os custos com infraestrutura hão de ser bastante elevados. “O mais significativo, porém, é o grau de urbanização. Esforços adicionais sobre a demanda de água nas cidades geram grande volume de resíduos, que têm, por sua vez, enorme impacto econômico”, analisou. Neste cenário, paralelamente ao aumento populacional, há que se ressaltar a crescente escassez de água e a pobreza infraestrutural de grande parte das cidades do mundo – onde quase dois bilhões de indivíduos não têm acesso a suprimento regular de água. “O principal desafio diz respeito à população periférica das metrópoles”, afirmou, ao lembrar, também, que há direta relação entre o valor do Produto Interno Bruto (PIB) de uma nação e os índices de acesso das pessoas às fontes de água potável: “Afinal, à medida que a população de diversifica, alteram-se os modos de consumo”.

Segundo Galizia, o desmatamento, o uso irregular do solo e o desenvolvimento não ordenado das indústrias são alguns dos principais impactos negativos sobre a qualidade dos recursos hídricos de uma cidade. “Como exemplo, lembremo-nos que é muito maior o custo do tratamento da água em regiões com desmatamento”, completou, para, logo em seguida, lançar o desafio aos participantes do evento: “Estamos preparados para as mudanças globais? É preciso investir em estudos aprofundados, pois as práticas de reuso da água são ainda muito restritas”, alertou.

Por fim, o pesquisador comentou que as principais atitudes sustentáveis, no que tange aos mananciais, relacionam-se ao investimento em diagnósticos, ao emprego (e pesquisa) de novas tecnologias, à busca de alternativas de uso dos recursos hídricos e à articulação de planejamentos municipais, estaduais e federais. “Se, no século XX, o gerenciamento da água era local, setorial e respondia a crises pontuais, deve, atualmente, levar em conta o ecossistema, além de ser integrado e preditivo”, concluiu.

Dados preocupantes

Para tratar do tema “Recursos hídricos e biodiversidade aquática”, o pesquisador Carlos Eduardo de Mattos Bicudo iniciou seu depoimento com a exibição de uma série de cenas reais e fictícias – entre as quais, as imagens da cidade de Nova Iorque submersa pelas águas do mar e a de um urso polar agarrado a pequenino bloco de gelo. “Quais seriam, hoje, os cenários verdadeiros? É mesmo verdade que o Globo está se aquecendo?”, perguntou. Afirmativa, a resposta do pesquisador amparou-se em dados preocupantes: o aquecimento do planeta foi responsável, por exemplo, pela redução de 20% da produção de moluscos no mundo.

Somem-se a tal realidade os índices naturalmente desafiadores do manancial terrestre. Tome-se, por exemplo, o fato de que apenas 2,6% dos recursos hídricos do planeta são de água doce. Deste já reduzido percentual, 76% encontram-se nas calotas polares – o que nos leva à compreensão de que apenas 0,8% dos recursos da Terra são efetivamente potáveis. Para além de tais especificidades – e afora as constantes mudanças climáticas – também há fatores antropogênicos responsáveis por significativo aumento dos índices de cianobactérias em lagos e rios.

Por fim, ao analisar a situação específica do Brasil – no que diz respeito à manutenção dos mananciais –, o professor Carlos Eduardo atentou para a falta de séries históricas de análise, capazes de revelar os principais desafios da biodiversidade aquática do País. “Além do aprofundamento da análise específica de nossos estudos, é importante investir em programas multidisciplinares e em educação geral. Do contrário, o Brasil será, uma vez mais, um dos indicados ao Prêmio Dodô [oferecido, pela organização CBD Alliance, aos países que contribuem para a perda, e não para a preservação, da biodiversidade.]”, completou.

Fonte: Ascom – FAPEMIG

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