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Em Natal, base de lançamento de foguetes esconde praia ainda intacta

O morro do Careca, principal cartão postal de Natal, divide dois mundos. Enquanto, de um lado, a praia de Ponta Negra concentra a maioria dos turistas na capital do Rio Grande do Norte, do outro há um cenário quase deserto.

A visitação é restrita, sob controle da Aeronáutica, e voltada a pesquisas de preservação ambiental e de ciência e tecnologia.

Desde 1965, a faixa de oito quilômetros por trás do morro do Careca faz parte do Centro de Lançamento de Foguetes da Barreira do Inferno (CLBI). Além do morro, o outro limite natural são as falésias avermelhadas que batizam a área: Barreira do Inferno.

Entre essas duas delimitações há um verdadeiro paraíso inexplorado. Águas mornas, boas ondas, dunas, pássaros e brisa.

Mesmo com restrição no acesso, os surfistas que vivem em Ponta Negra frequentam o local. “Essa praia faz parte da nossa história de surfista. Inclusive surfistas da elite mundial, que foram criados aqui em Ponta Negra, cresceram nessas ondas”, diz Eros Sena, que há 31 anos frequenta a praia deserta.

“Mas a fiscalização tenta coibir nossa entrada. Comumente, somos ‘convidados’ a nos retirar”, completa.

Morro do careca

Eros defende que haja uma liberação para a prática do surfe, assim como há para os pescadores artesanais.

Cerca de 50 pescadores da Vila de Ponta Negra, área vizinha ao morro, têm autorização para entrar na praia.

Eles alertam os ‘visitantes desavisados’ e também ajudam a recolher lixo.

O ponto é desconhecido mesmo por muitos moradores de Natal e há poucos registros fotográficos do local.
O acesso é restrito a 200 militares que trabalham na área e a pesquisadores. A então presidente Dilma Rousseff passou o feriado do Carnaval de 2011 na praia.

Não há exploração turística ou imobiliária, e só uma construção (a de um posto avançado de observação do CLBI) é vista a partir da praia.

Mesmo com a proibição militar, é comum quem se aproveite da maré baixa para contornar o morro, pelo mar, até a praia.

“Há sinalização, cerca física e fazemos patrulhas frequentes, mas não conseguimos impedi-los por completo”, diz o capitão Hélio César da Silva Fonseca, do CLBI.

FOGUETES

A restrição do acesso, diz, se faz necessária por segurança. As placas colocadas próximo ao morro do Careca anunciam o motivo: “Risco de morte: área de impacto de foguetes e mísseis”.

A área militar é uma das duas do país para lançamento de foguetes –a outra fica em Alcântara, no Maranhão.

Neste ano, seis foguetes foram lançados a partir da Barreira do Inferno, para pesquisas variadas. O próximo lançamento será em 2018.

Até 1997, essa invasão à área militar também ocorria por cima do morro. Mas há 20 anos, uma decisão judicial impediu a subida de pessoas ao topo da duna, de cerca de cem metros de altura.

A ideia, na época da interdição, era ter um projeto permanente de preservação, mas até hoje não saiu do papel.

TARTARUGA E RAPOSA

A praia tornou-se ambiente ideal para a desova da tartaruga-de-pente, uma das espécies mais ameaçadas de extinção no mundo.

Na última temporada, mais de cem ninhos foram identificados e monitorados pelo Projeto Tamar.

Além do homem, no entanto, outro recente invasor da praia tem sido as raposas da espécie Cerdocyon thous, conhecida como cachorro-do-mato, que atacam os ninhos.

Os pesquisadores fazem plantão até de noite para evitar ataques e protegem com redes os ninhos.

Fonte: Folha de São Paulo

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