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Economia global demanda ensino personalizado

Formação de técnicos no País ainda é insuficiente.

O século 20 acabou há quase 13 anos e em boa parte do mundo ainda se discute quais são as competências necessárias para o mercado de trabalho do século 21. Na verdade, no entender de muitos especialistas, a transição a ser feita é a do século 19 para o 21, porque o modelo atual ainda está mais ligado à formação padronizada de trabalhadores para fábricas, típica da Revolução Industrial, do que às exigências flexíveis da economia criativa.

Apesar das incertezas, o inglês David Albury acredita que o novo modelo passa por duas vertentes: ensino personalizado e aprendizado baseado em projetos práticos. Um dos criadores do Programa Global de Líderes da Educação (Gelp, na sigla em inglês), Albury conversou com jornalistas em São Paulo, em encontro organizado pelo Portal Porvir, dedicado à inovação em educação. Consultor de redes de ensino em 13 países – no Brasil, ele tem interlocutores nas Secretarias de Educação de São Paulo, Rio, Goiás e Pernambuco -, Albury falou das novas exigências do mercado de trabalho, de como atendê-las e de experiências bem-sucedidas.

Desafios

“Os desafios que sistemas de educação do mundo todo enfrentam hoje incluem as novas exigências do mercado de trabalho e da globalização. Os melhores empregos exigem capacidade de resolução de problemas práticos, facilidade para se comunicar e trabalhar em grupo, empreendedorismo e criatividade. Se eu pudesse deixar o currículo tradicional de lado e escolher duas habilidades que gostaria de ver nos estudantes, acho que seriam o apetite pelo conhecimento e a capacidade de ir atrás dele. Com elas, qualquer pessoa pode aprender qualquer coisa.”

Busca

“Ninguém sabe exatamente como é o sistema ideal. Há três anos e meio, começamos a identificar características de um sistema capaz de equipar cada trabalhador com as habilidades cognitivas e comportamentais necessárias para ser bem-sucedido. Uma delas é a de que o aprendizado precisa ser personalizado. Sabemos pelas ciências cognitivas que as pessoas aprendem em ritmos diferentes. Mesmo assim, organizamos classes com base na idade, na premissa de que todos avançam num só ritmo. O aprendizado não será totalmente customizado, mas tem de atender a necessidades individuais em situações colaborativas, de resolução de problemas.”

“Desconectado”

“No celular posso acessar hoje mais conhecimento do que o melhor professor faria 20 ou 30 anos atrás – informação de múltiplas fontes, nem sempre confiáveis. Assim, é muito importante a capacidade de sintetizar, de avaliar se algo é confiável, de combinar dados. Lembro-me de conversar com garotos de 13, 14 anos em Vancouver sobre a experiência na escola. Um deles disse: “Quando vou à escola sinto como se estivesse sendo desconectado. Fora dela, tenho acesso a todo tipo de informação e meios de me comunicar com pessoas. Na escola, tem um professor, um livro e talvez um computador, geralmente pouco usado”. Outro disse: “A escola é o lugar que tranca o século 21 do lado de fora”. O futuro será do aprendizado a qualquer hora e lugar, não só na escola. Por isso, o professor não pode mais ser o portador do conhecimento, mas um facilitador do aprendizado. E o currículo precisa ser criado com base nos problemas do mundo real. Como dizer a um menino ou menina de uma área pobre de São Paulo: “Aprenda matemática por dez anos e aí você vai ver o quanto ela é útil e isso vai te ajudar a conseguir emprego”?”

San Diego

“Há vários bons exemplos de escolas inovadoras no mundo. Um de ensino baseado em projeto é o da High Tech High, em San Diego. Lá os alunos decidem o projeto em que vão trabalhar, não o professor. Cabe ao professor, além de ajudar a desenvolver o projeto, dar duas disciplinas por semestre. Um grupo pode decidir que vai construir um carro movido a energia solar capaz de navegar de um modo muito complexo. Esse é um projeto real, criado por alunos de 12 anos. As matérias do semestre eram matemática e estudos sociais. A tarefa do professor foi combinar o projeto com as habilidades e competências que os alunos precisavam desenvolver nas duas disciplinas. O currículo usa como ponto de partida o projeto. É um exemplo extremo, não acho que todo mundo deve seguir. Mas os alunos são selecionados por universidades como Harvard, Stanford, Yale e MIT, porque ficaram oito anos pesquisando, na perspectiva de resolução de problemas, juntando dados e fazendo gestão de projetos.”

Nova York

“A iSchool é um exemplo de escola de transição, que usa o ensino misto (presencial e online) para dar mais liberdade ao professor. Ela parte do seguinte princípio: há uma série de conteúdos que testes nacionais ou estaduais exigem. Mas parte disso é monótona, então ela recorre ao online para acelerar a passagem pelo que é chato e concentra tempo no ensino baseado em projetos e personalizado. A diretora, Lisa Berger, diz que sua prioridade é ensinar aos estudantes coisas que eles ainda acharão úteis em 20 anos.”

Hyderabad

“Nas últimas décadas, nós nos concentramos em aperfeiçoar escolas e professores, mas o engajamento da família é um fator tão importante quanto esses outros no processo de aprendizado. Em Hyderabad (capital do Estado indiano de Andhra Pradesh), um grupo de educadores começou a se debruçar sobre a questão de como engajar famílias em um lugar com alta incidência de trabalho infantil e onde pouco valor é atribuído ao ensino. Você pode ir a favelas lá onde 90, 100 crianças ficam sentadas no chão da sala. O meio que eles encontraram para mudar esse cenário foi juntar pais e professores na administração das escolas. Conseguiram resultados razoáveis em termos de engajamento e de criar uma cultura de valorização da educação.”

Buraco no Muro

“Na Índia, há favelas e áreas rurais sem escolas. Como educar as crianças? Sugata Mitra (dono de uma fabricante de softwares) criou o projeto Buraco no Muro. Fez um computador robusto e o cimentou no muro da sua empresa para quem passasse usar. Meninos de uma favela próxima se interessaram, começaram a usar o computador. Alguns pegaram muito rápido e ensinaram aos outros como usar aquilo, desenvolvendo um conjunto de habilidades que tem aplicações na bioquímica, matemática e música. Mesmo nos lugares mais pobres que conheci, você consegue fazer estudantes aprenderem um com o outro.”

Coreia do Sul

“Hoje, nenhum sistema público incentiva as habilidades exigidas para o crescimento econômico. A Coreia do Sul, que em dez anos saiu de posições intermediárias no Pisa (teste para alunos de 15 anos que avalia a capacidade de leitura e os conhecimentos em matemática e ciências) para o grupo de elite, está no Gelp. Os coreanos dizem: “Ficamos bons em ensinar como passar em testes, memorizando regras. Mas, quando confrontados com um novo problema ou com o desafio de montar um negócio, as pessoas não sabem o que fazer”. A maioria de nós não gostaria de copiar o modelo coreano. Muitas crianças ficam 10 horas na escola e ainda estudam 5, 6 horas em casa.”

Finlândia

“Líder do Pisa, a Finlândia produziu um dos melhores sistemas de ensino público do século 20. Mas os próprios finlandeses, quando olharam as habilidades que serão necessárias em 10, 15 ou 50 anos, acharam que seu sistema talvez não seja completamente adequado: “É ótimo ficar em 1.º lugar no Pisa, mas este é o jogo errado, o que o Pisa está medindo não é o que as crianças precisam no século 21″. Um dos grandes segredos da Finlândia é o fato de que seus professores gostam de aprender. Se você fizer um seminário sobre ciências cognitivas, vão aparecer centenas de professores.”

China

“Há dois anos, o presidente chinês, Hu Jintao, disse num discurso que muitos achavam que a China será um poder global produzindo bens e serviços a custo mais baixo que outros países. “Mas a China será um poder global liderando em inovação e criatividade.” E ele disse que o motor dessa mudança tem de ser o sistema educacional. Funcionários do distrito de Chaoyang, em Pequim, nos procuraram. É um distrito, mas tem 4,5 milhões de pessoas, quase uma Finlândia. A China forma 250 mil graduados em moda por ano. Essas pessoas não vão ficar sentadas em máquinas de costura, fazendo roupas baratas.”

Brasil

“Até por ser relativamente novo, o sistema tem algumas características, como a grande variação na qualidade do professorado. Outro motivo disso é o fato de que vocês formam milhares de professores todo ano, o que para mim é uma vantagem. Porque há uma coisa muito mais difícil que aprender, que é desaprender – desaprender a ser o portador do conhecimento, algo que muitos fazem há 20 anos. Isso é talvez mais difícil do que lidar com um novo professor, ainda que precisemos formá-lo. Reconheço os problemas do Brasil, mas vejo oportunidades. Também é importante dizer que nenhum modelo nasce perfeito. Alguns de nossos parceiros criaram laboratórios e incubadoras para testar coisas. Eu recomendaria ao Ministério da Educação trabalhar com um pequeno grupo de escolas, dando a elas apoio. Mesmo com vontade política, alinhando autoridades, construindo uma coalizão social, a transição vai levar pelo menos uma década. E não adianta o MEC achar que tem a resposta para tudo, com um grande modelo para todo o País. Haverá vários modelos. Mas acho que o Brasil vai inovar e achar o próprio caminho.”

Formação de técnicos no País ainda é insuficiente

A diferença entre o número de brasileiros no ensino superior (6,7 milhões) em relação ao de matriculados em cursos técnicos de nível médio (1,2 milhão) é um “paradoxo com o qual não podemos conviver”. Palavras da presidente Dilma Rousseff em abril do ano passado, quando lançou o Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec). “No mundo inteiro essa relação é absolutamente diferente.”

Apesar do crescimento de 60% nos últimos cinco anos, a quantidade de jovens na educação profissional, proporcionalmente, é inferior não só à de países desenvolvidos, mas também à de Argentina e Chile, segundo especialistas. Uma realidade que impõe ao Brasil uma série de desafios para atender à demanda por mão de obra qualificada de uma economia emergente.

A necessidade de contratar técnicos se intensificou com a expansão do Produto Interno Bruto (PIB, conjunto de bens e serviços produzidos no país) e em face das projeções de investimentos do setor privado. Só o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai) prevê que, até 2015, o país terá de formar 7,2 milhões de trabalhadores em nível técnico e áreas de média qualificação para atuar em profissões industriais.

Enquanto isso, quase oito milhões de estudantes fazem o ensino médio tradicional, com as disciplinas teóricas preparatórias para o vestibular – e distantes da realidade dos jovens e do mercado de trabalho.

Com o Pronatec, o governo quer ampliar a oferta de vagas gratuitas na rede federal de educação, ciência e tecnologia e no Sistema S, entre outras ações. Este ano deve ser investido R$ 1,6 bilhão, com o objetivo de chegar a 1,6 milhão de matrículas no ensino técnico, sobretudo nas modalidades concomitante e subsequente.

“Não temos um apagão de mão de obra, mas é imperativo formar profissionais para setores que visam a ter ganho de produtividade, como a indústria, e de uso intensivo de trabalhadores, caso da construção civil”, diz o secretário de Educação Profissional e Tecnológica do Ministério da Educação, Marco Antonio de Oliveira, responsável pelo Pronatec.

“Bacharelismo”

Para o diretor de Educação e Tecnologia da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Rafael Lucchesi, a lógica educacional do País deve tirar o foco do “bacharelismo”. “Pela lógica do sistema, parece que todos os alunos vão para a universidade, mas pouco mais de 14% dos brasileiros de 18 a 24 anos frequentam o ensino superior. Muitos saem da escola sem uma bússola para o mercado de trabalho.”

Inspirado no pai, Jofre Bezerra Felix, de 23 anos, deu uma guinada na vida profissional após fazer um curso no Senai. Começou cedo, no primeiro ano do ensino médio, como aprendiz de mecânico. Especializou-se em ferramentaria de moldes para plásticos e, depois, fez curso técnico em mecatrônica, no Senai do Brás, Zona Leste de São Paulo.

“Minha ideia era fazer faculdade, mas as empresas me diziam que quem era da área operacional e só tinha curso superior demorava mais para chegar aos cargos mais altos”, afirma Jofre. “Fiz o técnico para acelerar minha ascensão na carreira e chegar mais perto dos níveis gerenciais.”

Já trabalhando, entrou em engenharia mecânica na Universidade São Judas. Preparou-se para a Olimpíada do Conhecimento do Senai – e venceu. Jofre está no segundo ano da graduação e é instrutor no curso técnico em mecânica no Senai em Santo Amaro, Zona Sul. Quer fazer pós-graduação e montar uma empresa. “A formação técnica me deu uma profissão e um norte na vida.”

Para a professora da Faculdade de Educação da USP Carmen Vidigal Moraes, pesquisadora de políticas públicas para o ensino profissional, a expansão das matrículas no ensino técnico deveria dar prioridade à modalidade integrada. “Precisamos de mais escolas em período integral e professores bem remunerados.”

Mas Carmen critica o discurso “pragmático” e “reducionista” que vincula a educação às necessidades do mercado. “A educação é um direito inalienável de inclusão cidadã que tem objetivos mais amplos”, afirma Carmen.

Fonte: Caderno Desafios Brasileiros – O Estado de São Paulo e O Globo

 

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