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Crise e formação insuficiente dificultam empregabilidade de recém-formados do ensino superior privado

O governo federal investiu bilhões de reais nos últimos anos em ensino superior privado, mas a crise que atinge o país e deficiências históricas na formação básica dos alunos, bem como nas grades curriculares de instituições particulares, ameaçam deixar os estudantes sem alternativas em suas áreas de escolha.

Um dos principais instrumentos da política governamental de acesso à educação superior, o Fundo de Financiamento Estudantil (Fies) recebeu aporte de 14,09 bilhões de reais em 2015, uma verba 16 vezes maior que a de 880 milhões de reais alocada para 2010. Mas esses e outros esforços vêm esbarrando no descompasso cada vez maior entre as taxas de matrículas e concluintes.

De 2010 para 2015, o número de matriculados no ensino superior do país subiu pouco mais de 47 por cento, já o de concluintes divergiu, crescendo cerca de 38 por cento, conforme dados do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (Inep).

Cálculos da Associação Brasileira das Mantenedoras do Ensino Superior (Abmes) com base nos números mais recentes disponibilizados pelo governo federal indicam que apenas 42 por cento daqueles que se matricularam em 2012 concluíram os cursos em 2015. O percentual é inferior ao de 44 por cento observado entre 2010 e 2013, período em que a economia brasileira estava em expansão e o país contava com uma situação de pleno emprego.

E essa realidade tende a persistir neste ano, à medida que os indicadores de trabalho do país seguem deteriorados. Ao final do trimestre encerrado em novembro, a taxa de desemprego no Brasil atingiu 11,9 por cento, com um recorde de 12,1 milhões de pessoas desocupadas.

Num ambiente em que a disputa por vagas de trabalho entre os egressos do ensino superior se acirra, o critério de seleção baseado na reputação da instituição de ensino frequentada pelos estudantes tende a ganhar peso.

Segundo John Mackenzie, executivo de marketing da empresa de gestão em Recursos Humanos ADP na América Latina, a formação em instituição de renome ainda é vista como diferencial dependendo da vaga disputada. “Quem faz faculdade de primeira linha já larga na frente”, disse, destacando principalmente as carreiras na área de finanças.

Danielle Cobesseira, 23 anos, que cursou Publicidade e Propaganda em uma universidade particular na cidade de São Paulo, diz ter sentido dificuldade para conseguir estágio na área de formação. “Chegaram a me perguntar em entrevista por que não fiz outra faculdade”, disse. A publicitária conta que agora pretende fazer uma pós-graduação em uma instituição de renome em sua área.

“Existe ilusão de que ensino superior dá garantia de emprego, mas isso não vale para todos”, disse o ex-ministro de Educação Renato Janini Ribeiro, também professor de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP). “Tem um número significativo de alunos que entra no ensino superior com formação insuficiente e a faculdade não dá conta de superar”, ressaltou.

De acordo com o diretor-executivo da Abmes, Sólon Caldas, aqueles sem condições de pagar mensalidade raramente conseguem entrar em universidades públicas renomadas devido à formação insuficiente no ensino médio e ao número restrito de vagas destas instituições.

“O governo precisa tomar medidas drásticas e urgentes. A primeira é corrigir a distorção do ensino básico e criar política eficiente de financiamento do ensino superior”, afirmou Caldas.

Em setembro, o governo federal apresentou um plano de reformulação do ensino médio do país, com uma nova proposta curricular que vem sofrendo críticas, incluindo a falta de debate com a sociedade e temores de que poderá acirrar a desigualdade.

Os problemas na formação dos alunos que apostam no ensino superior para alavancar a carreira profissional abrangem ainda deficiências nos currículos dos próprios cursos de graduação em que conseguem se matricular.

A consultora de negócios Cláudia de Oliveira Mangueira, 38 anos, que estudou tecnologia de banco de dados em outra faculdade privada na capital paulista, diz que algumas disciplinas sequer tinham relevância. “O curso não se aprofundou em certos assuntos e perdeu tempo com tecnologia que nem se usava mais na época”, lembrou.

“DIRECIONAR SUBSÍDIOS E ESFORÇOS”

O presidente da consultoria Hoper, William Klein, avalia que ainda é preciso promover um diálogo maior entre as instituições de educação superior e o setor produtivo. Segundo ele, a grade curricular adotada pelas universidades nem sempre atende às necessidades do mercado de trabalho, o que pode limitar as chances de empregabilidade. “O setor produtivo às vezes requer um profissional com uma formação que não é dada no ensino superior”, afirmou.

Caldas, da Abmes, reconhece que a formação teórica às vezes fica aquém das demandas do empregador, mas lembra que a atualização curricular não depende unicamente das instituições de ensino superior. “Formar mão-de-obra mais próxima do que o setor produtivo exige é complicado porque o mercado é dinâmico, as mudanças ocorrem a toda hora, o que não acontece com as diretrizes do Ministério (da Educação)”, disse.

Para o professor da cátedra Instituto Unibanco Insper, voltada a pesquisas sobre o ensino médio, Sérgio Firpo, cabe ao governo federal desenvolver, com a ajuda do setor privado, uma estratégia compatível com as exigências reais do mercado de trabalho, e não simplesmente destinada ao preenchimento de vagas em universidades. “Falta direcionar subsídios e esforços para carreiras com potencial de gerar retorno social mais imediato”, disse Firpo.

Em 2015, os cursos presenciais privados com mais matrículas foram Direito (15,9 por cento), Administração (10,5 por cento) e Engenharia Civil (6,3 por cento), de acordo com a Hoper. Em termos de empregabilidade, contudo, Direito é o que menos se destaca, uma vez que requer aprovação no Exame da Ordem dos Advogados (OAB) para exercício da profissão, lembrou o ex-ministro Janini Ribeiro. “Só 10 por cento dos egressos passam na primeira tentativa, então um número grande desses alunos depois não vai trabalhar na área”, completou.

No caso de cursos de Engenharia, por exemplo, 39 por cento dos concluintes ocupavam posições com carteira assinada, 32 por cento trabalhavam em estágios ou como freelancer e 29 por cento estavam desempregados, segundo pesquisa mais recente da Abmes baseada em dados do Exame Nacional de Desempenho de Estudantes (Enade) relativos a 2014.

No ano passado, o Ministério da Educação alocou 70 por cento das vagas do Fies para áreas prioritárias, sendo 45 por cento para Saúde, 35 por cento para Engenharia e 20 por cento para Pedagogia.

O setor agora aguarda por detalhes sobre o chamado “Fies Turbo”, que teria como objetivo fornecer pelo menos 220 mil vagas em 2017. A formatação das novas regras divide opiniões em meio aos esforços do governo federal para contenção de gastos públicos.

Mas, com ou sem uma faculdade de peso no currículo, repensar a estratégia de colocação no mercado de trabalho pode ser  decisivo. “É verdade que os egressos podem acabar ganhando menos que os que entraram no mercado quando a economia estava bem, mas talvez seja o momento para investir num curso de extensão e garantir um melhor lugar na fila quando as empresas voltarem a contratar”, disse Firpo, do Insper.

Fonte: Reuters

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