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Como três brasileiros chamaram a atenção do Google e da NASA

A cada cinco reais que a economia brasileira ganha com sua produção, um real vem do agronegócio: o setor é responsável por 20% do PIB do país.

Mesmo assim, ele ainda pode produzir muito mais. Na média, colhemos metade do milho que os americanos produzem por hectare. Nossos rebanhos bovinos rendem, no mesmo espaço, um sexto da carne produzida pelos alemães e um quinto do que conseguem os canadenses.

Já há startups mirando esse enorme potencial de expansão. É o caso da Agrosmart: criada por três jovens empreendedores em 2014, a empresa aposta na tendência da “agricultura digital” – usar a coleta e análise de dados para que os agricultores tomem melhores decisões e consigam produzir mais e melhor.

Sua estratégia parece ter dado certo: a startup atraiu a atenção de nomes como Google e NASA, além de ter como meta faturar dois milhões de reais neste ano.

A ideia

Os sócios Mariana Vasconcelos, Raphael Pizzi e Thales Nicoleti conhecem a agropecuária. Os três moram no sul de Minas Gerais, uma região que tem uma tradição no setor, conta Vasconcelos, CEO da Agrosmart.

Segundo a empreendedora, as decisões tomadas no ramo do agronegócio costumam ser ou por intuição ou por conselhos passados por parentes e vizinhos.

“Quando se fala em irrigação, por exemplo, a gente brinca que 99% dos agricultores bate o bico da bota no chão. Chutando, ele vê se a terra está fofa. Se não estiver, é porque precisa ser irrigada.”

Diante de um impacto cada vez maior no meio ambiente, porém, não dá mais para confiar nos modelos tradicionais de tomada de decisão.

“Hoje, sofremos com mudanças climáticas e com a falta de recursos hídricos. Esses são fatores determinante para a produtividade, que precisa aumentar para suprir a demanda. Está cada vez mais difícil para o agricultor – aquilo que ele sempre ouviu falar não faz mais sentido”, diz Vasconcelos.

“Eu acho que agora é a hora: há muita demanda e muitos desafios, o mundo todo está pensando em como aumentar a produção. Talvez irá demorar para ser um mercado maduro, mas é o momento de ter novas ideias e criar soluções.”

Desenvolvimento de produto

A Agrosmart começou em setembro de 2014, a partir de um problema que a própria empreendedora via em sua família, que trabalha com agricultura: eles não podiam viajar por muitos dias, já que era preciso analisar o estado da lavoura constantemente.

Por isso, a primeira missão da Agrosmart foi criar um sistema de monitoramento: sensores são instalados no cultivo do agricultor e, por meio de um software, ele pode acompanhar de qualquer lugar como anda sua produção.

“A Agrosmart usa sensores que detectam as condições naturais do solo, do vento, de temperatura, de umidade. Cruzamos isso com imagens de satélite para entender como anda cultivo. A partir desses dados, trazemos mais flexibilidade: ele não precisa ir lá chutar o chão ou coletar a chuva em um pote, por exemplo”, explica Vasconcelos.

O monitoramento rendeu uma série de dados coletados e os empreendedores começaram a pensar em como usar essas informações para oferecer mais serviços.

A ideia de usar a agricultura de dados, ou de precisão, já vinha há muito tempo. Porém, só se tornou acessível há alguns anos, com a criação de tecnologias como a computação em nuvem.

Percebendo essa viabilidade econômica, surgiu a ideia de não apenas monitorar a produção, mas também recomendar as melhores decisões possíveis para o agricultor baseando-se nos dados coletados pelos diversos sensores instalados – oferecendo um resultado baseado em diversas variáveis, e não apenas em imagens de satélite ou apenas no estudo do solo, por exemplo.

“O que a gente fez de diferente é um modelo combinado: elaboramos as recomendações com base tanto no estudo do solo e do clima quanto no estudo do crescimento da planta, unindo a coleta de dados com as imagens de satélite”, diz a empreendedora.

O modelo que a startup vende atualmente, por exemplo, é o de irrigação. “Vemos o que ocorre em cada parte da plantação e dizemos o quanto cada área precisa ser irrigada. Isso reduz o consumo de água e o consumo de energia, por rodar os sistemas de irrigação apenas quando necessário, além de aumentar a produtividade. O agricultor entende exatamente a que horas e o quanto de água que a planta precisa.”

Segundo a empreendedora, a redução da quantidade de água usada pode chegar a 60%, enquanto a de energia chega até 30%. Isso varia muito, porque depende do que o agricultor já fazia antes de contratar o serviço.

O ticket médio do cliente da Agrosmart é de 40 mil reais por ano. Porém, esse número varia muito porque é possível formar pacotes que não usem todas as variáveis que a startup oferece,– são os chamados “planos de entrada”. A precificação é baseada no número de equipamentos instalados: varia por área, por relevo, por cultura que ele está plantando e tipo do solo.

O negócio atende desde agricultores pequenos, como hortifrútis, até médios e grandes produtores, como os de grãos. Nos próximos meses, o negócio pretende lançar um novo módulo, para decisões em relação a pragas, doenças e aplicações químicas.

Refinamentos: Start-Up Brasil e Google

Pouco depois de inaugurar, a Agrosmart entrou para o programa de aceleração do Start-Up Brasil, uma iniciativa do governo federal. Até o fim de 2015 (cerca de um ano), os empreendedores refinaram seu modelo de negócio na parte agronômica. Isso incluiu a opção por investir mais em recomendações, como comentado no tópico anterior.

No começo deste ano, a Agrosmart também foi uma das startups selecionadas para integrar a primeira turma do Google Launchpad Accelerator – saiba mais sobre o programa e veja uma breve entrevista que fizemos com a Agrosmart na época.

No Google, o foco foi tecnologia: foi preciso refinar o produto com mudanças no site de acesso, incluindo suporte mobile, e na própria programação do software.

Também no início de 2016, o negócio recebeu um investimento da SP Ventures, fundo de venture capital paulista. A Agrosmart não revela o valor do aporte, mas a SP Ventures tem patrimônio de R$ 105 milhões e realiza aportes que variam de R$ 2 milhões a R$ 6 milhões por startup.

O objetivo do investimento foi montar o time comercial da startup: agora, há vendedores que desenvolverão canais de atendimento e de vendas em diversas regiões do Brasil. Hoje, a startup atende em todos os estados do país.

Parcerias: NASA

O negócio dos empreendedores chamou a atenção até mesmo da NASA, a agência espacial americana. No ano passado, Vasconcelos foi selecionada como bolsista na Singularity University, após vencer o concurso de soluções hídricas Call to Innovation, organizado no Brasil pela Fiap.

A Singularity University funciona em um centro de pesquisa da NASA no Vale do Silício, na Califórnia. “Fui por causa do projeto da Agrosmart e desenvolvi um relacionamento lá. Hoje, já tenho um projeto com a NASA Califórnia, na área de imagem de satélites”, explica a empreendedora. Essas imagens ainda não estão disponíveis comercialmente: só estarão entre 2017 e 2018, inclusive com visualizações do Brasil.

Depois do acordo com a NASA Califórnia, a empreendedora recebeu um convite para um acordo de transferência de tecnologia para a NASA Flórida. Ou seja: a Agrosmart e a agência espacial americana trocarão seus conhecimentos, com o objetivo de que as soluções desenvolvidas sejam acessíveis para mais pessoas.

O programa terá duração de dois anos e começará no fim deste ano. “Nós iremos desenvolver um produto a partir tanto de tecnologias novas quanto das patentes que a NASA já possui. Além dessa troca de conhecimento, há todo um acesso a subsídio e infraestrutura”. Os dois acordos com a NASA podem fazer com que, no futuro, a Agrosmart consiga oferecer novos serviços.

Planos

A Agrosmart pretende captar um novo investimento no ano que vem, para financiar sua expansão internacional. O alvo são países da América Latina e do continente africano que já manifestaram interesse pelas soluções da startup.

Por conta desse objetivo, a startup não revela quantos clientes possui hoje nem quantas propriedades analisa atualmente. Mas afirma que sua previsão de faturamento para 2016 é de dois milhões de reais e que pretende chegar a 400 mil hectares de terra analisados até a virada do ano – um hectare equivale a, aproximadamente, um campo de futebol.

Fonte: Exame

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