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Como a indústria química aderiu à luta contra a mudança do clima

Pode parecer surpreendente que as grandes companhias químicas do planeta estejam na linha de frente do combate à mudança do clima, lutando por desordenar os setores em que elas mesmas atuam.

Mas em um acordo abrangente assinado sábado (15) em Kigali, Ruanda, fabricantes de produtos químicos como a Honeywell e a Dupont estiveram entre os mais ativos proponentes da proibição de um produto químico lucrativo que há muito serve de fundação aos setores de refrigeração e ar-condicionado.

O que movia essas empresas era menos o ambientalismo que a intensa competição, e a aposta em que elas seriam capazes de criar produtos alternativos menos prejudiciais ao ambiente. Ainda assim, alguns ambientalistas afirmam que a decisão de abandonar o hidrofluorocarbono, ou HFC, oferece um exemplo que outros setores poderão seguir.

“Eles aprenderam que, sem uma mudança nas regras, seus novos produtos não seriam capazes de competir”, disse David Doniger, diretor do Programa de Clima e Ar Limpo no Conselho de Defesa dos Recursos Naturais norte-americano, em Washington. “Eles acordaram e perceberam que a ciência era verdade”.

“Nós queremos a restrição desses produtos por motivos puramente ambientais. As empresas querem que eles sejam restritos por muitas outras razões”, entre as quais o lucro, disse Doniger. “Mas o ponto é que elas passaram a ter um interesse comum com a comunidade internacional”.

A resposta do setor químico contrasta fortemente com a tergiversação e, em muitos casos, obstrução aberta de regulamentações ambientais por parte das grandes companhias petroleiras. Exxon Mobil, Chevron e outras vêm sendo criticadas há décadas por seus esforços de lobby contra regras que restringiriam a emissão de gases causadores do efeito estufa, ainda que seus pesquisadores mesmos tenham alertado sobre os riscos de uma mudança no clima.

Alguns ambientalistas afirmam que as empresas químicas acabaram por influenciar demais o acordo de Kigali. Também dizem que o acordo poderia ter sido mais ambicioso em termos de cronograma e de escopo.

E existem preocupações de que muitos produtores químicos nacionais de menor porte não se beneficiarão tão rápido, o que concentrará o poder do setor nas mãos das maiores companhias do planeta. Boa parte da resistência ao acordo veio da China e da Índia, que temiam que algumas de suas empresas de produtos químicos teriam de fechar as portas, ou que seus consumidores se vejam submetidos a preços mais altos.

“Ainda que tenhamos recebido o resultado positivamente e que tenha havido progresso, quem está ditando o ritmo é a indústria”, disse Paula Tejón Carbajal, estrategista mundial de negócios da organização ecológica Greenpeace, em Amsterdã.

O acordo de Kigali é o mais recente capítulo no um papel ocasionalmente desastroso, em termos ecológicos, desempenhado pelo setor de ar condicionado e refrigeração. Por décadas, uma categoria de produtos químicos chamados clorfluorocarbonos (CFC) foi amplamente usada em condicionadores de ar e refrigeradores, bem como em sprays de aerossol e produtos de limpeza.

Os cientistas terminaram por alertar que o CFC desgasta a camada de ozônio, que protege o planeta contra os raios solares ultravioleta. O setor químico inicialmente resistiu, apontando que as alternativas não eram viáveis economicamente. “Eles se comportaram de modo horrível, exatamente como o setor de carvão”, disse Doniger.

Mas as preocupações dos consumidores quanto ao produto levaram a uma queda de vendas, e alguns poucos países proibiram o uso do CFC. Em 1987, o Protocolo de Montreal, um acordo ambiental, foi assinado para tirar o CFC de circulação.

A alternativa disponível na época, o HFC, consistia de gases causadores de efeito estufa com mil vezes a potência do dióxido de carbono, em termos de aprisionamento de calor. A preocupação quanto a essa categoria de produtos químicos levou os ambientalistas a iniciar campanhas pela proibição do HFC.

Quando esse momento chegou, o setor químico correu para se antecipar a qualquer nova rodada de regulamentação. No momento em que a transição para o HFC estava sendo implementada, no começo dos anos 2000, a Honeywell e diversas outras empresas iniciaram programas de pesquisa e desenvolvimento com o objetivo de estudar alternativas com potencial muito mais baixo de promover o aquecimento global.

A Europa apertou sua regulamentação em 2011, com regras mais severas cujo objetivo era eliminar o uso do HFC em sistemas de ar condicionado para veículos. As autoridades regulatórias dos Estados Unidos conferiram créditos a fabricantes de automóveis que adotassem produtos alternativos ao HFC em seus condicionadores de ar.

Em 2012, a Honeywell criou uma base de produção logo ao norte de Xangai a fim de produzir uma alternativa ao HFC que causa menos danos ao meio ambiente, o HFO-1234yf. A companhia em seguida construiu uma segunda fábrica ao norte de Tóquio, e deve inaugurar sua maior base de produção, em Geismar, Louisiana, no começo do ano que vem. Ela investiu US$ 900 milhões em seu programa de gases de refrigeração alternativos.

De lá para cá, a Honeywell vem expressando publicamente seu apoio a regulamentação mais severa e, em 2014, foi parte de um grupo de empresas que se alinhou ao governo Obama para trabalhar quanto a uma reforma no Protocolo de Montreal.

Agora que o planeta decidiu eliminar o HFC, a empresa poderá colher os benefícios de seu investimento. Ainda que ela não forneça números separados sobre a sua divisão química, informou que suas vendas de alternativas ao HFC estão crescendo rapidamente, o que ajuda a empresa a ampliar sua receita anual com a divisão de produtos de flúor em mais de dois dígitos anualmente, ultrapassando a marca do US$ 1 bilhão em faturamento.

“Essa é uma área na qual estamos alinhados com os benefícios ambientais”, disse Kenneth Gayer, vice-presidente de produtos de flúor na Honeywell, em entrevista. “Antecipamos a necessidades dessas regulamentações antes que as pessoas começassem a falar de aquecimento global. Agora, o mundo vai usar os produtos alternativos em larga escala”.

Há outras opções disponíveis, hoje, entre as quais sistemas que usam propano ou amônia, e companhias ao longo de toda a cadeia de suprimento estão correndo para adotá-las. A Coca-Cola, por exemplo, colocou em serviço mais de 1,8 milhão de máquinas de venda automática refrigeradas e outros equipamentos que não usam HFC.

Ainda assim, alguns ambientalistas acautelam quanto ao veem como influência excessiva do setor empresarial em definir o futuro percurso das tecnologias de refrigeração.

A Daikin produz uma alternativa de baixo custo ao HFC chamada HFC32, que tem impacto relativamente baixo em termos de aquecimento global e é vista como útil em mercados como a Índia. A Daikin, sediada em Osaka, Japão, produz equipamentos de ar condicionado e ingredientes químicos para eles. Algumas de suas patentes foram colocadas em domínio público para encorajar indústrias de diversos países a usar seus produtos.

Carbajal, da Greenpeace, vê a promoção agressiva do HFC32 como problemática. Ela diz que a indústria decide “o que é baixo e o que é alto, e por isso estamos muito preocupados”. Carbajal disse que embora existam diversas boas alternativas ao HFC, não são elas que estão sendo adotadas em alguns países. “O problema é que a ambição não vem sendo tão grande quanto esperávamos”, ela disse.

Damian Thong, que comanda a seção de pesquisa de tecnologia asiática no banco Macquarie, disse que a Daikin havia apoiado o HFC32 em um esforço para encontrar equilíbrio entre o potencial de aquecimento global e uma maior eficiência energética.

As emissões dos condicionadores de ar também envolvem a energia elétrica que eles consomem, disse Thong. “A questão que vem sendo desconsiderada é que o foco exclusivo no aquecimento global pode ainda assim significar danos ao meio ambiente”, disse.

A despeito das questões remanescentes, o acordo de Kigali serve como exemplo de uma dinâmica emergente, na qual empresas se antecipam a mudanças nas normas ambientais por meio do desenvolvimento de produtos menos prejudiciais ao meio ambiente, e pressionam por regulamentação que promova o crescimento de seu mercado, dizem especialistas em questões ambientais.

“Mais e mais empresas estão olhando cada vez mais longe para o futuro, a fim de determinar que mudanças esperar, e o que elas precisam tirar de produção em suas linhas”, disse Baskut Tuncak, advogado das Nações Unidas especialista em produtos químicos tóxicos. “Isso mostra que a regulamentação pode estimular a inovação”, ele disse. “Quanto mais tivermos uma abordagem mundial, melhor, até mesmo para as empresas”.

Fonte: Folha de São Paulo

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