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Cientistas reclamam de dificuldades para importar material

Anunciado como solução para a burocracia da importação de material científico-um dos grandes entraves à pesquisa no Brasil-, o selo “CNPq Expresso” só foi usado para trazer US$ 12,1 milhões em componentes ao país desde o ano passado. Isso representa 2,3% dos US$ 531,2 milhões que poderiam ser usados no sistema em 2011.

Uma das principais bandeiras da gestão do ex-ministro da Ciência Aloizio Mercadante, o sistema foi anunciado em março de 2011.

Batizado de CNPq Expresso, já que está sob a aba do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento e Tecnológico), o sistema é um selo que identifica o material científico que chega ao país.

O programa ainda está em em caráter de teste, funcionando somente nos aeroportos de Guarulhos e Viracopos, em São Paulo, e no de Recife, em Pernambuco. O aeroporto do Galeão, no Rio, deve entrar na lista até o fim do mês.

Antes do selo, todo o material científico importado pelos pesquisadores se misturava às demais importações e, muitas vezes, era perdido.

Isso porque muitos dos insumos, como células e alguns reagentes, precisam de cuidados, como refrigeração.

O problema é que o selo não bastou para agilizar os processos. A burocracia para preencher a papelada dos pedidos continua e o marco legal de importação científica ainda é pouco flexível.
O CNPq ainda não informa os números consolidados, incluindo a quantidade de pesquisadores beneficiados, mas diz que o selo apresentou “bons resultados”.

De acordo com a assessoria do órgão, boa parte dos problemas na importação é causada pelos próprios pesquisadores, que preenchem incorretamente os formulários e outros trâmites.
Para tentar amenizar o problema, está sendo criado um programa de tutoria para familiarizar os cientistas com os formulários necessários.

“A cada importação é preciso preencher a papelada como se eu estivesse importando pela primeira vez”, diz a geneticista Mayana Zatz.

No fim do ano passado, a reportagem da Folha esteve nas instalações do Centro de Estudos do Genoma Humano da USP, coordenado por Zatz, e encontrou pilhas de material científico.
“Como o material demora muito para chegar, importamos uma grande quantidade de uma só vez. Mas armazenar todos os produtos se torna um problema”, diz Zatz.

‘CONTRABANDO’

A demora para conseguir reagentes e outros insumos faz com que muitos cientistas tragam esses materiais na bagagem, sem declará-los.

“Não falta quem faça. Para conseguir trabalhar para o governo, fazendo pesquisas com o financiamento recebido, o cientista acaba tendo que enganar o próprio governo na hora de trazer material”, diz Lygia da Veiga Pereira, da USP.

Apesar disso, Stevens Rehen, da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), avalia que a importação de material melhorou. Mas, para ele, as dificuldades ainda “tiram parte da competitividade do Brasil na ciência”.

Fonte: Jornal Folha de São Paulo

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