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Ciência sem Fronteiras exclui pelo menos 24 cursos de novo edital

Programa é focado na área tecnológica, mas a categoria Indústria Criativa era uma ‘brecha’ para alunos de Humanas.

O programa federal Ciência Sem Fronteiras (CsF) excluiu no seu mais novo edital a possibilidade de participação de estudantes de pelo menos 24 cursos, 20 deles de Ciências Humanas. O foco principal do CsF é a área tecnológica, mas 1.114 estudantes de Humanas já haviam sido contemplados pelo programa em uma área chamada Indústria Criativa.

O número representa 6% do total de bolsistas, mas é maior, por exemplo, que o número de beneficiados de Computação e Tecnologia da Informação (887 bolsistas), uma das mais estratégicas para o País. Até agora, 17.134 estudantes estão em outros países pelo programa.

Nesse edital foram excluídos cursos como Publicidade, Artes Plásticas, Cinema, Jornalismo. Carreiras da área de Saúde também foram atingidas, como Enfermagem e Fisioterapia.

Em entrevista há duas semanas, Jorge Guimarães, presidente da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) – um dos órgãos responsáveis pelo CsF – já havia adiantado que poderia alterar os editais. A definição da área Indústria Criativa no site do programa já havia sido modificada por ser considerada muito abrangente. “A primeira definição tinha ficado muito frouxa e pessoas de áreas similares acharam que podiam ser incluídas”, disse Guimarães. “A ênfase continua sendo as áreas tecnológicas.”

As mudanças causaram revolta entre estudantes, que já se mobilizaram no Facebook, com a criação do grupo “Ciência com Fronteiras”, que já conta com 700 membros. O estudante de Jornalismo da PUC-MG, Igor Silva, foi pego de surpresa. “Já tinha gastado mais de R$ 800 me preparando para os exames de certificação”. Ele planejava estudar na Austrália.

A estudante de Publicidade na Universidade de Fortaleza, Thaís Esmeraldo, se disse “desrespeitada” com a mudança. “Pessoas que antes tinham a mesma condição que tenho hoje, puderam participar. Por que me tiraram esse direito?”, questiona Thaís.

A estudante queria fazer uma graduação sanduíche na University of East London, em Londres, Inglaterra. Para agilizar o processo, Thaís já havia, inclusive, agendado um teste de proficiência em Brasília, pois não conseguiu uma vaga em sua cidade. Pelo exame, a jovem desembolsou R$ 440. “A sorte foi que a passagem eu comprei por milhas”, diz. Mesmo diante das mudanças, Thaís diz que fará a prova.

A porta que foi fechada

O programa de intercâmbio prevê a concessão de 101 mil bolsas em quatro anos, com foco nas Engenharias, Tecnologia da Informação, Ciências Exatas e afins. O fato de o CsF não abranger, a princípio, as Ciências Humanas e Sociais já foi bastante criticado por entidades.

A justificativa é que esses cursos no Brasil não têm lacunas a serem preenchidas como os de Ciências Exatas, Engenharias e áreas tecnológicas e, portanto, não precisariam ser complementados com o estudo em universidades do exterior. “Além disso, o CNPq e a Capes mantiveram os programas usuais das duas agências, nos quais não há prioridade de área, e sim de mérito”, afirmou, em julho, o presidente da Capes, Jorge Guimarães, defendendo que as Ciências Humanas e Sociais continuavam com oportunidades para intercâmbios.

“Historicamente, as Ciências Humanas foram muito mais beneficiadas pelas universidades públicas, por isso muita gente se formou nesses cursos”, explica a consultora em educação Ilona Becskeházy. “Agora o governo está sendo estratégico, priorizando a área que precisa de mais retorno – tecnologia e inovação.”

Entretanto, na prática, alunos de cursos como Publicidade, Jornalismo e até Artes conseguiram ser selecionados pelo programa. Isso porque a categoria de Indústria Criativa não era bem definida, apesar de incluir determinados cursos de Ciências Humanas. Nos editais, ela vinha com uma explicação entre parênteses – (Cinema, Arquitetura, Desenho Industrial, etc) – que abria uma brecha para outras áreas.

Justamente por ser mais abrangente, a Indústria Criativa já era uma das categorias que mais reunia bolsistas. Os principais cursos incluídos na área eram Arquitetura e Desenho Industrial, mas havia estudantes dos mais variados campos, como Moda, Artes Cênicas e Música. Cerca de 72% estão hoje inseridos na modalidade de Graduação Sanduíche, e a maioria está nos Estados Unidos, França, Reino Unido, Portugal, Itália e Alemanha.

Beneficiados

Nos Estados Unidos desde setembro, o estudante de Desenho Industrial da Universidade Estadual do Rio de janeiro (UERJ) Caio Logato, de 20 anos, conseguiu uma bolsa do programa para estudar um ano na Universidade de Artes e Design em Savannah. “Em sua maioria, as bolsas são só para Ciências Exatas; apesar disso, não senti nenhuma resistência à minha candidatura. Fiquei muito feliz em saber que as carreiras criativas não foram negligenciadas”, diz o bolsista.

Em relação à sua experiência na nova universidade, Caio destaca que o ensino norte-americano proporciona o contato com tecnologias desconhecidas no Brasil e, por isso, tem sido muito produtivo. “Tem coisas aqui das quais eu nunca tinha ouvido falar. Os equipamentos não deixam a desejar a nenhum estúdio profissional de Hollywood. Os professores também são muito qualificados e sempre disponíveis para ajudar, dão até o número do celular para o caso de dúvidas”. O estudante fala ainda sobre sua rotina intensa fora do País. “Em duas semanas eu faço projetos que no Brasil eu teria seis meses para fazer”.

Responsável pelo Ciência Sem Fronteiras na Divisão de Relações Internacionais da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Paulo Guerra considera que o princípio do programa de priorizar as áreas tecnológicas é uma discriminação às Ciências Humanas e Sociais. “Isso vem de uma visão obtusa do governo de que as Engenharias são o que importa para o desenvolvimento do Brasil, mas cursos como Comunicação e Letras também têm significância.”

O bolsista da Universidade Federal do Ceará (UFC) Leonardo Veras Souza, que está no Canadá cursando parte de sua graduação em Arquitetura e Urbanismo na Brock University, em Ontário, espantou-se ao ver que o número de vagas abertas para sua área era relativamente alto, principalmente para o seu curso, que não estava antes na lista do programa. “É uma área tão importante para o País como qualquer outra, e não pode ser deixada de lado. Essa é uma forma de valorizar futuros profissionais e investir no crescimento brasileiro. A experiência está valendo a pena para mim e outras pessoas deveriam ter a mesma oportunidade”.

No caso da UFRJ, 68 alunos de cursos de Ciências Humanas se inscreveram no programa, dos quais 37 foram homologados. Foram aceitos estudantes de Arquitetura, Artes Cênicas, Comunicação Social, Comunicação Visual, Composição Paisagística, entre outros. No entanto, foram indeferidas as candidaturas de alunos de licenciaturas em geral e de Economia, Letras, Gestão Pública e Direito.

A aluna de Publicidade e Propaganda da UFRJ Nathalia Barbosa, foi uma das que conseguiram uma bolsa pelo programa. Ela estuda atualmente na Universidade de King’s College, em Londres. De acordo com Nathalia, mesmo não cursando uma das carreiras de foco do projeto, não houve empecilhos à sua aceitação. “Acredito que os fatores que contaram para a minha concessão foram apenas os acadêmicos: o meu currículo e projetos de iniciação científica na faculdade”.

Alex Nunes Silva cursa Geografia na Universidade Federal do Maranhão (UFMA) e também foi selecionado para estudar na Brock University. Ele diz que, quando voltar, pretende compartilhar o conhecimento adquirido no Canadá com seus companheiros de curso na UFMA. “Além disso, será a minha chance de concorrer a uma vaga de mestrado aplicando o meu conhecimento em prol do desenvolvimento do Brasil.”

Mestrado em Cinema

De acordo com o presidente da Capes, Jorge Guimarães, o Comitê Executivo do Ciência sem Fronteiras está considerando a possibilidade de incluir no programa a modalidade de mestrado para o curso de Cinema. “Não há doutorado nessa área, nem no Brasil e nem no exterior, então queremos melhorar a experiência dos mestrandos em Cinema”, afirma. Ele diz que os cursos dessa área tendem a ser muito caros por envolverem o uso de diversos equipamentos especiais.

Guimarães conta que a próxima reunião do comitê deve acontecer no final deste mês. “É provável que essa ideia seja aprovada. Podemos pelo menos fazer um teste.” Por enquanto, o Ciência sem Fronteiras não inclui a modalidade de mestrado no exterior, por se considerar que os cursos daqui já têm qualidade suficiente e não há desfalques a serem supridos.

Fonte: O Estado de São Paulo

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