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Catadores apostam em reciclagem de lixo eletrônico

Profissionais aprendem a lidar com esse tipo de material para aumentar sua renda.

O catador de materiais recicláveis Douglas Moreira Pires da Silva passou a frequentar em agosto um curso na Universidade de São Paulo (USP) para certificá-lo como reciclador de computador e aparelho celular. Ganhando em média R$ 450 por mês com a reciclagem de papel, papelão, plástico, ferro e sucata, espera aumentar sua renda para até R$ 800 com a nova atividade na cooperativa em que trabalha, na Grande São Paulo.

“Antes, a gente recebia um computador e vendia como sucata a R$ 0,30. Agora, a gente consegue até R$ 8 com um quilo de processador”, disse Silva, que é casado, pai de dois filhos e mora com a mãe, também catadora.

Ainda sem uma definição oficial da responsabilidade sobre o lixo eletrônico, universidades de São Paulo e do Rio de Janeiro apostam nessa classe de trabalhadores para dar a correta destinação aos equipamentos que já estão sem uso.

Na USP, até agosto, 169 catadores de 60 cooperativas fizeram o curso (15 turmas) oferecido em parceria com a Petrobras. Na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), o curso é dado por meio de uma incubadora tecnológica de cooperativas populares. “Os catadores aprendem a lidar com o material eletrônico e conseguem se tornar referência para descarte correto e aumentar a renda”, disse Walter Akio Goya, professor do curso na USP.

A lógica do curso é comum a todos os participantes. Acostumados a trabalhar apenas com papel, papelão, plástico, ferro e sucata, os catadores aprendem a separar as peças dos equipamentos e vendem por valor mais alto.

Uma tonelada de lixo eletrônico gera 350 kg de ferro, 170 kg de cobre, 150 kg de fibras e plásticos, 70 kg de alumínio e 25 kg de chumbo, e de 300 gramas a 1 quilo de prata, 300 gramas de ouro e de 30 a 70 gramas de platina.

Mãe de três filhos, a catadora Joana D´arc Cardoso disse que se surpreendeu com os riscos à saúde ao manusear um equipamento sem conhecimento. “Agora que sei, vou fazer o melhor trabalho e ganhar mais”, disse. Ela pertence a uma cooperativa da zona norte de São Paulo. Quando o trabalho estiver a todo vapor, espera receber até R$ 2.000 por mês.

Tesoureiro de uma cooperativa em São Paulo, Walison Borges da Silva fez o curso há 14 meses. A renda obtida com o trabalho é depositada numa poupança. No final do ano, eles dividem o recurso com os 24 cooperados. “Os computadores vêm de empresas e da própria comunidade. Se recebemos mais, temos condições de aumentar a nossa renda”, disse. Numa das vendas, os cooperados faturaram R$ 4.000.

Brasil é líder em descarte

A Política Nacional de Resíduos Sólidos responsabilizou os fabricantes pelo descarte do lixo eletrônico. Atualmente, se discute a gestão compartilhada entre o fabricante, o comerciante e o usuário. As regras têm de ser implementadas em um prazo de dois anos – até 2014.

O descarte de computadores e celulares no Brasil é um problema. De acordo com dados das Nações Unidas, o País é o maior entre os emergentes – considerando inclusive Chin a- na produção per capita de lixo de computador: 0,5 quilo por ano.

Sem áreas de destinação adequadas, os equipamentos acabam em lixões, contaminando o ambiente. “Só fazendo muita pressão é que poderemos ter uma política séria nessa área”, afirmou a coordenadora do projeto na USP, Tereza Cristina de Brito Carvalho.

No Centro de Descarte e Reúso de Resíduos de Informática (Cedir / USP) chegam por mês, em média, 12 toneladas de equipamentos que passam por triagem e são recuperados ou desmontados. Os computadores recuperados são doados a instituições para auxiliar na educação digital.

Oitocentos equipamentos já foram entregues, segundo a coordenadora do projeto. Aqueles que não têm recuperação são encaminhados para a reciclagem.

Fonte: Folha de São Paulo

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