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Brasil pode perder chance de usar o maior telescópio do mundo

O Brasil corre sério risco de perder sua vaga no projeto de construção do maior telescópio do mundo caso não ratifique seu contrato de adesão ao Observatório Europeu do Sul (ESO) ainda neste primeiro semestre, alerta o diretor geral da organização, o holandês Tim de Zeeuw. O acordo foi assinado no fim de 2010 pelo Ministério da Ciência e Tecnologia (MCT), com o compromisso de que seria aprovado até o fim de 2011, mas até agora não foi enviado para votação no Congresso — que precisa ratificar o contrato para que ele se torne válido, por tratar-se de um acordo entre os governos do Brasil e dos 14 países europeus que já fazem parte do ESO.

“O contrato diz que, após um ano, ambos os lados podem pedir uma renegociação”, afirmou Zeeuw, em um almoço com jornalistas brasileiros em Santiago, no Chile, país onde estão localizados os telescópios do ESO. E deixou claro que, se não houver uma sinalização forte de avanço nos próximos meses, os países europeus pedirão essa renegociação. Detalhe: sem garantia de que os descontos concedidos ao Brasil na primeira vez serão mantidos. Pelo contrato atual, o País tem um desconto de 30% no custo total de participação pelos primeiros dez anos. Em vez de E$ 370 milhões, poderá pagar E$ 260 milhões, segundo o ESO, além de outros benefícios.

“Os países membros concordaram com esses termos porque viram a participação do Brasil como uma vantagem estratégica, mas não posso garantir que isso será mantido se tivermos de renegociar o contrato”, alertou Zeeuw. Na pior das hipóteses, disse ele, o convite feito ao Brasil para se juntar ao ESO poderá ser revogado. “Não estou fazendo uma ameaça, estou apenas afirmando um fato”, disse. “Houve uma decisão unânime por parte dos membros de assinar o acordo com o Brasil, e esperamos que o País honre seus compromissos.”

Zeeuw foi simpático, educado e diplomático durante toda a entrevista. Mas ficou óbvio que a paciência e a boa vontade dos europeus está no limite. “É um bom contrato, então não entendo porque deveríamos renegociá-lo”, disse. “Se não houver progressos significativos até a metade do ano, todo mundo ficará muito descontente.”

O contrato foi assinado no final da gestão do presidente Lula e do ministro Sérgio Rezende. Desde então, Zeeuw diz que não recebeu nenhum comunicado do novo ministro, Aloizio Mercadante, e que tentou marcar reuniões com ele, mas não foi atendido. O silêncio do governo foi total.

Assim, é natural que os europeus estejam se perguntando se poderão, de fato, contar com o Brasil em seus próximos projetos. O mais audacioso deles, é a construção do Telescópio Extremamente Grande Europeu (E-ELT, em inglês), projetado para ser o maior instrumento de pesquisa astronômica do planeta, com um espelho coletor de quase 40 metros de diâmetro — cinco vezes maior do que os maiores telescópios atuais. O custo estimado do projeto é de E$ 1 bilhão, previsto para entrar em operação no prazo de dez anos.

O projeto do telescópio já está pronto, o local de construção já foi escolhido (também nos Andes chilenos), e o dinheiro já está praticamente garantido por parte dos europeus. Se o Brasil não ratificar sua adesão ao ESO, porém, não só ficará fora do E-ELT como colocará em risco o andamento do projeto para o outros participantes. “Não podemos começar a construir o E-ELT sem o Brasil”, disse Zeeuw. “Quase todo mundo já está pronto. Mas precisamos saber exatamente o que vai acontecer daqui para frente. Neste momento, o Brasil é essencial.”

Apesar dos custos envolvidos, a maior parte dos astrônomos brasileiros apoia a entrada do Brasil no ESO, o que garantiria ao País direitos iguais de uso da infraestrutura de pesquisa do observatório — considerado o melhor do mundo em várias áreas da astronomia. Sem falar no E-ELT. Desde o início de 2011 o Brasil já é tratado como membro do consórcio, apesar de o contrato não ter sido ainda sancionado pelo Congresso. Os astrônomos brasileiros já fazem uso das instalações. A bandeira do Brasil figura no site do observatório (www.eso.org) e o país é citado como membro em todos os materiais de divulgação do grupo. Falta o Brasil assinar o que prometeu e começar a pagar sua parte do acordo.

Para o astrônomo Claudio Melo, que trabalha para o ESO há dez anos, o Brasil não pode abrir mão dessa oportunidade. “É um bonde que só vai passar uma vez. Se não pegarmos agora, não pegamos nunca mais”, diz. Um país não pode simplesmente pagar para entrar para o ESO. A participação é permitida apenas via convite formal, e o Brasil seria o primeiro país não europeu a fazer parte do consórcio.

Fonte: Jornal O Estado de São Paulo

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