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Biodiversidade é a chave para o desenvolvimento científico na Amazônia, aponta Raupp

Desde o início do ano à frente do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), Marco Antônio Raupp, traduz nesta entrevista, concedida de forma exclusiva à revista Amazonas Faz Ciência, o principal desafio de sua gestão: “Fazer com que o conhecimento gerado nas nossas universidades e centros públicos de pesquisa seja útil à sociedade”.

Graduado em Física pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, PhD em Matemática pela Universidade de Chicago e livre-docente pela Universidade de São Paulo (USP), Raupp continua defendendo a necessidade de avanço da ciência na Amazônia, pleito de interesse do ministro desde a época em que era presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC).

Segundo Raupp, a ideia do MCTI é estimular a criação de empresas na Amazônia, sobretudo na área da biotecnologia para aproveitar os recursos da biodiversidade na produção de medicamentos, cosméticos e alimentos, usando a ciência para utilizar a biodiversidade de forma sustentável.

Nesta entrevista, o ministro aponta algumas soluções para o desenvolvimento científico no Amazonas em relação à formação de recursos humanos qualificados, melhoria da infraestrutura de comunicações e fortalecimento dos institutos de pesquisa para fixação de doutores no Estado, que devem ser alinhados à política de Ciência, Tecnologia e Inovação.  Acompanhe a entrevista na íntegra:

Amazonas Faz Ciência:  Na sua avaliação, qual será o maior desafio da sua gestão?

Marco Antônio Raupp : O grande desafio é fazer com que o conhecimento gerado nas nossas universidades e centros públicos de pesquisa seja útil à sociedade. Precisamos criar condições de levar o conhecimento científico para o setor produtivo, ajudando-o a promover a inovação tecnológica de forma sustentável do ponto de vista econômico, social e ambiental. Essa opção fica muito clara no lema do ‘Plano Brasil Maior: inovar para competir, competir para crescer’ e, especialmente, na Estratégia Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, cujo ponto central é a ‘CT&I como eixo estruturante do desenvolvimento do Brasil’. Pensando assim, o governo estabeleceu a meta ousada de elevar para 1,8% do PIB o investimento em P&D até 2015, dividindo igualmente o percentual do setor público e do setor produtivo. Hoje, a participação das empresas é de 0,55% e do setor público de 0,61%.

AFC: A necessidade de avanço da ciência na Amazônia sempre foi um dos pontos abordados pelo senhor quando era presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC). Nesse sentido, quais as metas do MCTI voltadas para o desenvolvimento científico nos Estados da Amazônia?

Raupp: Continuo com o mesmo ponto de vista, defendendo a posição que apresentei durante a 61ª Reunião Anual da SBPC que realizamos em 2009, em Manaus. Reafirmo que a ciência é fundamental no processo de desenvolvimento da região e tem de ser feita por pessoas da região. Minha ideia é estimular a criação de empresas na Amazônia, sobretudo na área da biotecnologia, que aproveitem os recursos da biodiversidade na produção de medicamentos, cosméticos e alimentos, por exemplo, e também dos processos oriundos da biodiversidade. Podemos ser líderes nessa área, usando a ciência para utilizar a biodiversidade de forma sustentável.

AFC:  Sabemos que o desenvolvimento de projetos de excelência e a produção de conhecimento nos Estados da Amazônia estão relacionados, entre outras coisas, com a infraestrutura de telecomunicações. Quais são as ações previstas pelo MCTI para preencher essa lacuna e em que prazo?

Raupp: Esta é uma questão crucial para o desenvolvimento da região. É praticamente impossível instalar grandes linhas de comunicação de dados no meio da floresta. A solução é termos um satélite geoestacionário para apoiar o sistema de banda larga na Amazônia. Este é um projeto do Ministério das Comunicações, com a Telebras; do Ministério da Defesa e do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação, e a meta é lançar o primeiro satélite em 2014.

AFC: Na sua visão quais as ações que o senhor identifica como prioritárias ao desenvolvimento da ciência no Amazonas?

Raupp: O MCTI está presente no Amazonas de modo importante. Temos no Estado o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa), um centro de ensino e pesquisa de referência em diversas áreas do conhecimento. Outra instituição supervisionada pelo MCTI é o Instituto de Desenvolvimento Sustentável Mamirauá (IDSM), uma organização social que promove a pesquisa científica para conservação da biodiversidade. Essas instituições trabalham em diversas áreas do conhecimento, mas são focadas principalmente nos recursos naturais. No meu modo de entender, o foco deve ser o aproveitamento sustentável dos recursos naturais. Estou convicto de que os institutos de pesquisa devem ser fortalecidos para se dedicarem a grandes projetos mobilizadores e estruturantes do desenvolvimento sustentável.

AFC: A colaboração entre instituições científicas e micro, pequenas e grandes empresas no campo das pesquisas no Brasil é um dos desafios na área. Quais suas perspectivas para impulsionar ainda mais a cultura da inovação a serviço do setor produtivo no País?

Raupp: A colaboração é vital em pesquisa, seja qual for a dimensão da empresa. O modelo de parques tecnológicos propicia o ambiente de colaboração entre empresas, universidades e instituições de pesquisa. Eu tive essa experiência no Parque Tecnológico de São José dos Campos e estou convicto que precisamos avançar nesse modelo de colaboração. Também há um esforço consistente para efetivar os instrumentos de cooperação já previstos na legislação de CT&I, por meio de incentivos fiscais, ações da Finep (Financiadora de Estudos e Projetos) e mesmo novos arranjos que estão sendo pensados pelo Ministério.

AFC:  A riqueza impressionante da diversidade biológica da Amazônia é um aspecto que favorece o País na perspectiva científica, tecnológica e de inovação. Nesse sentido, qual a importância, na sua avaliação, de uma política forte e contínua de Ciência, Tecnologia e Inovação para o desenvolvimento sustentável do Brasil com base nessa riqueza?

Raupp:  A ciência é decisiva para anular os conflitos entre desenvolvimentismo e ambientalismo. Eu verifico que, com muita frequência, os assuntos relacionados à Amazônia tomam dimensões de debate nacional e geram radicalismos que podem levar à criação de um antagonismo: uns querem transformar a Amazônia em cemitério, outros, em santuário intocado. Sou contra o radicalismo e defendo que a conservação possibilite a interação dinâmica e sustentável entre os diversos biomas da região. Precisamos construir um modelo de aliança entre o conhecimento científico e a economia.

AFC: O intercâmbio internacional é uma das estratégias propulsoras em outros países. Nesse contexto, como o Brasil está estruturando esse processo a partir do programa ‘Ciência sem Fronteiras’?

Raupp:  Este é um projeto mobilizador. O MCTI e o Ministério da Educação, por meio de suas instituições de fomento Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), estão comprometidos com o esforço de levar 100 mil estudantes brasileiros de graduação e pós-graduação às mais conceituadas universidades de todo o mundo. Favorecer a mobilidade internacional é uma exigência da economia globalizada. A expectativa do governo é de que esses estudantes e pesquisadores voltem ao País muito bem preparados para promoverem a inovação em setores estratégicos da nossa economia. Um dado importante é que algumas empresas privadas já atenderam ao convite do governo e aderiram ao programa, passando a patrocinar bolsas para estudantes brasileiros.

AFC:  No campo da formação de Recursos Humanos de alto nível, qual a perspectiva do Ministério para a região amazônica?

Raupp:  O Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa) oferece programas de pós-graduação de excelência, bem como o MPEG – Museu Paraense Emilio Goeldi, que também é uma instituição vinculada ao MCTI e localizada no Pará. Como se vê, estamos bem presentes na região, mas ainda há muito a fazer. O Ciência sem Fronteiras é outra iniciativa para formação de recursos humanos de alto nível e dele as instituições localizadas na Amazônia podem também se beneficiar. 

AFC:  Qual a estratégia do MCTI para fixar doutores nos institutos de pesquisa da Amazônia nas diferentes áreas do conhecimento?

Raupp:  Os institutos de pesquisa, como já disse, devem ser fortalecidos para se alinharem à política de Ciência, Tecnologia e Inovação. Eles devem se dedicar a grandes projetos mobilizadores e estruturantes do desenvolvimento sustentável. É preciso ter projetos desafiadores para fixar o pesquisador. A melhoria da infraestrutura de comunicação é outro fator importante para mantê-los na região, pois lhes dá condições mais favoráveis para atuar em uma rede de pesquisa.

AFC:  Qual o maior desafio para o seu Ministério em termos de recursos para financiar projetos de CT&I?

Raupp:  Temos muitos desafios, mas a agenda deste ano traz uma questão crucial: a discussão sobre o destino dos royalties do pré-sal. Precisamos garantir a manutenção do fundo setorial de petróleo e gás nos níveis atuais. Esta é a preocupação de todos os que pensam no futuro. O petróleo é um recurso finito, vai acabar. Vamos lutar para que parte dos recursos provenientes dos royalties do pré-sal destine-se a projetos portadores do futuro. A ameaça do momento é de que o fundo setorial de petróleo e gás perca recursos de monta, que podem superar R$ 1,3 bilhão por ano. Além disso, parte dos recursos que são destinados diretamente aos Estados e municípios tem de ser direcionada para ações em CT&I e para educação. Essa é uma questão que diz respeito a todos os brasileiros, que são os verdadeiros donos dos recursos oriundos do pré-sal. Por isso, é necessário que todos se unam em defesa da inversão de parte dos recursos do pré-sal em projetos de P&D e em educação. É o caminho certo para se aproveitar a imensa reserva de gás e petróleo em favor das gerações futuras e do desenvolvimento sustentável do País.

Fonte: FAPEAM

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