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Avaliação do ensino médio será mantida, diz ministro

A substituição foi criticada por educadores, que veem tentativa de mascarar os resultados ruins do Ideb

O ministro da Educação, Aloizio Mercadante, afirmou ontem (29) que manterá o atual sistema de avaliação de estudantes do ensino médio enquanto o Enem não estiver completamente adaptado para analisar essa etapa. Há duas semanas, ele disse que pretendia alterar o sistema de avaliação, após dados oficiais mostrarem que a etapa estacionou em patamar insatisfatório de qualidade.

A proposta foi criticada por educadores, que entenderam que a mudança poderia ser uma manobra para mascarar os resultados ruins. E que haveria perda da série histórica, iniciada em 1995.

Hoje, o ensino médio é avaliado por amostra de 70 mil alunos, por meio da Prova Brasil. A ideia do ministro é substituir esse sistema pela prova do Enem, que no ano passado contou com 1,5 milhão dos quase 2 milhões de formandos no ensino médio. Criado para ser uma autoavaliação dos estudantes, o Enem hoje define quem ingressará no ensino superior via programas federais, como Fies e o Prouni. Também é usado por instituições privadas como parte da nota.

O problema apontado por quem critica o Enem para avaliar o ensino médio é que, como o exame não é obrigatório, a avaliação oficial poderia passar a desconsiderar os que têm mais dificuldades, que nem sequer prestam a prova. E as notas melhorariam artificialmente.

Segundo Mercadante, o sistema amostral será mantido “o tempo necessário”, até que o Enem esteja adaptado para a função de avaliar a etapa final da educação básica. “Não teremos nenhuma iniciativa de amenizar o quadro do ensino médio”, afirmou o ministro.

Mercadante diz que uma das vantagens da substituição é que passará a haver dados e metas por escola. O desafio é definir como tratar na avaliação os formandos que não prestam o Enem. Uma ideia é tornar a prova obrigatória. Também poderá haver correções estatísticas.

Ensino Fundamental

Etapa com 14 milhões de alunos, os anos finais do ensino fundamental estão num “limbo”, quase sem políticas e pesquisas. Essa é a conclusão de trabalho da Fundação Carlos Chagas, feita a pedido da Fundação Victor Civita. O estudo analisou normas e programas específicos do 6º ao 9º ano do fundamental. No âmbito da União, os pesquisadores encontraram só uma política com o foco, de capacitação de docentes.

A conclusão do trabalho é que o País prioriza os primeiros anos do fundamental, especialmente a alfabetização – que conta com diversos programas de capacitação de professores, melhoria de livros, entre outras ações. Dados do MEC reforçam a tese de que os primeiros anos do fundamental estão mais bem atendidos.

No Ideb (índice que contabiliza desempenho dos alunos e taxas de aprovação), a etapa inicial aumentou 1,2 ponto em seis anos, numa escala até 10. Já os anos finais avançaram apenas 0,6. “É o momento que o aluno passa a ter vários professores. Nem ele nem a escola estão preparados”, afirma Angela Dannemann, diretora da Fundação Victor Civita.

Secretário de Educação Básica do ministério, Cesar Callegari, nega que a etapa esteja “esquecida”. Diz que há programas como o Mais Educação, que financia escolas que aumentem a jornada escolar; e a criação de diretrizes curriculares, em 2010.

Etapa não consegue agregar competências e habilidades

Análise de Ernesto Martins Faria, coordenador de projetos da Fundação Lemann.

Os indicadores nos anos finais do ensino fundamental evoluíram muito pouco – o Ideb 2011 mostra que passamos de 4,0 para 4,1. Nos anos iniciais, de 4,6 para 5,0. Apesar do ritmo mais rápido nos primeiros anos, o fato de os alunos não aprenderem o que deveriam faz falta na etapa seguinte – o aprendizado é cumulativo e a defasagem em algum assunto impede o aprendizado de outro.

Uma análise feita pela Fundação Lemann mostra que os municípios em que os alunos do 5º ano obtiveram os melhores resultados em 2007 não mantiveram o desempenho no 9º ano em 2011. Partindo da hipótese que os grupos representam basicamente a mesma coorte de alunos, isso indica que essa etapa não consegue agregar as habilidades e competências esperadas nem quando recebe alunos com nível melhor de aprendizado.

Uma dificuldade é que, após cinco anos, os alunos estão em patamares de aprendizado bem diferentes. Alguns chegam analfabetos ao 6º ano. Isso exige que a escola seja capaz de traçar estratégias para individualizar o ensino – garantindo o aprendizado dos que não dominam conteúdos básicos e daqueles que estão mais avançados.

Outro ponto é a falta de um currículo estruturado. Não ter definição do que deve ser ensinado em cada série, permitindo ao professor trabalhar com metas claras de aprendizado, já é problema nos anos iniciais – mas é pior nos anos finais, que têm conteúdos mais variados e complexos.

A Fundação Victor Civita acerta ao dizer que faltam mais estudos e atenção a essa etapa de ensino, onde problemas estruturais da educação como a formação dos professores e o despreparo das escolas para lidar com um grupo heterogêneo parecem ter um impacto ainda maior.

Fonte: Folha de São Paulo

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