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Artigo: Sob nova direção

Por Odenildo Sena*

Nada contra o ministro Mercadante. Nada mesmo. Mas eu gostei da troca no Ministério de Ciência Tecnologia e Inovação.

Nada contra, repito, o ministro Mercadante, que mudou de endereço na Esplanada e passou a ocupar o comando do velho MEC. Político de carreira experiente, vivo, rápido no gatilho e nas palavras, fez a diferença, sim, em um ano à frente do MCTI. Em poucos meses, discursava com habilidade sobre os mais áridos e complexos temas científicos, com direito à análise dos mais diversos indicadores, como se não tivesse feito outra coisa na vida. Não me equivoco em assegurar que, ao longo de sua existência, o ministério nunca esteve tanto em evidência quanto em sua curta gestão. Digo isso porque acompanhei atentamente esse percurso. Raro o dia em que a marca MCTI, associada ao seu nome, deixou de estar estampada na grande, média e pequena mídia. É de justiça, também, ressaltar que o ministro Mercadante soube vender com rara eficiência o peixe da inovação, mobilizando o meio empresarial e a academia em torno de uma febre que tem se mantido com boa temperatura.

Mas eu não tenho como esconder que gostei da mudança. E tenho motivos para isso. Primeiro motivo: é bom ressaltar que o novo ministro, Marco Antonio Raupp, cientista respeitado, é do ramo, tendo assumido vários cargos, todos eles no ramo. Mas digamos que isso não seja suficiente. Aí entra o segundo motivo: sua visão de brasileiro se recusa a confundir as fronteiras do estado onde vive com aquelas de dimensões continentais representadas por esse país que se chama Brasil. Suponhamos que seja pouco mérito. Ataco, então, com o terceiro motivo: as desigualdades regionais no desenvolvimento da ciência são uma preocupação permanente em seus discursos, que mais parecem sempre uma conversa descontraída com um locutor determinado. Quem acompanhou sua trajetória frente à SBPC, desconcentrando as ações da instituição e popularizando suas atividades, sabe de que estou falando. O texto de seu discurso, ao receber o cargo, mostrou-se recheado de alusões à necessidade do espírito colaborativo com os estados, coisa nem sempre cara a quem ocupa gabinete na Esplanada dos Ministérios. E isso acentua – e muito – o seu espírito de brasilidade. Imaginemos, então, que seja essa uma importante virtude, mas ainda carente de outros princípios. Coloco na mesa o quarto motivo: sua explícita compreensão da importância estratégica da Amazônia para o Brasil e para o mundo, tema sempre farto na boca de todos, mas sempre relegado ao plano do esquecimento quando se trata de juntar ações às palavras. Quem fala é o próprio Raupp: “Temos de usar a biodiversidade com sabedoria, e é aí que a ciência se faz necessária”. Mas, julguemos, ainda assim, carente tal razão. Forço-me a compartilhar o quinto motivo: a segurança de que princípios assumidos publicamente ao longo de sua trajetória de vida se transformam em compromisso inarredável. “Não vou abdicar daquelas ideias que sempre defendi”.

Nada contra, portanto, o ministro Mercadante. Mas o ministro Raupp é muito bem-vindo.

*Odenildo Sena é Secretário de Ciência e Tecnologia do Amazonas e Presidente do Conselho Nacional de Secretários Estaduais para Assuntos de CT&I (Consecti). Artigo publicado simultaneamente no Jornal Diário do Amazonas e nos portais D24am e Portal Amazônia em 07/02/12.

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