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Aos 50 anos, Inpe busca renovação

Cerca de 70% dos funcionários do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais têm mais de 20 anos de casa; nº de servidores está em queda.

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) – responsável pelo desenvolvimento de satélites, monitoramento do desmatamento na Amazônia e das queimadas do País, além da elaboração da previsão do tempo – chega aos 50 anos com uma inquietação. Aproximadamente 70% dos pesquisadores e especialistas que trabalham ali têm mais de 20 e 30 anos de casa.

Para manter os serviços de qualidade, o Inpe necessita urgentemente renovar seu quadro de funcionários, com a abertura de pelo menos 400 vagas. “É uma bomba-relógio. Temos uma enorme carência de jovens”, diz Gilberto Câmara, diretor do Inpe.

O plano diretor do Inpe para o período 2011 a 2015 dá a dimensão do problema: “A geração dos ‘cabelos brancos’, com mais de 50 anos, trabalha como nunca; realiza tanto as tarefas gerenciais e de planejamento típicas de sua idade quanto tarefas de bancada, desenvolvimento e montagem, que normalmente seriam atribuições de jovens cientistas e engenheiros.”

Para completar, o número de servidores permanentes está em queda desde 2006. E nos próximos três anos, uma quantidade significativa de pessoas estará em condições de se aposentar. “Hoje, temos pesquisadores com experiência e produzindo muito, mas eles vão embora um dia e não há outros aprendendo com os mais velhos”, afirma.

De acordo com o documento, em 1989 o instituto tinha 1,6 mil servidores, sendo somente 50 com mais de 20 anos de serviço. “Passados 20 anos, somos apenas 1.070 servidores, dos quais só 300 têm menos de 20 anos de casa”, diz o plano diretor.

Se forem considerados apenas os engenheiros e tecnologistas (especialistas no desenvolvimento de novas tecnologias), a situação piora. Em 1989, 95% deles “tinham menos de 20 anos de serviço e, hoje, 72% têm mais de 20 anos de casa”. O diretor afirma que há várias pessoas terceirizadas ou que fazem pós-doutorado no instituto. “Mas eles não têm estabilidade e não permitem garantir que o Inpe. A médio e longo prazo. Vai continuar”, alerta.

Câmara ressalta que a abertura de vagas depende da Presidência da República. “O ministro Aloizio Mercadante é inteiramente favorável. Esperamos que a presidente (Dilma Rousseff) também seja sensível”, diz. Ambiente. O Inpe começou focado nas pesquisas espaciais. Mas, ao longo do tempo, passou a ter um papel importante também na área ambiental. O instituto faz o monitoramento do desmatamento da Amazônia e das queimadas no País. Também realiza a previsão do tempo e estuda as mudanças climáticas.

Para o futuro, o diretor diz que o monitoramento deve ser ampliado para os demais biomas brasileiros, como a Mata Atlântica, o Cerrado e a Caatinga. O peruano José Antonio Marengo, chefe do Centro de Ciência do Sistema Terrestre do Inpe (que estuda as mudanças globais), afirma que um dos trabalhos em andamento tenta mostrar qual foi o custo da seca de 2005 na Amazônia.

“Há poucas avaliações econômicas. Se o estudo der certo, a metodologia depois poderá ser aplicada para a seca de 2010 e a enchente de 2009”, afirma.

Visibilidade – O diretor Gilberto Câmara ressalta que o Inpe foi a instituição científica brasileira melhor classificada no ranking do Cybermetrics Lab, do Conselho Superior de Investigações Científicas (CSIC), na Espanha, que mede os acessos na web. Obteve o 38.º lugar – os primeiros lugares são todos de instituições americanas: o Instituto Nacional de Saúde, a agência espacial (Nasa) e a agência de oceanos e atmosfera (Noaa).

Entre as brasileiras, aparecem a Embrapa (50.º lugar) e a Fiocruz (99.º lugar). “O Inpe é hoje o centro de pesquisa mais visível, com maior presença na vida das pessoas. Isso dá uma dimensão do bom papel que desempenha”, diz Câmara.

Críticas – O fundador e primeiro diretor do Inpe foi o cearense Fernando de Mendonça, de 86 anos. Formado no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA) e com doutorado na Universidade de Stanford, ele conta que se inspirou na Nasa (lançada em 1958) para criar o instituto brasileiro. Mas os programas do País usavam cerca de 1% a 3% do valor gasto nos projetos americanos.

“Nunca tivemos a ambição de colocar alguém na Lua. A ambição era o progresso brasileiro.” Em sua opinião, o Inpe segue atualmente por um caminho equivocado. Hoje em dia tem muitas áreas de serviço, como o meteorológico e a observação de queimadas. Acho que o instituto deveria se dedicar mais às pesquisas.”

De acordo com ele, “uma vez que se chega ao ponto de serviço, ele deveria ser entregue para um setor adequado do governo cuidar”. Mendonça critica a falta de criatividade e o fato de as linhas de pesquisa serem basicamente as mesmas que ele iniciou há 50 anos. Ele ainda aponta que o supercomputador adquirido pelo Inpe é subutilizado cientificamente e mais voltado para os serviços.

O ex-diretor do Inpe avalia que, ao gastar R$ 50 milhões para comprar o supercomputador, deveriam ter investido pelo menos R$ 5 milhões em formação de pessoas que “viessem a praticar ciência com aquela máquina”. O que não foi feito. “No Brasil, é muito mais fácil construir prédio e comprar computador do que formar gente.”

O atual diretor, porém, elogia “a visão inteligente” do antecessor e diz que o instituto nunca se afastou do objetivo inicial. “O Inpe não é apenas uma instituição que faz satélite. O grande diferencial são os benefícios concretos à população.”

Governo estuda fundir instituto com agência espacial – Marco Antonio Raupp, presidente da Agência Espacial Brasileira (AEB), avalia que o programa espacial do País está muito pequeno para o tamanho do Brasil. Ele diz que a agência não tem um corpo técnico e, para melhorar a situação, uma das saídas é a fusão da AEB e do Inpe. Seria uma forma de dar mais eficiência ao programa sem aumentar tanto os gastos. Com a fusão, no entanto, a parte do Inpe que cuida do ambiente poderia ficar deslocada.

Raupp, que já foi diretor do Inpe e presidente da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), lista os avanços que o programa espacial precisa fazer. Ele lembra que os satélites usados pelo Inpe para monitorar o desmatamento na Amazônia hoje não conseguem ver através das nuvens e seria importante o desenvolvimento de satélites com sensores de radar. A Agência Nacional de Águas (ANA) também precisa de satélites mais modernos para fazer a gestão de bacias – ela utiliza um de 18 anos atrás. “Também não temos satélite próprio para a área de meteorologia”, diz.

O atual diretor do Inpe, Gilberto Câmara, aceita a ideia da fusão. Mas faz ressalvas. “Queremos uma fusão com a AEB com a perspectiva de fortalecer o Inpe. O órgão final deve se chamar Inpe.” O debate sobre o futuro do programa espacial passa, diz ele, sobre quanto o País está disposto a investir. Para concretizar as missões previstas, como lançamento dos satélites em 2015 e 2016, será preciso dobrar o orçamento até 2014.

Fonte: Jornal da Ciência com informações do Jornal O Estado de São Paulo

 

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