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América se torna primeira região do mundo livre de sarampo

A América, do Canadá à Terra do Fogo, no extremo sul da Argentina, se tornou a primeira região do mundo declarada livre de sarampo. O certificado foi entregue nesta terça-feira em Washington, na Organização Pan-Americana da Saúde(OPAS), unidade regional da Organização Mundial da Saúde (OMS). É o resultado de um esforço iniciado há mais de duas décadas e que sofreu vários contratempos, principalmente devido à relutância de alguns países em cumprir as recomendações de vacinação de crianças.

A diretora da OPAS, Carissa Etienne, comemorou como um “dia histórico para a região e para o mundo”, a declaração de que o continente conseguiu “a eliminação da transmissão endêmica do sarampo”, confirmada por um comitê internacional de especialistas, durante a reunião anual do organismo pan-americano em sua sede, em Washington. Mas a diretora também alertou para o risco de “não se cair na complacência”.

“O sarampo continua circulando amplamente em outras partes do mundo, por isso temos de estar preparados para responder aos casos importados”, alertou Etienne. Para isso, destacou, é essencial “continuar a manter altas taxas de cobertura de vacinação”, assim como “informar imediatamente” qualquer caso suspeito de sarampo.

Estima-se que, com a ampla extensão das vacinas, graças a intensas campanhas em todo o continente americano e Caribe, até 2020 terão sido prevenidos 3,2 milhões de casos de sarampo e até 16.000 mortes relacionadas à doença em toda a região. Antes do início da vacinação em massa, em 1980, o sarampo causava cerca de 2,6 milhões de mortes por ano no mundo. Nas Américas, foi responsável por 101.800 mortes entre 1971 e 1979. O sarampo é uma doença viral altamente contagiosa, que afeta principalmente crianças, e pode causar problemas graves de saúde, como pneumonia, cegueira ou encefalite.

Com a declaração oficial divulgada nesta terça-feira, o sarampo se torna a quinta doença que se pode prevenir por vacinação a ser eliminada nas Américas. A varíola foi erradicada em 1971, a pólio em 1994, e, em 2015, a rubéola e a síndrome da rubéola congênita.

Um longo caminho até a eliminação do sarampo

Os esforços para eliminar o sarampo remontam a 1994, quando todos os países das Américas se comprometeram a “eliminar a transmissão endêmica do sarampo” até o ano 2000. O último surto endêmico de sarampo na região foi registrado na Venezuela, em 2002. No entanto, alguns países da região continuaram a registrar casos na década seguinte, o que impedia de atingir o objetivo de declarar conjuntamente sua eliminação com a da rubéola, o que ocorreu no ano passado. O último caso de sarampo endêmico nas Américas foi registrado em julho de 2015, no Brasil.

Além disso, entre 2003 e 2014, foram confirmados nas Américas 5.077 casos de sarampo importados ou relacionados a uma importação, segundo dados da OPAS.

Os Estados Unidos foram um dos últimos países a sofrer um surto desse tipo, com mais de uma centena de casos, o mais grave neste século. Sua origem foi localizada no parque de diversões Disneyland, em Anaheim, Califórnia, em uma pessoa que visitou o local em meados de dezembro de 2014. Em janeiro de 2015, já haviam sido registrados 102 casos. O número de pessoas infectadas chegou a superar 150, localizadas em vários Estados do país, demonstrando a facilidade com que esse tipo de doença, que alguns acreditavam ser coisa do passado, pode se espalhar. Em julho daquele ano, o Estado de Washington relatou a morte de uma mulher por sarampo. Foi a primeira morte em mais de uma década. Cerca de 40% dos infectados tinham menos de 20 anos.

Uma batalha também política

O surto na Disneyland e a rapidez com a qual se espalhou nos EUA voltaram a focar a atenção sobre a decisão de alguns pais — também em outras regiões, como na Europa — de não vacinar seus filhos, alegando estudos — que demonstraram ser falsos — vinculando as vacinas a doenças como o autismo. As mais altas autoridades do país, incluindo o presidente Barack Obama, destacaram a importância da vacinar as crianças. Depois do surto, o governador da Califórnia, Jerry Brown, assinou no ano passado uma das leis de vacinação mais rígidas do país, que proíbe alegar “crenças pessoais” para não vacinar os filhos e também veta a matrícula de crianças não vacinadas em escolas públicas ou privadas.

Apesar dos estudos que derrubam o mito das vacinas e sua relação com o autismo, o argumento continua vivo nos EUA. O candidato presidencial do Partido Republicano, Donald Trump, o defendeu em um dos primeiros debates das primárias, há um ano. E também tuitou sobre o assunto várias vezes no passado. Por outro lado, a democrata Hillary Clinton foi taxativa desde o início. “A ciência é clara: a Terra é redonda, o céu é azul e vacinas funcionam. Protejamos nossas crianças. As avós sabem”, disse nas redes sociais após o ressurgimento da polêmica em 2015.

Fonte: El País

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