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Um passado ainda presente: historiador desenvolve DVD sobre a industrialização do Rio de Janeiro

O intenso processo de industrialização que aconteceu no Rio de Janeiro a partir do século 19 e durou cerca de 100 anos, é uma época que até hoje vive na memória de muitas pessoas como um passado glorioso. Para alguns pesquisadores, como Paulo Fontes, historiador e professor da Escola de Ciências Sociais – conhecida como Centro de Pesquisa e Documentaçao de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) – da Fundação Getúlio Vargas (FGV), o período representa uma lacuna na história atual do Rio de Janeiro. “A construção da identidade oficial do Rio enfatiza seu papel como capital federal e suas belezas naturais. A industrialização da cidade estabeleceu intensas conexões com a geografia urbana, o sistema de transporte, a formação de variados bairros e favelas, bem como com numerosos aspectos culturais cariocas, como o samba, por exemplo. Isso sem mencionar os impactos econômicos e políticos. As lutas sociais na cidade no século XX são incompreensíveis fora do contexto do mundo industrial. No entanto, parece que esse passado industrial é apagado de alguma forma da história e da memória do Rio de Janeiro” explica Fontes.

Para contar a história desse passado industrial ainda pouco conhecido e fazer uma vinculação com o presente, Fontes decidiu criar um documentário, mostrando algumas fábricas e os depoimentos de pessoas que viveram essa história. Memórias de um Rio Fabril tem 25 minutos de duração e foi produzido por Fontes, pela cineasta Isabel Joffily e pela professora de história do CPDOC Thais Blank, com subsídios do edital Apoio à Produção e Publicação de Livros e DVDs visando a Celebração dos 450 anos da Cidade do Rio de Janeiro, da FAPERJ.

Entre depoimentos, fotos antigas e recortes de jornais, têm destaque no filme a Companhia Cerâmica Brasileira, então localizada no Morro da Mangueira; a fábrica de tecidos Confiança, em Vila Isabel, que atualmente tornou-se um hipermercado; e a fábrica de chocolates Bhering, no Santo Cristo, que atualmente é um badalado espaço cultural na cidade.

Hoje funcionando como um espaço cultural, a antiga fábrica
de chocolates 
Bhering, fundada em 1880, no bairro do Santo
Cristo, era fornecedora da f
amília imperial brasileira 

“Centramos o documentário nessas três fábricas antigas e pudemos perceber claramente nos depoimentos que ouvimos o quanto essa memória ainda se faz presente tanto na arquitetura e na paisagem da cidade quanto nas lembranças de antigos trabalhadores e suas comunidades. É uma lacuna na nossa história que precisa ser preenchida e o filme procura contribuir para este propósito”, diz Fontes.

Com a demolição ou a transformação das antigas fábricas, no entanto, houve um processo de desconstrução do tecido social. Ele lembra que, no passado, muitas dessas instalações industriais estabeleciam conexões com as comunidades locais, e cita um exemplo curioso: “A Companhia Cerâmica Brasileira era localizada no morro da Mangueira e um dos donos da empresa, Roberto Paulino, tinha uma ligação muito forte com os moradores de lá. Tanto, que, nos anos de 1960, ele se tornou presidente da G.R.E.S. Estação Primeira de Mangueira. A população local e a empresa eram próximos, e o mesmo aconteceu em outros locais”, conta Fontes.

“Acredito que, principalmente nas localidades onde a industrialização era mais presente, houve uma abertura de espaço para o tráfico e uma crescente marginalidade”, comenta o historiador. Para ele, a desconfiguração da identidade local como resultado da desativação das fábricas e o subsequente aumento do desemprego acentuaram a crescente violência que vivemos.

Como forma de estimular ainda mais a reflexão sobre a memória industrial do Rio de Janeiro, o historiador coloca seu DVD à disposição de professores de escolas e faculdades, associações de moradores e escolas de samba, que queiram discutir o tema. “Se quiserem promover um bate-papo sobre esse passado ainda tão presente na cidade do Rio de Janeiro, sempre tenho interesse em participar dessa discussão. São formas de incentivar o pensamento crítico e a memória histórica de nossa cidade”, finaliza o pesquisador.

Fonte: Faperj

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