Giro nos Estados

Setembro Amarelo estabelece diálogo sobre a saúde mental dos estudantes na UFRGS

Iniciada em 2015, a campanha de prevenção ao suicídio chamada de Setembro Amarelo tem como objetivo sensibilizar e conscientizar as pessoas sobre um problema cada vez maior na nossa sociedade. Dados divulgados no ano passado pelo Ministério da Saúde apontam que o índice de suicídios cresceu 12% no país entre 2011 e 2015, sendo a quarta maior causa de mortes entre jovens de 15 a 29 anos. Por ano, cerca de 11 mil pessoas tiram a sua própria vida no país – são aproximadamente 30 ocorrências por dia. Criada pelo Centro de Valorização da Vida (CVV), o Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP), a iniciativa pretende quebrar os tabus que rodeiam o assunto, esclarecendo a população e estimulando a prevenção para diminuir essas taxas. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 9 a cada 10 casos poderiam ser prevenidos se as pessoas buscassem ajuda e atenção de quem está próximo.

De acordo com profissionais da área de medicina, esse sofrimento durante a formação acadêmica muitas vezes se mostra através do estresse, da ansiedade e da depressão. É uma junção de fatores que pode causar esses sintomas, como a dependência financeira, a distância da família e o aumento da responsabilidade em uma fase em que esses jovens ainda estão amadurecendo. “Às vezes ainda estão em um processo de aprimoramento da sua maturidade e não sabem como lidar com isso”, afirma a psiquiatra Grasiela Marcon. De acordo com a professora da Faculdade de Medicina da UFRGS Ana Margareth Siqueira Bassols, os jovens muitas vezes se encontram sozinhos, sem vínculos ou pessoas para ajudá-los. Esse não é um problema que afeta somente os alunos de graduação, mas também é presente durante a fase de pós-graduação. “Cada fase cobra coisas diferente e tem suas particularidades, mas todo mundo está no mesmo ambiente que faz com que determinadas demandas surjam”, diz Anna Carolina Viduani, aluna de Psicologia da UFRGS. Conforme dados compilados pela cientista social e antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, 39% dos estudantes sofrem de depressão moderada ou severa, em comparação a 6% da população. Já entre pós-graduandos, a taxa de depressão é de 40%. Esses dados também mostram que é uma preocupação de nível mundial, não algo reservado apenas para os brasileiros. Estudos de diferentes universidades em outros países indicam que o sistema de ensino está piorando globalmente e aumentando a pressão sobre seus estudantes. Para ela, há mais pressão por resultados, menos oportunidades e, consequentemente, menos esperança. “A própria natureza da produção de dados é angustiante e mentalmente exaustiva. Muitos pós-graduandos ficam isolados justamente durante uma fase na qual, já com idade avançada, se sabe pouco sobre o futuro”, afirma a pesquisadora em artigo publicado em seu website.

Embora o assunto tenha ganhado mais visibilidade atualmente, é algo que sempre afetou os alunos e que somente agora está realmente sendo discutido. O Rio Grande do Sul não é uma exceção a esse problema que afeta todo o país. A importância de se falar sobre o tema trouxe as atividades do Setembro Amarelo ao estado e à UFRGS, através de palestras e conversas sobre a saúde mental dos alunos na instituição. Um dos principais projetos realizados com esse intuito é o Pega Leve, responsável pela organização da I Semana da Saúde Mental para discutir o problema nas universidades. Criado em 2017, o projeto trabalha de diferentes maneiras: desde falar sobre a saúde mental nas redes sociais e começar o diálogo com as pessoas, promover diversas atividades para gerar discussões sobre o assunto até apresentar os sinais de alerta e onde buscar ajuda, ensinar técnicas para diminuir o estresse e criar os chamados gatekeepers.

Para o grupo que organiza o projeto, a formação desses alunos como gatekeepers para perceber os fatores de risco nos seus colegas e até em si mesmos é essencial. Um dos principais sinais que podem ser notados é a mudança de comportamento de uma pessoa. Alguém que se torna mais quieto, que deixa de comparecer às aulas ou se isola dos outros pode estar sofrendo algum problema e necessitando de auxílio. A ideia dos gatekeepers é que eles possam se aproximar dessas pessoas, iniciar a conversa e posteriormente indicá-los ao tratamento apropriado, para que consigam a ajuda de que precisam. A ideia por trás deles também é criar uma rede de apoio entre os estudantes que estejam sofrendo com as pressões e responsabilidades da graduação, para que possam contar uns com os outros. A primeira turma começou este ano na Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA), mas o grupo tem planos de abrir mais turmas no futuro, contando até mesmo com material didático para os inscritos.

Com duas coordenadoras e quatro alunos de extensão, o Pega Leve está tomando dimensões inesperadas, indicando a necessidade latente de se falar sobre saúde mental na universidade. Recebidos de braços abertos pelos estudantes, o projeto agora pretende se expandir para tomar conta da demanda, aumentando o número de envolvidos nas atividades. “A gente passa muito tempo na universidade e se forma não só como profissionais. Se a gente consegue promover um senso de bem-estar, podemos criar uma rede e criar vínculos e fazer uma coisa muito boa”, diz Anna Carolina, uma das estudantes que participam da equipe. Para Ana Margareth, uma das coordenadoras do projeto, é importante falar sobre o tema para destruir os mitos em volta do suicídio e ir contra a lei de silêncio que reina atualmente. É preciso conversar sobre o assunto para que as pessoas possam conseguir a ajuda de que necessitam. “Em primeiro lugar a gente precisa conhecer, precisa pesquisar e saber exatamente o que está acontecendo para propor também maneiras de enfrentar como instituição, como sociedade”, afirma.

O projeto Pega Leve é apenas uma iniciativa entre várias que surgiram na universidade. Neste ano, a UFRGS criou um Grupo de Trabalho de Saúde Mental do Discente, formado por 11 integrantes. O principal objetivo desse grupo é analisar as demandas relacionadas com a saúde mental dos alunos apresentadas pelas Comissões de Graduação, além de capacitar os docentes para lidar com esses estudantes. Pensando na saúde mental do corpo discente, foram criados órgãos como o Centro de Atendimento Psicológico e o Núcleo de Apoio ao Estudante para atender os alunos que necessitam de orientação. Além disso, é preciso entender melhor esse fenômeno e pesquisá-lo. Com esse intuito, Grasiela está realizando, como parte de seu mestrado, uma pesquisa sobre a saúde mental de alunos de medicina em diversas universidades do Brasil. “Tem uma questão de estigma muito importante em relação à busca pelo auxílio, principalmente nas questões de saúde mental. 30% dos alunos de medicina não buscam auxílio e esse número pode até ser extrapolado para alunos universitários no geral”, diz ela. Muitas vezes, essa relutância em procurar ajuda vem por medo de represália ou preconceito das pessoas em sua volta. Através de um questionário divulgado pelo Facebook, Grasiela averiguou questões de nível sociodemográfico, sobre o estilo de vida pessoal e o relacionamento com outras pessoas, sobre a instituição em que estudavam, sobre a forma que o suicídio era tratado durante a formação e sobre a sua própria saúde mental. De acordo com ela, estudos sobre a ideação suicida mostram que afeta cerca de 11% dos alunos de medicina do país. Estudantes de diversos cursos e universidades diferentes estão também utilizando as redes sociais para desabafar sobre o que enfrentam nas universidades. Na página do Facebook do Previamente Hígido, os estudantes de medicina da UFRGS podem divulgar as suas experiências no curso que afetaram a sua saúde mental anonimamente e conversar com outras pessoas que também passaram por situações similares. Além disso, a Frente Universitária da Saúde Mental (FUSM), originada na Universidade de São Paulo (USP), criou a campanha ‘não é normal’ para debater a condição psicológica de alunos na universidade, que acabou se espalhando por instituições de ensino de todo o país. Através da hashtag #naoénormal, eles compartilharam nas redes sociais as situações vividas ou presenciadas nas suas instituições de ensino, desde questões de assédio até as pressões e dificuldades que sofrem durante a formação.

Com as taxas de suicídio aumentando anualmente no país, a conversa e a conscientização sobre o assunto se tornou necessária. É preciso compreender essa situação e pensar na realidade de cada universidade. De acordo com Grasiela, através do estabelecimento uma linha de diálogo entre todos os envolvidos, podem-se criar estratégias para ajudar alunos e professores a lidar com o assunto e não negar a existência desse problema. Ela diz que, por mais difícil que seja, os estudantes que estão sofrendo precisam buscar ajuda e entender que não é preciso sentir vergonha por causa disso. Para Ana Margareth, “nós devemos pensar no bem-estar do aluno e seu aprendizado para que ele possa se desenvolver adequadamente e ser um bom profissional”. O debate sobre o tema da saúde mental na universidade não só é importante para ajudar os alunos que necessitam, mas também para entender o que está acontecendo para que se possa propor maneiras de enfrentar a situação como instituição e como sociedade e tornar o ambiente acadêmico mais saudável. Entretanto, essas são somente ações paliativas, para ajudar os alunos que já estão sofrendo para impedir que se torne pior. Ainda no artigo disponível em seu website, Rosana diz que o problema só será resolvido com uma transformação do sistema atual de ensino. “Precisamos atuar na redução de danos, já que a solução das causas do problema só pode ocorrer por meio de uma transformação antissistêmica. Estamos diante de um sistema universitário que passa por cortes e transformações profundas”, aponta. Melhorias da infraestrutura para pesquisa, dos recursos disponíveis e do suporte pedagógico são importantes para a saúde mental dos estudantes. Não somente isso, ela acredita que esses alunos precisam de expectativas realistas para que não se desanimem com a formação acadêmica. O debate sobre o assunto é apenas o começo de um processo que ainda está longe de terminar.

Fonte: UFRGS

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