Giro nos Estados

Secretário da Bahia concede entrevista à Fapesb; confira

No dia 2 de janeiro deste ano, tomou posse o novo secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação da Bahia, Manoel Mendonça. Prof. Manoel é Graduado em Engenharia Elétrica pela UFBA, com mestrado em Engenharia de Computação pela UNICAMP e doutorado em Ciência da Computação pela Universidade de Maryland em College Park. Antes de ser escolhido para liderar a SECTI, ele vinha atuando como professor da UFBA, onde, com o apoio da FAPESB, ajudou a implantar o primeiro doutorado em computação no estado; como gerente de estratégias de tecnologia de informação do Senai Cimatec; e como diretor do Centro de Projetos da renomada Sociedade Fraunhofer da Alemanha, que possui instalação no Parque Tecnológico da Bahia. Saiba mais sobre o novo secretário da Secti na entrevista a seguir.

1. Quais são suas prioridades como novo secretário estadual de Ciência e Tecnologia?

São muitas. Meu maior objetivo é fazer a ciência e a tecnologia chegarem ao coração da população, principalmente às crianças, e ter a certeza que posso contribuir para a realidade delas. Outro ponto muito importante para minha gestão é o fortalecimento da base científica, bem como ter uma colaboração muito próxima da FAPESB, deixando transparente para os cientistas como estamos destinando os nossos recursos. Outro viés é vitalizar o Parque Tecnológico da Bahia. Até 2018, vamos colocar várias novas instalações dentro do parque. Vamos trazer as universidades e centros de pesquisa para dentro do parque. Vamos fazer uma melhor urbanização do parque, criando áreas de convivência para nossos pesquisadores e empresas de base tecnológica, além de tentar nos aproximar mais dos moradores da cidade, criando ciclovias e trilhas ecológicas, por exemplo. Quero também fortalecer o Centro de Pesquisas e Desenvolvimento (Ceped) que já foi a maior instalação de pesquisa da Bahia. Acho que ele pode rapidamente voltar a se destacar como centro de pesquisa, serviços tecnológicos e incubadora de empresas de natureza industrial. Gostaria ainda de apoiar outras secretarias no que tange a projetos de impacto social, que precisem de ciência, tecnologia e inovação. Existem várias dessas iniciativas sendo gestadas no governo Rui Costa. O governador foi muito claro, a SECTI é transversal e nós devemos apoiar outras secretarias. O estado não deve atuar como compartimento isolado.

2. Como o senhor avalia a CT&I no estado?

Nós somos um país em desenvolvimento e a Bahia segue o mesmo caminho. Não estamos no mesmo estágio dos sulistas, mas a Bahia tem ações importantes. O estado é muito forte na área de saúde e biotecnologia, e está se desenvolvendo rapidamente em várias outras áreas, como engenharia, ciências naturais e agropecuária, só para citar algumas. Temos atores importantes nesses seguimentos. Temos que fomentá-los, sem esquecer quem está surgindo. Temos, por exemplo, que fomentar a criação de grupos no interior do estado. A distância da capital não deve ser um empecilho para se fazer boa C&T. A Bahia está crescendo e vai crescer cada dia mais no âmbito tecnológico.

3. O crescimento da área de TI tem se mostrado urgente para o desenvolvimento econômico do estado. Que ações o senhor pretende desenvolver para este setor?

Já temos em andamento o projeto banda larga. Existem um plano nacional e estadual neste segmento. Em cima disso, existe um plano chamado cidades digitais, para que os municípios, internamente, operem em alta velocidade, proporcionando melhor qualidade de serviços públicos. São planos que vamos fortalecer ainda mais. Estamos gestando também o projeto “cidades inteligentes”: soluções que envolvam o cidadão, administração pública e iniciativa privada, rodando sobre a infraestrutura das cidades digitais, para benefício global da sociedade.

4. Se uma das prioridades do governo na área de TI é dotar a Bahia de uma ampla rede de banda larga, quais são seus planos para dar cobertura total ao estado?

Temos que identificar quem está bem servido, e quem não está, no uso da banda larga. Esse é o primeiro passo. Não queremos concorrer com as empresas privadas e, no nosso estágio atual onde existem regiões com grande carência, pode ser contraproducente colocar banda larga pública onde já existe boa cobertura de banda larga privada. Vamos levar a banda larga pública prioritariamente para as cidades mais necessitadas, cidades que não são economicamente atrativas para a iniciativa privada. Estamos fazendo um levantamento cuidadoso sobre o assunto. É claro que existem setores públicos que precisam ser muito bem servidos por banda larga. Saúde, educação e segurança pública são três deles. O Governador foi muito claro quando me disse que quer uma boa banda em todas as escolas do estado. Este é um grande desafio. Atualmente existe um grande anel óptico projetado para o recôncavo. Vamos tentar expandir esta malha para outras regiões. Existem ainda muitas fibras apagadas, que estão sendo colocadas durante as nossas obras de infraestrutura – ferrovias, gasodutos, etc. Vamos estudar como acendê-las com máximo custo-benefício. Benefício, neste caso, significa máximo impacto social nas áreas chaves que mencionei anteriormente: saúde, educação e segurança pública.

5. Os jovens são muito interessados por tecnologia, mas existe pouco acesso à tecnologia nas escolas. O que seria necessário para incrementar o ensino de TI para crianças e jovens?

Você precisa fazer conteúdo interessante chegar aos jovens de forma estruturada, bem planejada. Precisamos ganhar o coração dos estudantes, dos professores e dos diretores, é todo um processo. Um tema para uma boa conversa com os nossos pedagogos mais antenados. O que eu acredito é que o Brasil está atrasado na área educacional e não vai se recuperar de forma incremental com passos tímidos. Dito isto, precisamos reconhecer que existem iniciativas de grande relevância em andamento no Brasil e na Bahia. O tema já estava no radar do Governador Wagner e, acredito firmemente, estará ainda mais forte no radar do Governador Rui Costa. A Secretaria de Educação tem iniciativas interessantíssimas já em andamento nesta área. Eu fiquei impressionado quando as conheci, mas creio que o Secretário Osvaldo Barreto, da SEC, seja o nome mais indicado para falar sobre elas. Quem sabe ele não possa ser o próximo entrevistado de vocês?

6. Como a experiência bem sucedida da Sociedade Fraunhofer pode ser aproveitada para alavancar o progresso tecnológico no estado da Bahia?

É muito benéfico para qualquer grupo de pesquisa ter uma amarração internacional, ter parceiros de verdade e de alto nível. E isto é o que a Sociedade Fraunhofer foi para mim. É, não sem razão, a maior organização de pesquisa aplicada da Europa, com 80 institutos de pesquisa e quase 25 mil cientistas. Ela me ensinou que para fazer PD&I de qualidade é preciso se ater a alguns princípios simples, mas muito importantes. Poderia mencionar vários deles, mas vou me ater ao principal. O ecossistema de ciência, tecnologia e inovação para ser completo precisa de universidades, centros de pesquisa e empresas inovadoras fortes. Um não substitui o outro. A universidade tem natureza aberta. Seu objetivo é maximizar a criação e a transferência de conhecimento. Esta natureza não pode, e não deve, priorizar o segredo industrial e o desenvolvimento direcionado e eficiente de produtos. É aí que entram os centros de pesquisa. Eles precisam estar firmemente ancorados em universidades de ponta. No caso do Fraunhofer, os diretores de seus institutos são sempre professores catedráticos, que, ao assumirem a direção dos institutos, passam a ser executivos de pesquisa e desenvolvimento, com uma forte pegada de gestão. Na última milha estão as empresas inovadoras, que se só se mantêm inovadoras fazendo pesquisa e desenvolvimento de ponta, no estado da arte da sua área de atuação. Este tipo de P&D é um investimento caro. Empresas de médio e de pequeno porte precisam usar estruturas compartilhadas, confiáveis em termos de sigilo e gestão eficiente de projetos, só aí o ciclo se fecha. Se qualquer dos três elos falha, a cadeia pesquisa, tecnologia e inovação se parte, e o sistema falha. Precisamos ter densidade nos três níveis: universidades, centros de pesquisa e empresas inovadoras.

Fonte: SECTI-BA

Próximos Eventos